Não saberia o que dizer, se tivesse que explicar a lógica interna aos acontecimentos e seus desdobramentos posteriores. Talvez não haja mesmo o que explicar, talvez a lógica seja uma ilusão, uma invenção que o olhar atribui ao objeto, uma malícia cheia de léxico que engana a todos, a artimanha maior do sofista. Talvez nada tenha explicação nessa vida,em suma. Oupode ser que o problema seja meu, já que nunca consigo entender meus mecanismos, os caminhos em que me arremesso, nunca entendo meu humor quando acordo, í s sete da manhã, nem o afeto que me acompanha quando puxo o lençol e fecho os olhos, às dez da noite. Nunca me entendo, mas posso tentar.
Minha reclusão não é algo natural em mim, mas tornou-se necessária. Hoje completam-se seis anos que me encontro em casa, onde tenho livros e cadernos. Não sei o que é pisar os pés na rua em todo esse tempo. Minha mãe não sabe o que fazer mais comigo, mas aceita minhas solicitações quanto à aquisição dos livros e à reposição do material para escrita, além de cozinhar uma refeição diária que não excede arroz, feijão, verduras, ovos e queijo. De sobremesa, quando resolvo inovar, o que é raro, uma banana, uma maçã, uma pêra. Nunca salada de frutas. Meu pai desistiu de nós dois e foi embora há muito tempo. O que há de mais regular em mim é o silêncio. Não tenho muito a dizer falando. Prefiro a escrita, e ela se esgota em mim.
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