(Estava organizando o desktop do micro que fica no mezanino do sebo e descobri esta crônica, transcrita por sei lá que generosa alma. Como é comum um dos confrades do Clube da Leitura pedir pra usar o computador, quando se lembra de última hora de algum texto que gostaria de ler no encontro, imagino que este texto já tenha sido proposto como mote, em alguma das rodadas. Como queria atualizar o blog e não tive tempo ainda de digitar um dos contos apresentados na reunião do dia 20, peço licença à Dona Clarice – e à Editora que atualmente detém os direitos sobre seu catálogo – para relembrar e festejar aqui um dos maiores nomes da nossa literatura. Segundo anotação previamente encontrada no arquivo, foi retirada do livro “Aprendendo a Viver”, publicado pela Rocco.)
Muitas vezes, o que me salvou foi improvisar um ato gratuito. Ato gratuito, se tem causas, são desconhecidas. E se tem conseqüências, são imprevisíveis. O ato gratuito é o oposto da luta pela vida e na vida. Ele é o oposto da nossa corrida pelo dinheiro, pelo trabalho, pelo amor, pelos prazeres, pelos táxis e ônibus, pela nossa vida diária enfim – que esta é toda paga, isto é, tem o seu preço.
Uma tarde dessas, de céu puramente azul e pequenas nuvens branquíssimas, estava eu escrevendo à máquina – quando alguma coisa em mim aconteceu. Era o profundo cansaço da luta.
E percebi que estava sedenta. Uma sede de liberdade me acordara. Eu estava simplesmente exausta de morar num apartamento. Estava exausta de tirar idéias de mim mesma. Estava exausta do barulho da máquina de escrever. Então a sede estranha e profunda me apareceu. Eu precisava – precisava com urgência – de um ato de liberdade: do ato que é por si só. Um ato que manifestasse fora de mim o que eu não precisava pagar. Não digo pagar com dinheiro mas sim, de um modo mais amplo, pagar o alto preço que custa viver.
Então minha própria sede guiou-me.
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