(…) Nada disse teria acontecido se eles tivessem sido amigos. Era preciso a intimidade máxima que só o casamento oferece. (De fato, digo, esqueçam papel ou padre.) A estrada apontava para um paraíso qualquer e o desejo a pavimentaria.
9
mai
(…) Nada disse teria acontecido se eles tivessem sido amigos. Era preciso a intimidade máxima que só o casamento oferece. (De fato, digo, esqueçam papel ou padre.) A estrada apontava para um paraíso qualquer e o desejo a pavimentaria.
Tags: amor, casamento, fábula urbana, felicidade, MaurÃcio Gouveia, separação
23
abr
Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, propostas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa de cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a música quadrifônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala?, perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar.
Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde gostava de ficar isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de pesquisas sobre a mesa, não via as letras e números, eu esperava apenas. Você não pára de trabalhar, aposto que os teus sócios não trabalham nem a metade e ganham a mesma coisa, entrou a minha mulher na sala com o copo na mão, já posso mandar servir o jantar?
A copeira servia à francesa, meus filhos tinham crescido, eu e a minha mulher estávamos gordos. É aquele vinho que você gosta, ela estalou a língua com prazer. Meu filho me pediu dinheiro quando estávamos no cafezinho, minha filha me pediu dinheiro na hora do licor. Minha mulher nada pediu, nós tínhamos conta bancária conjunta. Vamos dar uma volta de carro?, convidei. Eu sabia que ela não ia, era hora da novela. Não sei que graça você acha em passear de carro todas as noites, também aquele carro custou uma fortuna, tem que ser usado, eu é que cada vez me apego menos aos bens materiais, minha mulher respondeu.
continue reading "“Passeio noturno”, por Rubem Fonseca"
9
abr
“Ce grand malheur, de ne pouvoir être seul.”
La Bruyère
De certo livro germânico, disse-se, com propriedade, que “es lässt sich nicht lesen” — não se deixa ler. Há certos segredos que não consentem ser ditos. Homens morrem à noite em seus leitos, agarrados às mãos de confessores fantasmais, olhando-os devotamente nos olhos; morrem com o desespero no coração e um aperto na garganta, ante a horripilância de mistérios que não consentem ser revelados. De quando em quando, ai, a consciência do homem assume uma carga tão densa de horror que dela só se redime na sepultura. E, destarte, a essência de todo crime permanece irrevelada.
Há não muito tempo, ao fim de uma tarde de outono, eu estava sentado ante a grande janela do Café D. . . em Londres. Por vários meses andara enfermo, mas já me encontrava em franca convalescença e, com a volta da saúde, sentia-me num daqueles felizes estados de espírito que são exatamente o oposto do ennui; estado de espírito da mais aguda apetência, no qual os olhos da mente se desanuviam e o intelecto, eletrificado, ultrapassa sua condição diária tanto quanto a vívida, posto que cândida, razão de Leibniz ultrapassa a doida e débil retórica de Górgias. O simples respirar era-me um prazer, e eu derivava inclusive inegável bem-estar de muitas das mais legítimas fontes de aflição. Sentia um calmo mas inquisitivo interesse por tudo. Com um charuto entre os lábios e um jornal ao colo, divertira-me durante a maior parte da tarde, ora espiando os anúncios, ora observando a promíscua companhia reunida no salão, ora espreitando a rua através das vidraças esfumaçadas.
Essa era uma das artérias principais da cidade e regurgitara de gente durante o dia todo. Mas, ao aproximar-se o anoitecer, a multidão engrossou, e, quando as lâmpadas se acenderam, duas densas e contínuas ondas de passantes desfilavam pela porta. Naquele momento particular do entardecer, eu nunca me encontrara em situação similar, e, por isso, o mar tumultuoso de cabeças humanas enchia-me de uma emoção deliciosamente inédita. Desisti finalmente de prestar atenção ao que se passava dentro do hotel e absorvi-me na contemplação da cena exterior.
De início, minha observação assumiu um aspecto abstrato e generalizante. Olhava os transeuntes em massa e os encarava sob o aspecto de suas relações gregárias. Logo, no entanto, desci aos pormenores e comecei a observar, com minucioso interesse, as inúmeras variedades de figura, traje, ar, porte, semblante e expressão fisionômica.
