O grupo de viagem, ao mesmo tempo em que ganhava novos componentes, se subdividia nos deslocamentos de uma cidade para outra. Quando nos encontramos na Grécia, éramos uns dez e decidimos descansar numa ilha mediterrânea que, segundo as dicas de um brasileiro “duro” como nós, era linda, mas não constava do roteiro do caro turismo convencional.
Chegamos ao entardecer no porto da ilha formada por um alto bloco montanhoso, que se erguia do mar, logo atrás das praias. Meia hora acima, na boleia de uma camionete, único veículo motorizado existente, vislumbramos pequenas casas brancas que se adensavam em torno de uma pracinha central. Descarregamos nossas mochilas e sacos de dormir e iniciamos a busca por um lugar onde pudéssemos nos instalar. Com muita dificuldade de comunicação, pois não encontramos ninguém que soubesse falar outra língua que não o grego, chegamos à dona da pensão. Ela, porém, não demonstrou muita vontade de alugar um quarto para aquele bando de hippies. Quando manifestamos nossa surpresa com o alto valor cobrado, nos dispensou de vez. Sem outra perspectiva naquele momento – o barco de volta só passava daí a uns dois dias -, nos acomodamos nos bancos de cimento da praça e começamos a fazer um som, apreciando os reflexos do pôr do sol sobre a brancura absoluta da vila.
Aconteceu, então, de aproximar-se de nós um grupo de senhores. Rapidamente começaram a acompanhar a música com palmas e pés. Estavam muito alegres e sem mais cerimônias sentaram-se conosco, cantaram também suas canções e, quando nos demos conta, estávamos dançando com eles, em roda, aquelas danças gregas típicas. Era noite alta quando fizemos um intervalo na cantoria e fomos conduzidos a um bar para matar a fome com azeitonas e sanduiches. Ao voltarmos para o mundo das necessidades básicas, o problema da pousada se impunha de novo. E aí, o inesperado: Papus, o mais idoso e líder do lugar, após algumas conversas com os companheiros, nos ofereceu uma casa para ficarmos pelo tempo que quiséssemos e sem nenhuma obrigação financeira. Fantástico! Depois de tantas trocas lúdicas, estávamos de tal forma entrosados com eles, que aceitamos a oferta naturalmente. E assim nos transformamos em seus hóspedes.
(Trecho do capítulo Relato de viagens da monografia MUSICA E TERRITÓRIO – Curso de Musicoterapia – Conservatório Brasileiro de Música -1998)









