
Muito prazer. Meu nome é Gladys, e venho me defender de acusação tresloucada. Farei minha própria defesa, assim como Sócrates fizera a sua, antes de tomar a cicuta. Não sou filósofa, mas dançarina, tenho 56 anos e minha experiência de vida (vasta, porém não ilimitada), ensinou-me algumas pequenas coisas, sobre as quais quero falar agora. Vamos e venhamos: há homens para casar e homens para ter casos, e a qualidade de sua dança é conforme a categoria em que se enquadram. As palavras se confundem, mas se há semelhança de sons (casar, casos), a semântica é bem diferente, discrepante até. O sentido de casar implica permanência e longo prazo, além de homogeneidade. Implica certa rigidez. O sentido de ter casos abrange impermanência, curto e médio prazos e, acima de tudo, heterogeneidade. Comporta plasticidade e flexibilidade. E isso se reflete na maneira de dançar de cada um desses tipos de homens. Há homens, enfim, para construir família. São aqueles a quem a mulher deve dedicar o quotidiano dos dias úteis e compartilhar uma rotina que, muitas vezes, se vai empurrando com a barriga e outras partes do corpo. Por causa de algumas visões de mundo como essa e de uma atitude perante a vida que exalta a alegria, fui acusada de imoral, para dizer o mínimo. Sim, senhores, gosto de dançar, não deixo de ir a bailes e não fico sentada num cantoem festas. Souconvidada por cavalheiros em gafieiras as mais diversas e não hesito. E nisso posso conhecer através da dança os homens para casar e os homens para ter casos. Os primeiros têm menos suingue, falta-lhes a elasticidade necessária aos movimentos do corpo que devem acompanhar os ritmos. Os últimos, homens para ter casos, alcançam êxito em conjugar sua desenvoltura corporal com os movimentos da música ambiente. Aqueles que não dançam ou que pré-julgam quem o faz não me servem nem para uma coisa nem para outra.
Falemos agora dos homens para ter casos. Há os “soltos”, na falta de melhor denominação, desregrados, que estão sempre pelos bares e atravessam a boemia da cidade, um pouco sem eira, beira ou hora para acordar no dia seguinte, sem muito cuidado consigo mesmos, geralmente barbudos, alguns vendem apetrechos de hippies, vivendo riscos os mais diversos e propiciando adrenalina í quelas mulheres que com eles queiram se envolver eventualmente. Existem, também, os mais certinhos, quase executivos, homens burocráticos em certa medida. São, muitas vezes, colegas de trabalho, que também têm suas esposas, lares, famílias, compromissos sacais de domingo, almoços irrenunciáveis, sorrisos forçadíssimos e tudo o que um casamento tradicional traz de brinde. Na aparência são corretos e fingem exercitar a monogamia, mas estão sempre com uma mulher extra de que ninguém desconfia.
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