Analice não ia bem no casamento. Primeiro, era fogosa, e Maurício quase apagado. Segundo, Maurício estava desempregado e os biscates mal garantiam os ovos e, aos domingos, uma carninha. Além de tudo, Analice sonhava ter um filho e Maurício era estéril. Depois de três anos do paraíso conjugal, o casamento estava ficando tedioso e Maurício cada vez mais chocho. Foi então que numa viagem a Campo Grande, em visita à irmã, Analice conheceu, no ônibus, um certo Afonso, alto, forte, de cabelos negros e luzidios, expansivo, alegre e, pelo que parecia pelo volume na calça, de birro avantajado, certamente bem diferente do miudinho de seu marido. Viajaram no mesmo banco e Analice sentiu um calor diferente quando suas coxas roliças casaram-se com a coxa do companheiro de viagem. Quando seus olhos se tocaram, Analice teve um estremecimento de encanto.
Depois de uma conversa boba sobre o tempo, quebraram-se as reservas e logo estavam rindo, em uma prosa cheia de agrados e até confissões sobre a vida íntima. Afonso sentiu que essa estava no papo e aventurou-se a colocar as mãos sobre as coxas de moça, que as retirou, com um pudor fingido. Afonso anotou o celular de Analice e ela o dele. Para encurtar, passada uma semana, acabaram em um motel de Caxias, onde Afonso, catedrático em cama, deliciou Analice com as mais criativas posições. A eguinha fogosa nunca vira coisa igual nem tamanho tão grande. Agora era Maurício sair para um curso de eletricista e Analice ir para o motel com Afonso, esbaldando-se na cama redonda encimada por um grande espelho, um luxo. Voltava para casa com a cara da mais santa criatura e nem brigava mais, confortada pelo adultério.
Mas logo um fantasma começou a perturbá-la: e se tivesse engravidado? O medo tornou-se obsessivo. Foi a um hospital público e o exame deu positivo. Agora, que fazer?
De criação católica, nunca fora à igreja evangélica frequentada por Maurício, mas, em um domingo, sua intuição de adúltera atraiu-a para lá. Maurício, que sempre a convidava inutilmente, adorou. Quem sabe se ela se tornasse uma serva do Senhor, a crise conjugal incipiente terminasse?
Um pastor convidado seria a grande atração do culto. A igreja estava cheia. Prometiam-se milagres. Quando o pregador surgiu e dirigiu-se para o púlpito, Analice quase caiu pra trás. Era Afonso, o garanhão do motel em Caxias.
continue reading "“O Milagre”, por Pedro Ernesto"









