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14

jan

“O perfume do amor”, por Anna Cláudia Calomeni

Posted by mauricio  Published in conto bônus

BLOG LEVE mutarelli o dobro de cinco

(É possível participar das reuniões do Clube da Leitura mesmo à distãncia. Anna, por exemplo, nos enviou sua colaboração por e-mail, já que a agenda não lhe permitiria estar em Copacabana na noite de 12 de janeiro. ENTRETANTO, nós, livreiros, não somos muito fãs da tecnologia. Às vezes passo dias sem acessar minha caixa de e-mail. Ou seja, infelizmente não vi o e-mail a tempo do conto ser lido no salão da livraria e concorrer na segunda rodada. NUMA PRÓXIMA, peço aos compadre ou à comadre que dê uma ligadinha pro sebo – 2256 8634 – e avise alguém da equipe a respeito do conto enviado por e-mail. Para que eu não cometa outro destes vacilos. Ok? Um abraço, Maurício.)

Plantado em seu espírito o demônio do ciúme, nada mais lhe resta senão procurar indícios que justifiquem suas crescentes suspeitas. Seus pensamentos são como pequenas pragas que espalham a dor do amor de uma forma admirável. Quanto mais sofre de ciúme, mais aflito fica e, quanto maior a aflição, mais forte o ciúme.

Desde que conheceu a vulnerabilidade característica de quem deseja alguém em excesso, em seus breves momentos de lucidez Josué trava intermináveis diálogos internos para tentar descobrir quem está certo – se ele ou a sua paranoia. Debate-se no meio de uma história inventada, que só serve para reforçar o seu ciúme e, no exato momento do desfecho, na hora em que deve tomar uma decisão – dar em Idalina um fora, um tapa ou um beijo – a história é interrompida, obrigando-o a voltar ao início. Coitado do Josué. Sem perceber, acaba se emaranhando ainda mais na teia da qual, como um desesperado, tenta se livrar.

Ninguém percebe. Entre amigos, Josué é um cara confiante, amoroso, descolado. Mal suspeitam que em volta do seu pescoço há uma corda invisível, estrangulando-o ao poucos, sempre que pensa em Idalina sorrindo para o vendedor de frutas ou conversando animada com um colega do trabalho.
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4

dez

“Seja gentil”, por Ágata Sousa

Posted by mauricio  Published in conto bônus

“Age is no crime
but the shame
of a deliberately
wasted
life

among so many
deliberately
wasted
lives
is.”

Charles Bukowski

Você pensa que a dor de morrer é grande, não é? Ah, existem tantas dores maiores. Existem tantos prazeres menores.

O que acontece é que você não tem consciência da sua própria vida. Consciência do esforço de cada músculo sendo contraído e distendido a cada passo, da frieza do ar entrando pelas suas narinas e descendo pelo peito até os pulmões. Do calor do sangue correndo incessantemente pelas suas veias.

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Tags: Charles Bukowski, histórias de arrepiar, vampiros

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23

ago

“11/08/09”, por Saulo Alencastre

Posted by mauricio  Published in conto bônus

Pombas revoam da rua que corta a principal, à direita do semáforo, na madrugada antes da aurora de domingo. O pagode do morro ressoa, em calma euforia pela noite interminável. À tarde, finos cipós entrelaçam-se a fios elétricos beirando a subida de paralelepípedos. O pagode do morro ressoa, em alegre melancolia pela segunda-feira vindoura. Pela semana, sob o sol cingente helicópteros, pássaros, pedreiros, cães, buzinas de automóveis e freios de ônibus mesclam-se no espaço acústico tropical; sambistas e vendedores tentam extrair alguns trocados dos turistas na praia. Ao portão da casa, um taxista de cabelos grisalhos entardece observando os macaquinhos movimentarem-se entre árvores urbanas por fios de alta tensão. Venta muito, como se a vontade quisesse despertar. Afinal, chove.

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26

mar

“Opolúbia”, por André

Posted by admin  Published in conto bônus

“Vocês têm a nova lata da Antártica?”

