Deveria ser uma noite normal no clube da Baratos da Ribeiro, 31 de janeiro, primeira edição de 2012, o Guilherme como MC, botando ordem em tudo, o Ribas bêbado, gritando algo indiscreto durante as leituras, o Ronaldo com algum texto sobre putas, a Poliana, com uma lista, a Vivian, com uma história de escritório, o Montes, com uma de assassinatos, o Matos, com uma bizarra e longa demais, o Rudá, com um texto num guardanapo, e por aí vai, o clube estava cheio. Deveria ser uma noite normal e estava sendo, pelo menos na leitura dos motes. Porém, ao voltarem do intervalo para a leitura dos contos, algo se alterou, algo tão imperceptível que ninguém notou. Liam, um texto após o outro, e ninguém saia. O Renato, num momento, quis encher seu copo, foi até a porta para pegar uma cerveja no bar, porém ao chegar nessa, desistiu, não teve mais vontade. O mesmo aconteceu logo depois com o Ribas. A Carmem precisava sair mais cedo, mas ao chegar na porta, simplesmente decidiu que poderia ficar mais um pouco. Ninguém mais saia, ninguém mais entrava no sebo. Acabada a leitura, ganhou o texto do Patiño, todos começaram a conversar. Conversaram e conversaram, até que o óbvio se fez notado, ninguém conseguia passar da porta do sebo. Não havia nenhum impedimento físico, só eram incapazes.
Na primeira noite ninguém dormiu. Fora uma noite inquietante, cheia de perguntas, desespero e paranóia. O que estava acontecendo? Por que não conseguiam sair? Estariam todos sobre alguma sugestão hipnótica, sugeria o Guilherme. Houvera algum vazamento de gás nos esgotos de Copacabana, o prédio explodira, e agora todos estavam no purgatório, sugeria a Márcia. Houvera um erro na matriz do universo e agora estavam isolados de todo o resto, sugeria o Rudá. Ninguém podia realmente dizer. E o amanhecer só piorou a situação. Pois não só ninguém conseguia sair do sebo, também ninguém passando na rua podia mais notar as suas existências gritando por socorro através da vidraça. Corria o dia, as pessoas passavam, e ninguém sequer virava o rosto. Mais discussões e paranóia, uma luta entre o Johandson e o Ronaldo, o Ribas gritando um pouco mais, a Danielle tendo um ataque de pânico. Chegada mais uma noite, só uma coisas pensavam, seus estômagos roncavam, estavam com fome. Porém, demorou mais um dia e meio até o Guilherme sugerir a opção do canibalismo.
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