O gerente da Baratos e a esposa Bia se apaixonaram pela dramaturgia de João Cícero ao assistirem a peça “Meu Coração (ou de carinho e de sexo)” na Sala Baden Powell em 2022. Depois o casal ficou ainda mais impressionado com “Meus Olhos (ou de medo e cuidado)”, encenada no pequeno, charmoso e acolhedor Espaço ABU. (Onde também foi encenada “Tarde”. Obviamente o casal assistiu também!).
Pois “MEUS OLHOS” SERÁ LANÇADO EM LIVRO, pela Editora Numa, NA TERÇA dia 3 de março, no Sebo Baratos.
A CANTORA ANA MAURA PARTICIPA com uma pequena apresentação, acompanhada de um violão 7 cordas. Ana preparou o ator Carlos Marinho, o que resultou numa performance impressionante – em que contracenou com a magistral Cilene Guedes.

“Meus Olhos” narra um dia na vida de um casal que vive junto há oito anos em São Gonçalo. Alcina é mãe de um presidiário que retornará à liberdade no dia seguinte. Ednaldo, 20 anos mais jovem do que ela, era o melhor amigo do jovem violento que voltará para casa e não sabe da relação dos dois. Alcina cuida de um idoso e luta para pagar o aluguel e as contas, numa situação de trabalho abusiva. Ednaldo, criado pelos vizinhos, resiste às limitações impostas pela deficiência visual grave que se instalou na infância e piora dia a dia. Para eles, o erotismo e o amor instauram-se sob a necessidade de cuidar um do outro e a sombra do medo. Mas o quanto é possível suportar para viver uma relação de amor?
O texto é o resultado de uma pesquisa dramatúrgica etnográfica e da experiência de quatro anos de João Cícero como professor de artes numa escola próxima à comunidade do Morro do Castro, onde mora o casal da peça. As observações da pesquisa trouxeram para a trama um retrato da vida hoje nesse território. Estão na peça os choques do conservadorismo ideológico, as vivências religiosas de matriz africana e cristã, a proximidade da violência e do encarceramento e seu efeito devastador na vida familiar, o esforço desmedido das mulheres trabalhadoras, mães solteiras e viúvas para o sustento de seus lares, os relacionamentos amorosos com grande diferença de idade e a recusa (não de todo opcional) de lidar com a deficiência como um limitador da existência e do trabalho.

Para desenvolver o tema da cegueira João Cícero contou com a consultoria de Ana Maura, cantora lírica deficiente visual, que já teve baixa visão e hoje não enxerga mais.
O teatro de João Cícero é de um realismo desconcertante e incomumente corajoso: trata de afetividades corriqueiras, mas do tipo que se costuma ignorar por seu aspecto um tanto marginal – aos olhos do “cidadão de bem”. Em seu universo existe amor, mas um amor sem um pingo de romantismo. Seus personagens são psicologicamente muito complexos, mas essa subjetividade está imbricada com as condições econômicas em que vivem. É um teatro militante, mas suas tramas tem reviravoltas surpreendentes, em que classe social – e as opressões que a afligem – são discutidas sem as simplificações esquemáticas a que a arte engajada costuma recorrer. Seu tema predileto é o subúrbio carioca.
A PARTIR DAS 18h na Baratos da Ribeiro Livraria, na Rua 19 de Fevereiro 90, a 5 minutos de caminhada do metrô BOTAFOGO.