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Tags: cotidiano, Edgar Allan Poe, executivos, homens, multidão
26
mar
Em Falun, na Suécia, há bons cinqüenta anos ou mais, um jovem mineiro despediu-se com um beijo da noiva jovem e bela e lhe disse: “No dia de Santa Lúcia nosso amor será abençoado pela mão do pastor. Então seremos marido e mulher, e vamos construir nosso próprio ninho”. “Onde a paz e o amor vão sempre morar”, respondeu a bela noiva, com um sorriso gentil, “pois você é tudo para mim, e sem você eu prefiro o túmulo a qualquer outro lugar.” Mas quando, pouco antes do dia de Santa Lúcia, ela pediu ao pastor que conclamasse pela segunda vez à igreja “quem soubesse de obstáculo que impedisse estas pessoas de se unirem em matrimônio”, foi a morte que se apresentou. Pois no dia seguinte, ao passar pela casa da noiva em seus trajes negros de mineiro — o mineiro veste sempre o seu sudário —, o jovem bateu duas vezes à janela e ainda lhe desejou “Bom dia!”,— mas nunca mais desejaria “Boa noite!”. Nunca mais voltou da mina, e foi em vão que, naquela mesma manhã, ela bordou para ele, para o dia do casamento, um lenço negro de barra vermelha; como ele não voltasse, ela abandonou o lenço, chorou por ele e jamais o esqueceu.
Nesse meio-tempo, a cidade de Lisboa, em Portugal, foi destruída por um terremoto, e a Guerra dos Sete Anos chegou ao fim, e o imperador Francisco I morreu, e os jesuítas foram suspensos, e a Polônia dividida, e a imperatriz Maria Teresa morreu, e Struensee foi executado, a América se libertou, e as forças combinadas da França e da Espanha não puderam conquistar Gibraltar. Os turcos encurralaram o general Stein na Cova dos Veteranos, na Hungria, e o imperador José morreu também. O rei Gustavo da Suécia conquistou a Finlândia aos russos, e a Revolução Francesa e a grande guerra irromperam, e o imperador Leopoldo II desceu também ao túmulo. Napoleão conquistou a Prússia e os ingleses bombardearam Copenhague, e os lavradores semeavam e ceifavam. O moleiro moía, os ferreiros martelavam e os mineiros cavavam atrás dos veios de metal em sua oficina subterrânea.
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Tags: amor, casamento, idade, Johann Peter Hebel, mineiro, morte, velhice, viúva
10
mar
— Não estaria mal que jogássemos algum petit jeu – disse a senhora espevitada
— Conheço um petit jeu novo e magnífico – encareceu Fierdíchtchenco – Embora tivesse sido jogado uma vez só no mundo e mesmo então não obteve êxito
— E qual é? – perguntou a senhora espevitada.
— Vão ver: estávamos uma vez reunidos e havíamos bebido, a verdade é esta, quando, de repente, um de nós propôs que cada um, sem levantar-se de sua cadeira, contasse algo de seu, muito íntimo, em voz alta, mas algo que ele próprio, sinceramente, em consciência, considerasse a mais feia de todas as suas ações, feias, no decurso de toda sua vida; mas com a condição de que fosse sincero, isto era o principal, que fosse sincero, que não mentisse.
— Estranha ideia – disse o general.
— Mas quanto mais estranha, general, tanto melhor.
— Pensamento ridículo – disse Tótski – embora, afinal, compreensível vaidade de uma índole especial.
— Talvez tivesse algo disso, Afanássi Ivânovich.
— Mas tal petit jeu faria a gente chorar e não rir! – observou a senhora espevitada.
— A coisa é totalmente impossível e absurda – declarou Ptísin.
— E teve êxito? – indagou Nastássia Filípovna.
— Já lhe disse que não, tornou-se antipática. Todos, efetivamente, contaram alguma anedota, muitos disseram a verdade e, imaginem, houve quem fizesse o relato com satisfação. Mas depois todos ficaram com vergonha e não puderam mais suportar aquilo. No fundo, aliás, foi uma coisa muito divertida, embora, está claro, em seu estilo.
— Mas na verdade não seria nada mal – observou Nastássia Filípovna, animando-se subitamente. — Não quereriam os senhores, deveras, experimentar? Na realidade, não parece que estejamos muito alegres. Se cada um dos senhores consente em contar algo…nesse estilo… é claro que espontaneamente, por sua própria vontade. Talvez nós pudéssemos suportar. Pelo menos, trata-se de algo enormemente original.
