Essa brincadeira preencheu o espaço de um sarau literário na agenda da livraria onde nasceu. Como no ditado, a necessidade de fugir do clima solene e quase sempre enfadonho dos saraus foi a mãe desta invenção. Apesar de a literatura ser coisa séria, sempre acreditamos que um encontro dedicado a esta arte deveria ser tão divertido quanto uma ida ao cinema. Afinal, nas retrospectivas de cineastas herméticos como Bergman, Tarkovsky, Jodorowsky ou Kaufman, mesmo os mais sisudos cinéfilos se esbaldam na pipoca, celebram com um chopinho depois e até paqueram na fila.
Acreditamos que até os mais cabeludos assuntos científicos e artísticos, para aqueles por eles apaixonados, tornam-se uma grande farra. Não é à toa que, em sua foto mais famosa, Einstein está mostrando a língua, com um sorriso d’uma orelha à outra.
Outro problema dos saraus literários é que eles costumam dividir de um lado o público e de outro os oradores, o que além de chato, nos parece bastante antipático. A solução natural desse problema costuma ser todos passarem pra mesa dos artistas, onde está a diversão, em detrimento da qualidade dos textos e do objetivo do evento – que, se alguém ainda se lembra, era divulgar o trabalho dos escritores para os leitores, não? O desafio era, portanto, permitir que os leitores se divertissem (quase) tanto quanto os escritores. Foi aí que entrou a idéia de um jogo.
No nosso jogo, os leitores decidem que tipo de texto os escritores criarão. E, como o jogo se caracteriza por algum tipo de competição, os leitores se tornam juízes dos escritores. Todavia, para que ninguém entrasse em campo com garra demais e gentileza de menos, era preciso sabotar discussões desnecessárias. (A idéia é que qualquer um possa brincar de escritor.) Votações secretas, vencidas por maioria simples. Outros critérios que premiem textos que ganharam um voto apenas. Prêmios para quem descobrir o maior número de autorias. E, como a cereja no topo do sorvete, um esquema inofensivo de apostas – os perdedores são ressarcidos. Só para atiçar quem se dispõe a dar o talento a tapa.
É preciso algum sacrifício para isso funcionar. Deixamos de lado a bandeira da Grande Literatura com letras maiúsculas. Curiosamente, o tempo acabou depurando o talento (mais ou menos) latente do pessoal metido a escrever, e os anfitriões do evento nunca tiveram de sorrir amarelo para os textos criados pelos jogadores. Passados alguns meses, contos realmente interessantes acabaram surgindo. Por quanto tempo, e em que medida, permanecerão relevantes, é uma questão menor. Eles merecem ser lidos, se você, além de grandes transformações e arrebatamentos, aprecia também uma pequena, porém precisa, luz lançada sobre o mundo.
Anterior a tudo isso, entretanto, está a questão de por que reunir as pessoas que cultivam o hábito, afinal, tão solitário, da leitura. Na verdade, aqui se revela a própria razão de existir da livraria – já que, com a Internet, os mais apressados podem receber seus livros em casa, muitas vezes com desconto e sem pagar sequer frete. As livrarias continuam e continuarão cheias, porque as pessoas querem partilhar com as outras suas descobertas e impressões de leitura. Porque várias dessas pessoas não estão lendo por necessidade de estudo ou trabalho. A vivência no balcão da livraria ensina que a maioria dos fregueses está na verdade cabulando suas obrigações. O livreiro atende engenheiros que adoram resolver crimes tidos como insolúveis; médicos que estão projetando sua casa de campo; funcionários públicos que são mestres na arte da cura natural; advogados que expandem sua consciência com a literatura beatnik; sociólogos que, ainda no mestrado, já estão lendo algo que usarão quinze anos depois, no pós-doutorado, quando fizerem uma conexão insuspeita e casual de idéias. Gente que na livraria relaxa mais do que com massagem, debate com mais liberdade do que entre seus partidários, flerta com mais sucesso do que nas casas noturnas.
Porque a literatura, para nós, diz respeito à vida. E, apesar de, por vezes, exigir introspecção e cerimônia, são os papos com os amigos, o riso e as brincadeiras que fazem com que a vida valha a pena.