continue reading "“Cozinha Confidencial”, por Anthony Bourdain"
16
nov
Tags: Anthony Bourdain, comimda, fome, gastronomia, ostras, sopas
29
out
Cara Febea,
“Per ottenere amore tragico ci vuole astuzia. Ma sono appunto gli imcapace de astuzia che hanno sete di amore trágico.”
“Cesare Pavese 23/febbrairo de 1938. “Il mestiere di vivere.”
De tudo que vem de você, permanece em mim uma vontade de sorrir. De todos os seus sorrisos, permanece em mim a sua tristeza. De todos os seus enganos, guardo o seu desejo de acertar. De todos os seus acertos, imagino a indiferença dos outros em não reconhecê-los. Imagino também a incapacidade deles para julgar o engano e elogiar o acerto. Nem num nem outro é passível de julgamento. Você é que percebe o que reflete nos olhos dos outros! Quando enganas, sei que queres buscar a verdade. Para mim isso é suficiente. Quando dizes a verdade, não lhe creem É o preço que o mundo oferece. Me sinto capaz de distingui-los em silêncio. Quando encontrar o desespero, pensas na tua tristeza, nos teus enganos, na indiferença dos outros, nas mentiras do mundo, nas verdades buscadas. Corres o perigo de viver neste círculo desumano, para concluir que, talvez, nada vale a pena. É preciso que tu olhes que os sãos de corpo e espírito amam para depois errar e se desesperar mais tarde, porque se recordam que um dia foram puros de espírito.
Daqueles que já erraram e voltam a receber, um dia, a luz do sol, ou uma gota de chuva, não têm mais medo do erro, nem a recordação de um dia havê-los cometido. O mundo pode agora surgir com sua bela singeleza. As flores têm agora o perfume original de sua castidade. A vida é um contínuo chegar de esperanças.
Tags: acertos, amizade, amor, dedicatória, elogios, erros, mundo, saudades
14
out
O casal chegou à cidade tarde da noite. Estavam cansados da viagem; ela, grávida, não se sentia bem. Foram procurar um lugar onde passar a noite. Hotel, hospedaria, qualquer coisa serviria, desde que não fosse muito caro.
Não seria fácil, como eles logo descobriram. No primeiro hotel o gerente, homem de maus modos, foi logo dizendo que não havia lugar. No segundo, o encarregado da portaria olhou com desconfiança o casal e resolveu pedir documentos. O homem disse que não tinha, na pressa da viagem esquecera os documentos.
— E como pretende o senhor conseguir um lugar num hotel, se não tem documentos? — disse o encarregado. — Eu nem sei se o senhor vai pagar a conta ou não!
O viajante não disse nada. Tomou a esposa pelo braço e seguiu adiante. No terceiro hotel também não havia vaga. No quarto — que era mais uma modesta hospedaria — havia, mas o dono desconfiou do casal e resolveu dizer que o estabelecimento estava lotado. Contudo, para não ficar mal, resolveu dar uma desculpa:
— O senhor vê, se o governo nos desse incentivos, como dão para os grandes hotéis, eu já teria feito uma reforma aqui. Poderia até receber delegações estrangeiras. Mas até hoje não consegui nada. Se eu conhecesse alguém influente… O senhor não conhece ninguém nas altas esferas?
O viajante hesitou, depois disse que sim, que talvez conhecesse alguém nas altas esferas.
— Pois então — disse o dono da hospedaria — fale para esse seu conhecido da minha hospedaria. Assim, da próxima vez que o senhor vier, talvez já possa lhe dar um quarto de primeira classe, com banho e tudo.
O viajante agradeceu, lamentando apenas que seu problema fosse mais urgente: precisava de um quarto para aquela noite. Foi adiante.
continue reading "“A noite em que os hotéis estavam cheios”, por Moacyr Scliar"
Tags: casal, hospedaria, hotel, Moacyr Scliar, vagas
11
out

O conto “A noite em que os hotéis estavam cheios”, do gaúcho Moacyr Scliar, foi vencedor da votação realizada na última edição do Clube da Leitura no Centro Cultural da Justiça Federal. Os textos escritos para o próximo encontro do Clube devem ser baseados neste conto.
O próximo encontro do Clube da Leitura acontece no dia 23 de outubro próximo, como sempre numa terça-feira, a partir das 20hs, na livraria e sebo Baratos da Ribeiro, em copacabana.
2
out
1. Aqui começa a viagem para cima. Aqui começa a viagem para baixo. O que nem todos sabem é que escadas não levam apenas acima e abaixo. Escadas são passagens para outras dimensões. Não se trata somente de subir ou de descer, mas de transcender.
2. Em 1925, uma faxineira desapareceu na escada entre o 29º e o 30º andares do edifício Martinelli, em São Paulo. Apesar de seu marido afirmar que ela fugiu com outro, nunca se soube de seu paradeiro. Desde então aquele trecho das escadarias ficou conhecido como Triângulo das Bermudas. Outro mistério é a origem de tal nome. “Tenho certeza de que naquele dia a Maria usava saia”, afirmou a única testemunha.
3. Ajoelhe-se diante de uma escada e aproxime o ouvido do primeiro degrau. Nele, você ouvirá o tum-tum dos fabricantes de escadas africanos, aqueles que salvam vidas humanas e aumentam o jejum forçado dos leões.