O que mais chamou a atenção naquele senhor, já com idade de estar deitado na cama ou no caixão, tão velho quanto robusto, não era sua compleição física mas sim seu sotaque estrangeiro. Aqui, nestas paragens, a última vez em que se ouviu um sotaque de outro país foi o do turco Fouad que, com seu cosmopolitanismo de caixeiro viajante, encantou a filha do coronel Eusébio, e, em conseqüência, teve que fincar raiz e fundar a dinastia dos Fouad por aqui.

Voltando, lá estava o velhinho fortão, com seu excelente português, embora com sotaque, na porta da birosca perguntando sobre a tal latinha. Tinha.

“Por favor, não a abra. É para coleção. Tenho uma das maiores do mundo.”

Pôs a peça na pesada mochila, despediu-se e, quando já estava saindo, Seu Teodoro não agüentou a curiosidade e faltou com a discrição.

“O senhor me desculpe a curiosidade, mas é que…- Explicou todo esse negócio de Fouad para depois terminar – o senhor é de onde?”

O velhinho… vou começar a trata-lo por Alexander, chamar velhinho de velhinho, em tempos politicamente corretos, pode me dar dores de cabeça. Alexander, já de costas, voltou-se com um quase sorriso.

“Sou de Opolúbia.”

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22

dez

“Diário de um mochileiro solitário (06/10, 4o dia)”, por Renato Amado

Posted by admin  Published in conto bônus

*****
Esta é uma obra de ficção livremente inspirada numa viagem feita pelo autor. Entretanto, autor e personagem-narrador não se confundem, de modo que opiniões externadas são exclusivas do personagem, embora algumas vezes o autor pense da mesma forma, e pessoas e fatos citados podem ser reais, fictícios ou distorcidos. Referências à vida pessoal do personagem não se confundem com referências à vida pessoal do autor. Portanto, qualquer coincidência com a realidade é mera coincidência mesmo. Ou não.
****

Acordei avistando prédios. Não havia dúvida, estava eu novamente numa metrópole. Mal havia descansado da minha estava em outra. Isso me deu uma certa pachorra. Estava com preguiça de encarar uma grande cidade, ter que entrar em ônibus cheios, trânsito, tumulto, violência, confusão… Ah! Só de pensar já me arrependia de não ter continuado no mato.

Mas o que encontrei quando saltei na rodoviária foi exatamente o oposto. Curitiba não dá preguiça. Curitiba não é quente. Curitiba não é tumultuada. Curitiba não tem muito trânsito. Curitiba não é violenta. Curitiba tem ônibus lotados. É, do ônibus lotado não deu para escapar, Capital Modelo. Talvez algum dia vocês tenham metrô e se livrem disso, quando, então, poderão trocar ônibus lotados por trens entupidos. Substituir a paisagem da cidade por túneis escuros e insípidos.

Em Curitiba não há metrô, mas há ônibus tão grandes que têm sanfona no meio e, salvo engano, seis portas. Eles param em pontos específicos, conhecidos como tubos. Você paga para entrar no tubo, passando por uma roleta. Depois, você salta do ônibus em outro tubo e pode, sem dele sair, ou seja, sem pagar outra passagem, pegar outro ônibus que te levará para mais um tubo e assim indefinidamente até alguém notar e te levar para o hospício.

Pois bem,
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20

set

“Cinco diálogos pelos bosques da ficção”, por Ágata Souza

Posted by admin  Published in conto bônus

O BOÊMIO

“Mas por que você está sempre solteiro?”

“Sabe o que acontece? Vamos supor que eu conheça hoje uma mulher fantástica. Mas fantástica mesmo. Nós vamos nos conhecer, conversar, e eu vou voltar pra casa apaixonado. E no caminho de casa, vou ficar pensando em como seria se nós saíssemos sexta, e na sexta seguinte, e ela também se apaixonasse, e nós fossemos descobrindo aos poucos os defeitos e manias um do outro. E como seria nossa primeira noite juntos, quais seriam as taras dela, o cheiro do cabelo, o gosto da boca, o sorriso ao acordar. E imaginaria nossas brigas, os ciúmes meus e dela, as reconciliações, os medos, as decisões, talvez até filhos, gatos, cinemas de quarta e peças de teatro de sábado, e assim até que tudo acabe, por briga ou por idade. Passa pela minha cabeça tudo que pode acontecer.”