— Genial ideia – encareceu Fierdíchtchenco – as senhoras, naturalmente, ficam excluídas. Comecem os cavalheiros. A coisa se fará por sorte, como fizemos naquela ocasião. Vamos, vamos! Se alguém fizer muita questão de não tomar parte, não contará nada; mas será de sua parte muito pouco amável. Tirem a sorte senhores, aqui em meu chapéu. O príncipe a tirará. A coisa não pode ser mais simples. Referir à ação mais feia de toda a vida que se tenha praticado. Isto é muito fácil, senhores! Aqui está, vejam! Se alguém se esquecer, eu imediatamente o chamarei à ordem.
A ideia não foi do agrado de ninguém. Uns franziram a testa, outros sorriram ladinamente. Alguns fizeram objeções, embora não com muita energia, pois não queriam incorrer no desagrado de Nastássia Filípovna e tinham podido observar quão de seu agrado era aquela estranha ideia. Em seus caprichos era Nastássia Filipovna sempre irascível e implacável, quando se decidia a manifestá-los, ainda que se tratasse dos desejos mais voluntariosos e mais inúteis para ela. E agora estava como que atacada de histerismo: tremia, ria convulsivamente, como presa de uma indisposição repentina, sobretudo diante das objeções do alarmado Tótski. Seus escuros olhos cintilavam; em suas faces pálidas acusavam-se duas manchas rubras. Os matizes de contrariedade e de esquivança da fisionomia de algum de seus amigos, talvez contribuíssem para tornar mais ousado ainda seu ridículo capricho: talvez o que mais precisamente lhe agradasse fossem o cinismo e a crueldade daquela ideia. Alguns tinham até a convicção de que tinha ela um especial objetivo nisso. Afinal de contas, acederam. Em todo o caso era curioso e, para mais de um, muito atraente. Fierdíchtchenco era o que mais barulho armava.
Tags: Fiódor Dostoiévski, O Idiota, petit jeu, Relacionamentos, segredos
26
fev
Armação do Bom Jesus, 12 de Junho de 1827.
As baleias, das grandes e das pequenas, de qualquer das muitas famílias e raças que todo ano aqui passeiam e são caçadas, não casam como os outros peixes. Os outros peixes, pelo pouco que se vê de seu amor, numa boca de rio parada, numa loca, num viveiro, numa poça dos recifes, se espadanam pela água, muitos dançam, uns poucos arrastam as fêmeas para os cantos, mas não se tocam, não se conhecem, têm filhos como grãos de areia, que às vezes comem com indiferença. Mas não o peixe baleia, que quando se enamora primeiro canta e assovia, subindo e descendo as ondas como se quisesse encapelar o mar sozinho. E também se lamenta no meio das canções, ouvindo-se cada hora seus gemidos de paixão, a música de toda noite nesta época do ano. Assim do alto e de longe, vê-se chispando pela flor d’agua uma baleia, mas depois vê-se que são duas. É que vão tão juntas e harmonizadas que parecem um só bicho, até que o macho, por nervosismo e necessidade de mostrar proeza, desencosta a cabeça que trazia junto à dela, rabana com estrondo, irrompe das águas e voa, formando uma lagoa alada em torno do corpo, que então singra os ares um instante, serpenteia esticando o salto e, levantando um vagalhão estrepitoso, cai junto a ela na mesma posição em que antes nadavam e continuam a nadar, espelhando o sol nos couros azulados. Como, nos dias mais frios, seus esguichos se aglutinam em gotinhas vaporosas que viram rodas de arco iris contra a luz, acha o povo que as baleias noivas constroem assim suas grinaldas e anunciam às outras o casamento. E de repente cantam ele e ela juntos, cabriolam na espuma, escabujam de barriga para cima, rolam, desaparecem, emergem outra vez e outra vez desaparecem, disparam rolando e se abraçando, afundam e, lá no fundo, já se querem tanto que não se contêm. Revirada perto dele, ela se queda admirada diante da grande pilastra colorida que se apresenta como um mastro festeiro das dobras da barriga dele, suas próprias dobras se entreabrem em vermelhos, roxos, brancos e violetas latejantes e é assim que, um maremoto agitando as ondas, uma corcova subindo no meio da baía, uma crista de água fibrilando velozmente, eles prorrompem do fojo do mar desta vez juntos, colados e enlaçados cara a cara, suas músicas transfiguradas em guinchos e risos, as grinaldas vibrando com as novas gotas.
