“Perdi as palavras, doutor! Perdi as palavras”. E essas haviam sido aquelas que Cristina pronunciou assim que entrou em minha sala. Eu não a previa. E não previa aquela queixa, embora estivesse acostumado a relatos bizarros, comportamentos extravagantes, textos incomuns. Não obstante, surpreendi-me, embora não soubesse precisar o que me causara a surpresa, se o conteúdo de sua queixa ou se o misto do que dissera com a urgência com que ela, Cristina, se dirigia a mim. Era um pouco como se coubesse a mim devolver suas palavras perdidas.
Anotei ao lado de ‘queixa principal’: “perdi as palavras”. E não foi preciso que eu perguntasse a Cristina ‘como foi isso?’ para que ela logo dissesse, paradoxalmente logorréica: “Isso aconteceu numa segunda-feira, há duas semanas, quando eu estava no Méier, logo depois de sair do banco e havia mais uma porção de coisas a resolver, sabe quando a gente tem uma lista interminável de coisas a fazer logo no início da semana? E foi aí que senti então o esmagamento. No mesmo momento, faltou-me o ar, mas não foi medo o que senti, nem nada do tipo. Dei-me conta, naquele instante, de que perdera as palavras. Perdera as palavras que me definem, ou que me definiam até aquele momento, ou então as que me fariam sentir bem. Perdi as palavras essenciais. Você sabe o que é isso, doutor? Sabe de que tipo de esmagamento estou falando?” Sintetizei aquele relato, evitando olhá-la nos olhos, escrevendo, ao lado de história da doença atual, que C. S. D., 39 anos, branca, natural do Rio de Janeiro, no último dia 2 de julho, quando estava no Méier, de manhã, sentiu o esmagamento e perdeu as palavras. Era colorido seu relato, mas preferi não apontar a ela que, apesar de sua queixa e de seu incômodo, tinha, em verdade, muitas palavras, termos, expressões, vocábulos e até conceitos para dar-me um histórico detalhado de como tudo começara. Também preferi calar o pensamento de que eram tantas as palavras, os termos, as expressões, os vocábulos e até os conceitos que ela usava para me falar de seu caso que até poderia compartilhá-los, emprestá-los, leiloá-los, enfim, dispô-los com sobra na escrita de um livro espesso se assim quisesse. Achei, sem saber por que, que seria infantil confrontá-la com esses fatos, afinal, ela tinha a convicção de que perdera as palavras, e eu quase começava a entender que não é que estivesse muda, mas estava qualitativamente muda, digamos assim. Em hipótese diagnóstica, esbocei um “qualitativamente muda” porque era preciso que eu fizesse uso de alguma palavra para dar conta de tudo aquilo.
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