“E qual é o problema?”

“Sabe o que é?
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18

ago

“O Ritual”, por Maíra Fernandes de Melo

Posted by admin  Published in conto bônus

“E o homem, então, em desconforto e seminu, se faz de todo entregue e sereno”, ele disse – e acendeu a última vela negra ao longo do círculo.

Os olhares se entrecruzaram. A busca da serenidade no outro para alcançar a sua própria era já o prenúncio de que a partir daquele momento o ritual começara de fato – ninguém mais estaria imune, ninguém mais estaria seguro.

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2

jun

“Quero Margarida”, por Gisela D´Arruda

Posted by admin  Published in conto bônus

Carrinho vermelho de lata. Com as quatro rodas de pau. Sendo uma de carretel. Carrinho vermelho.

Jardinzinho de dois palmos e atrás o quintal de três. No quintal um dia veio uma cobra. Então carrinho prefere lá na frente de casa.

Roseira acanhada, muito espinho e pouca flor. Mas a menina acha a coisa mais bonita, quando dá. Ah, que flor bonita, mãe.

Mãe da menina. Muito peito e pouco amor. Igual recebeu da sua. Costume do tempo.
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21

mai

“O Sofá”, por Márcia Vitari

Posted by admin  Published in conto bônus

(Participação transcontinental! Márcia, uma das fundadoras do Clube, está em temporada européia e enviou esta contribuição por e-mail, que deveria ter sido lida no último encontro, se não fosse os problemas que tivemos aqui em nossa conexão, que impediu que víssemos o conto na caixa postal virtual. Mas aqui está, mais um saboroso – e apimentado – conto de uma das mais serelepes escritoras da confraria. Bom apetite!)

Um belo dia quando chego em seu ateliêr, me deparo pela primeira vez com um sofa
vermelho e digo:

“Hummm, que surpresa! Finalmente, um lugar decente para sentarmos!”

Costumávamos passar nossas tardes nos enroscando entre arquivos, quinas de cadeiras, pelas paredes como lagartixas em fricção. Muitas vezes, nossas incursões me deixavam, fatalmente, com algumas manchas roxas: nem ligava, nem sentia. A coisa esquentava tanto que, no calor dos afetos, só sobravam gemidos e espasmos.

Mas desde o surgimento daquele sofá vermelho como uma boca escarlate, era ali que passamos a nos amar aproveitando o impulso de cada mola do estofado.

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9

mai

“O Roqueiro Burocrata”, por Ronaldo Britto Roque

Posted by admin  Published in conto bônus

(ATENÇÃO: Este conto não participou das rodas de leitura do Clube da Leitura. Foi a satisfação em ler mais um belo trabalho desse querido autor, e o tema rock´n´roll, tão estimado aqui nestas paragens, que motivou sua publicação. Ronaldo faz parte da patota, ainda que ande nos devendo algumas visitas, e escreveu o excelente romance que Maurício Gouveia ainda tem esperanças de que seja o lançamento de estréia do selo literário da Baratos da Ribeiro.)

O Roqueiro Burocrata não começou como burocrata. Ele era muito jovem – treze anos – quando ganhou sua primeira guitarra. Mas já era audacioso. Não comprava revistas com as cifras das canções. Achava que era questão de honra tirá-las de ouvido. Depois já não comprava discos. Queria memorizar os acordes na primeira audição. Nem sempre conseguia, mas fazia progressos vertiginosos, isso era fato.

Quando começou a tocar nas festas de amigos, não aceitava dinheiro. Queria apenas o beijo da garota mais bonita, aquela que sabia interpretar seus olhares e esperar até o fim da festa para ficar com o geniozinho da guitarra.
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