Tags: amor, baleia, brasileiro, João Ubaldo Ribeiro, vida
14
fev
Desci pra tomar um cafezinho na padaria. No elevador encontrei Úrsula, senhora distinta, lá pelos sessenta anos, vestindo uma bela seda floreada, num godê que lhe dava uma sinuosa malemolência escorrendo pelos quartos. Carregava um desses minicães, projetados para apartamentos mínimos. Úrsula, na verdade, era seu nome de guerra. Na luta pela sobrevivência em Roma adotara este sonoro nome de artista de cinema, para poder se apresentar na pegação romana quando era um travesti em atividade profissional. Unhas compridas de vermelho carmim finalizavam grandes mãos. No andar logo abaixo entrou rapaz de musculatura tratada e, com olhar rápido, fotografou Úrsula. Ela tossiu discretamente e fingiu ajeitar o lacinho de fita, também carmim, na cabeça peluda daquele micro ser que trazia junto ao seio. Finalmente o térreo.
Já na rua me senti bem. Aquele pedaço me era muito familiar e, apesar de não ter muito papo com os vizinhos, gostava de revê-los todos os dias, como parte de meu cotidiano. Dei uma passadinha na banca, como de praxe. As notícias sempre as mesmas: escândalo na política, futebol, algum lançamento de filme, uma peça de teatro, uma boa fofoca. O jornal trazia uma notinha discreta dizendo que a maconha pesquisada por cientistas relaxava espasmos musculares em pacientes graves de coluna, aliviava a pressão ocular do glaucoma, entre outros benefícios. Pensei, bem, poderia ser vendida como aspirina em farmácias, supermercados para facilitar a vida dos pacientes. Acabaria aquela produção trabalhosa de contatar gente do morro pra conseguir uma trouxinha mirrada ou um baseado. As pessoas seriam mais afáveis, relaxadas, transações de comércio mais fraternas, vendedores sorridentes. Viajando nessas fantasias, meus olhos bateram numa manchete de jornal popular: “Morta dondoca com a bacura cheia de farofa”. A foto logo abaixo mostrava um ser semelhante a um frango assado com a parte coberta de farofa. Saí rapidamente da banca que fedia a mijo. Atravessei a rua e me dirigi à padaria pra tomar meu café. Aguardava com prazer aquela hora do cafezinho coletivo da manhã. Sempre tinha alguém pra trocar umas ideias. Vi que Úrsula já estava lá sem o pequeno peludo. Pedi licença e sentei perto.
– Cadê o cãozinho que carregava?
– O nome dela é Chanel, deixei na pet shop para higiene.
– Ah… Chanel! Você gosta da estilista?
– Sim, gosto muito, mas prefiro os espanhóis, são mais barrocos. Admiro também os japoneses porque, embora sejam o oposto, são de muita ousadia.
Interrompendo a conversa chegou o Zé Abdala, atendente da área, carregando seu majestoso nariz e um prato de três imensas coxinhas de galinha, especialidade da casa, para o desjejum de Úrsula. Acompanhava um supercopo de laranja lima – tinha que ser laranja lima – segundo ela, era um digestivo fantástico, além de ser das laranjas a que mais tinha vitamina C, recomendada por um instituto americano respeitável.
– Pra mim Zé, um cafezinho no copo com uma canoa na manteiga.
– Você come manteiga? É péssimo pro colesterol. Devia cuidar melhor de sua alimentação: cafeína e manteiga não é boa combinação. Eu como estas coxinhas e só vou me alimentar depois da Ave Maria.
– Que Ave Maria?
– Ave Maria, o terço. Me acostumei a isso quando morava em Roma, onde rezava numa capela antes do trabalho pedindo proteção e que tudo desse certo: arranjasse fregueses abonados e de boa índole. Na Itália me tornei católica praticante, dava força pra enfrentar a madrugada. Uma noite tive que encarar um velhote rico e maluco que gostava do bizarro. Trazia com ele uma chique bengala de madeira entalhada com biqueira de jade. A brincadeirinha dele era a empalação. Neguei e neguei e ele então começou a me dar bengaladas, aí é claro, revidei com umas sapatadas. Minha amiga, foi uma confusão, uma gritaria, deu até polícia.