4. Pise numa escada e de repente você estará em outro plano.
continue reading "“A Escada”, por Joca Reiners Terron"
Tags: degrau, escadas, Joca Reiners Terron, Luciano Schmitz, mistérios, planos, queda, viagem
17
set
É essa a realidade, não é?
Vinte anos depois, a sua beleza já foi para o lixo, especialmente quando arrancaram fora metade das suas entranhas.
O tempo é cruel não é?
Não é assim que se diz?
Tags: cruel, idade, Jeniffer Egan, realidade, tempo, velhice
3
set
Prólogo
07 de setembro de 2008 – Domingo – 17h42
Cyrille. Eu pesquisei antes de vir. É um nome francês. Mas vem do grego Kyrillos, que significa “plena autoridade”. No meu entender, algo só pode ter plena autoridade se for um ser humano. Digo isso porque o único Cyrille que tive oportunidade de conhecer nesses vinte anos de vida é o nome de uma casa. Cyrille’s House, na verdade. Um nome atípico, não só pela tosca combinação francês-inglês, mas também por sua localização abaixo da linha do Equador, em pleno Sudeste brasileiro.
Felizmente, tudo fica mais claro quando se conhece a dona da casa: Maria Clara, ou Marie Claire, como prefere ser chamada. Só o fato de ela preferir atender por um nome de revista em vez de usar o original já revela que ela não era lá muito normal. Mas, como todos os pirados com mais de sete dígitos na conta poupança, Maria era considerada apenas moderna. A mansão de nome gringo era só mais uma das pecinhas da sua personalidade peculiar.
Não sou capaz de lembrar a primeira vez que entrei em Cyrille’s House. Eu tinha oito meses e meu universo se resumia a sopinha, gugudadá e berço. Minha mãe sempre fora grande amiga da Maria e compartilhava com ela aquele estilo high society de encarar um país subdesenvolvido: casas com nome de gente, carros blindados e babás devidamente robotizadas e uniformizadas para cuidar dos filhotes.
Naquela época, a casa não era tão importante para mim. Eu corria pelos corredores perseguido por uma infeliz que ganhava um salário mínimo. Depois, chorava porque queria brincar no parquinho, e, então, chorava porque tinha brigado com Zak. Acho que minha infância toda pode ser resumida em choro. Não de tristeza, mas de pirraça mesmo. Eu chorava e conseguia o que queria. Era feliz daquele jeito.
Só a partir dos três anos a arquitetura do lugar começou a fazer sentido para mim, como um mapa se formando em minha mentezinha infantil: a grande porteira de ferro já gasta. O caminho de terra até o casarão. O parquinho com balanços e gangorra onde eu me divertia com Zak. O tímido jardim na entrada, fazendo frente à convidativa varanda. E, na parte de dentro, uma infinidade de quartos, banheiros, cozinhas, salões… Daria para vinte famílias comunistas morarem ali. Mas não, Cyrille’s House era apenas uma casa de campo para a família Vasconcellos receber os amigos nas férias de julho.
continue reading "“Suicidas”, por Raphael Montes"
Tags: dinheiro, morte, Raphael Montes, riqueza, suicÃdio
15
ago
Conheci-o num bar, em dezembro de 1989. Eu estava de passagem por Nova York e ele me convidou para ficar na sua casa. Aceitei. Ele me deu o endereço, as chaves, e sumiu. Passei a noite sozinha na cama dele. Num pedaço de papel achado por acaso debaixo de um maço de cigarros, estava escrito: “Resoluções de Ano-Novo: não mentir mais, não morder mais.” Foi meu único indício. Algum tempo depois, telefonei-lhe de Paris para agradecer. Ele combinou de encontrar comigo no dia 20 de janeiro de 1990, no aeroporto de Orly, às nove horas. Não apareceu. No dia 10 de janeiro de 1991, às dezenove horas, o telefone tocou: “É Greg Shepard, estou em Orly, um ano atrasado. Você quer me ver?”
Tags: ano novo, atraso, Sophie Calle, vida
31
jul
Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que poderíamos ter sido. Ah, se apenas tivéssemos acertado aquele número (unzinho e eu ganhava a sena acumulada), topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito sim, dito não, ido pra Londrina, casado com a Doralice, feito aquele teste…
Agora mesmo neste bar imaginário em que estou bebendo pra esquecer o que não fiz – aliás, o nome do bar é imaginário – sentou um cara do meu lado direito e se apresentou:
- Eu sou você, se tivesse feito aquele teste no botafogo.
E ele tem mesmo a minha idade e a minha cara. E o mesmo desconsolo.
- Por quê? Sua vida não foi melhor do que a minha?
- Durante um certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei à seleção. Fiz um grande contrato. Levava uma grande vida. Até que um dia…
- Eu sei, eu sei… – disse alguém sentado ao lado dele.
Olhamos para o intrometido… Tinha a nossa idade e a nossa cara e não parecia mais feliz do que nós. Ele continuou:
- Você hesitou entre sair e não sair do gol. Não saiu, levou o único gol do jogo, caiu em desgraça, largou o futebol e foi ser um medíocre propagandista.
- Como é que você sabe?
continue reading "“Versões”, por Luiz Fernando Veríssimo"
Tags: e se?, Luiz Fernando Veríssimo, realidades alternativas, versões de si mesmo
19
jul
Tags: Ian McEwan, má, maldade, Serena, Timothy Garton Ash