Sei pouco sobre as mulheres e cada vez sei menos. Nem sei – ou quando sei já é tarde demais – se gostam de mim e se isso acontece, não chego a saber o que possa querer dizer. Há muitas maneiras de gostar, é verdade. Quando se gosta de um casado é ele que o trazemos mais vezes. Com as mulheres é diferente. O que importa, acho eu, não é nem o que elas dizem nem o que elas fazem mas o que elas não dizem e pensam fazer. É preciso adivinhar e eu sou muito mau a adivinhar. Depois, quando as coisas acabam e olhamos para trás, não ficamos mais elucidados. Sabemos contar aos amigos uma história que tem princípio, meio e fim mas que bem poderia ter sido outra. Uma pessoa é um mistério, duas, com um abismo pelo meio, uma prodigiosa contradição.
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Ela tinha um irmão cinco anos mais velho, passou dez anos num colégio de freiras irlandesas, começou um curso de restauro que não acabou e era agora um modelo de moda muito procurado. Não tinha feito nada por isso. Aliás era capaz de encontrar defeitos em todas as partes do seu corpo, e nunca gostou que lhe olhassem como se não houvesse mais nada. Se se tornou modelo foi por acaso e por necessidade. Já não tinha de andar de autocarro, fazer contas para comprar um casaco de linho encarnado e pedir ao irmão o último compacto dos Massive Attack. Estas coisas são importantes.
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