Tags: cachorro, café da manhã, chanel, cotidiano, Creusa de Carvalho, Roma, travesti, Úrsula
27
jan
Mesmo assim, não pode aceitar o fato de que a vida que está levando ali em Londres não tem projeto nem sentido. Um século atrás, os poetas enlouqueciam com ópio ou álcool, de forma que da iminência da loucura pudessem emitir relatos de suas experiências visionárias. Por esses meios, tornavam-se videntes, profetas do futuro. Ópio e álcool não estão nos planos dele, tem medo do que possam fazer com sua saúde. Mas será que a exaustão e a melancolia não são capazes de fazer o mesmo estrago? Será que viver na iminência de um colapso psíquico não é tão bom quanto viver na iminência da loucura? Por que se esconder num sótão na Margem Esquerda pelo qual não se pagou o aluguel, ou vagar de café em café, barbudo, sem tomar banho, fedendo, esmolando bebidas dos amigos, constitui um sacrifício maior, uma extinção maior da personalidade do que vestir o terno preto e fazer um trabalho de escritório que destrói a alma, e se submeter ou à solidão mortal ou ao sexo sem desejo? (…)
T.S. Eliot trabalhava num banco. Wallace Stevens e Franz Kafka trabalhavam em companhias de seguros. À sua própria maneira, Eliot, Stevens e Kafka não sofreram menos que Poe ou Rimbaud. Não há nenhuma desonra em preferir imitar Eliot, Stevens e Kafka. Sua escolha é vestir um terno preto, como eles vestiam, vesti-lo como um cilício, sem explorar ninguém, pagando a viagem. Na era romântica, os artistas ficavam loucos em escala extravagante. A loucura jorrava deles em resmas de versos delirantes ou grandes placas de tinta. Essa era terminou: a loucura dele, se for eu destino sofrer de loucura, será diferente – sossegada, discreta. Vai sentar-se num canto, rígido e curvado, como o magistrado da gravura de Dürer, esperando pacientemente passar sua temporada no inferno. E, quando tiver passado, estará tanto mais forte por ter resistido. Essa é a história que conta para si mesmo em seus dias melhores. Nos outros dias, os maus dias, imagina se emoções monótonas como as suas jamais alimentarão grande poesia.
Tags: álcool, Coetzee, dias melhores, drogas, juventude, melancolia, ópio, poesia, trabalho
3
jan
Experimentando a Abstinência
E pela altura do verão já eu achava prazer em muitas coisas por que deixara de interessar-me. Jogava tênis melhor do que havia feito durante anos, e voltava a entreter-me com o golfe. Mais ainda, gostava de acordar pela manhã e tomar o meu café, o que, por muito tempo, me repugnara. Comecei a responder às cartas que recebia, e a pensar na satisfação de tornar ao convívio dos amigos, no mundo de que saíra.
Em junho, os médicos, vendo-me mais bem-humorado e mais em ordem fizeram-me remover da galeria dois para um dos pavilhões de convalescentes. Passei então a ficar tão livre praticamente, dentro dos limites do parque, como se estivesse numa colônia, ou num hotel de verão. Gostava muito daquilo, da sobriedade em que vivia: ir à noite para a cama sem estar embriagado, e acordar sem a indisposição proveniente da embriaguez da véspera. De bom grado inclinei-me a admitir que, voltando à atividade, não iria viver senão abstêmio, custasse o que custasse.
Mas devia ter medo do uísque, quando me apanhasse lá fora? Teria realmente adquirido a capacidade bastante para, só e por mim próprio, governar os meus passos à respeito? Não o saberia dizer. Tampouco o sabiam os médicos, ao que apurei. Todavia, quando me deram alta, em fins de junho, declarando-me curado, pediram-me prometesse, à título de experiência, que durante um período adicional de seis meses, de maneira nenhuma tocaria numa gota de álcool.
Como, de modo geral, não tenho boa memória ara datas, os seis meses se escoaram, sem que eu o houvesse notado. A não ser no meio do verão, quando, num ou noutro momento de mais forte calor, me ocorreu que podia tomar um pouco de cerveja, não me lembrei de bebida. Uns quinze dias mais tarde, alguém abriu junto de mim uma garrafa de xerez espanhol. Considerei que, depois de tão longa abstinência, devia primeiro prová-lo. Tinha um copo, e gostava do xerez. Pois não me acudiu mais do que isto. Alguns dias depois, tendo sede, não me deixei seduzir pelos copos de uísque, que estavam ao lado, ao passo que, nos tempos de bêbedo, todo pretexto era bom e toda ocasião apropriada, para os derramar goela a dentro.
Muitos meses decorreram sobre essas raras vezes que bebi, e ainda bebo raramente. Conforme há pouco dizia, não penso no assunto. Tenho outras preocupações. O que sei é que me sinto menos infeliz do que quando tentava afogá-las.
Tags: abstinência, álcool, bebida, internação, problemas, rehab, uísque, William Seabrook
16
nov
Tags: Anthony Bourdain, comimda, fome, gastronomia, ostras, sopas