(…) A disparidade entre o que parece ser a intenção de uma entrevista quando ela está acontecendo e aquilo que no fim ela estava de fato ajudando a fazer é sempre um choque para o entrevistado. A situação deste é semelhante à das cobaias do famoso experimento psicológico de Stanley Milgram (realizado em Yale no início dos anos 60), que eram levadas a acreditar que estavam participando em um estudo do efeito da punição sobre o aprendizado e a memória, quando de fato o que estava sendo estudado era a aptidão delas para a crueldade quando pressionadas por uma autoridade. Em uma engenhosa imitação de laboratório, a “cobaia ingênua” – um voluntário que havia respondido a um anúncio publicado em um jornal de New Haven – recebia a instrução de aplicar choques cada vez mais dolorosos a uma pessoa, presumivelmente outro voluntário, a cada resposta errada que este desse às perguntas de um teste. Em Obedience to authority (Obediência à autoridade), o livro que publicou descrevendo o experimento, Milgram escreve sobre a sua surpresa com o grande número de cobaias que obedeciam ao experimentador e continuavam apertando a alavanca embora o indivíduo que recebia os choques estivesse gritando de dor – ou melhor, de dor simulada, visto que a coisa toda era uma montagem: o aparelho elétrico ao qual a vítima estava atada era uma peça de cenário e a própria vítima era um ator. A ideia de Milgram fora ver de que maneira um americano comum se comportaria quando colocado em uma situação grosseiramente comparável à dos alemães comuns que recebiam ordens de participar de maneira ativa na destruição dos judeus da Europa. Os resultados não foram nada animadores. Embora uns poucos indivíduos tenham se recusado a prosseguir com o experimento ao primeiro sinal de mal-estar da vítima, a maioria deles continuava docilmente aplicando um choque após o outro. O que interessa, porém, não é o arrepiante experimento de Milgram, mas a estrutura da situação: o engano deliberadamente induzido, seguido por um momento de arrasadora revelação. A estonteante mudança de perspectiva experimentada pela cobaia do experimento quando era “desinstruída” ou, como diz Milgram, “deslograda”, é comparável ao deslocamento sentido pelo indivíduo que é tema de um artigo ou livro quando o lê pela primeira vez. A personagem de um escrito não sofre a tensão e a ansiedade por que passa a cobaia do “experimento Eichmann” (tal como foi chamado) – ao contrário, ela goza de uma espécie de férias narcisistas durante o período das entrevistas – mas, quando chega o momento da peripécia, ela é confrontada com o mesmo espetáculo mortificante de ser reprovada em uma prova de caráter pela qual ela não sabia estar passando.
Contudo, ao contrário do leitor de Obedience to authority, a quem Milgram revela os detalhes técnico do logro, o leitor de um trabalho jornalístico só pode imaginar como foi que o escritor conseguiu fazer com que o entrevistado se expusesse daquele modo. O entrevistado, por sua vez, não estará muito inclinado a fornecer resposta. Após ser deslogrado, ele se recompõe e afasta-se do desastre, relegando o seu relacionamento com o jornalista à lata de lixo dos casos de amor que acabaram mal e que é melhor esquecer. De vez em quando, o entrevistado fica tão envolvido com o jornalista que não consegue abandoná-lo e até muito tempo depois, quando livro mortificante já passou para a seção dos saldos das livrarias, a relação é mantida mediante o interminável processo que o entrevistado move para manter o escritor ligado a ele. Mesmo nesse caso, porém, a perfídia do jornalista não fica exposta, pois o advogado que assume o caso do entrevistado traduz a sua história de sedução e traição em uma ou várias das narrativas tradicionais dos processos por difamação, tais como injúria de caráter, ou falsa exposição dos fatos, ou franca desconsideração pela verdade.








