(com comentários do sexólogo Hans Pitanga)
Os Souza eram uma família aristocrática do interior de São Paulo que por alguma razão do destino produziram três irmãs das mais diferentes qualidades. Talvez fosse o trauma de seu patrono que perdera a perna na guerra do Paraguai, talvez fosse a excêntrica influência de um tio obcecado por literatura francesa, ou talvez o escândalo causado por seu primogênito ao se casar e fugir com uma escrava. Ninguém pode realmente dizer, mas algo em suas vidas as colocaria em caminhos bem diferentes umas das outras.
Eram Felícia, a mais animada e extrovertida das três, a mais cobiçada entre os bons homens da aristocracia, uma garota obcecada por sua aparência e sua presença na sociedade; Vivian, a comportada, introvertida, sempre a obedecer o que seus pais lhe mandavam, sempre a tentar se adequar ao que os outros esperavam dela, apesar de pouco conseguir a isso responder; e por fim Catarina, não necessariamente a ovelha negra da família, pois estava longe de ser uma ovelha, mas uma expatriada de qualquer forma, a estranha, anti-social para alguns, espalhafatosa para outros, raramente a aceitar o que lhe pediam.
Felícia sempre recebeu muitos pretendentes e fez bem por recusar todos os de baixa índole: os entediantes. Aqueles que vinham a sua presença, declaravam-na uma deusa, clamavam-na seu eterno amor e se jogavam ao seus pés. Ela gostava de aventura, gostava de ser desafiava e facilmente se apaixonava pelos homens que não decaiam aos seus charmes. Entregou-se ao primeiro aos 15 anos: Antônio, o filho de uma das famílias mais ricas da capital. Depois de muito a evitar, caçoar de seu comportamento e assim tomar dela a total atenção, declarou-lhe seu amor e prometeu-lhe casamento. Foram 6 meses de encontros no bosque e em armários de sapatos, para depois ele desaparecer por completo. Depois disso foram Pablo, o banqueiro; Jorge, o pirata; e Ricardo, seu primo; ao ponto que então nomes não mais importavam. Felícia só queria um único homem, mas os que aparentavam querer ficar com ela para sempre eram-lhe enfadonhos, enquanto que os que desejava sem limites, se entediavam de si após algum tempo. Para ela o sexo se tornou a suprema representação do amor, seu amor pela vida, era pela única forma que ela conseguia sentir algo. Sem os braços de um homem ao seu redor, ela rapidamente se entregava a depressão, logo não conseguia se controlar, e rapidamente sua distinção entre os que passavam em seu caminho se tornou mais inexistente. Casou-se aos 30 anos com um homem de 60 da classe dos enfadonhos. Ele a amava infinitamente e foi um pai para todos os seus filhos com outros, enquanto ela amava os muitos que ainda tinham a capacidade de lhe fazer sentir algo. Até o fim apresentava um sorriso e se dizia amar a vida, quando sozinha seu olhar para o mundo era muito diferente.
Vivian também recebeu uma boa quantidade de pretendentes e por alguma razão todos os que seriam enfadonhos para Felícia, se faziam de sérios para ela, enquanto que todos que se faziam de desafiadores para a primeira, se faziam de apaixonados para ela. Porém a nada disso lhe importava, pois não importando o que sentisse, lhe importava mais os desejos de seus pais, suas tias e suas amigas. Muitos foram recusados por um desgosto do pai, ou um comentário de uma amiga sobre um comportamento desagradável na sociedade. Casou-se aos 19 com Alfredo, homem que obtivera tanto o gosto dos pais, as boas graças das tias e risadas assanhadas das amigas. Ela não o amava, mas ele era adequado; ele não a amava, mas ela era adequada. Os anos se passaram, tiveram filhos. Amor nunca surgiu, mas sim uma dependência de sua companhia, mesmo que essa nada lhe despertasse. Apaixonou-se por um de seus amigos, que vinha ao casarão toda sexta para um jogo de cartas. Ele também se apaixonou. Por meses foram beijos escondidos em corredores escuros, depois com as viagens de seu marido, entregou-se a ele. Tudo em segredo e tudo a nada afetar sua vida presente, seu casamento. Ele cansou depois de uns anos e se distanciou. Ela passou a viver em seus sonhos, ou quando o marido raramente a cavalgava durante à noite. Para Vivian o amor era uma quebra do seu cotidiano, não algo que pudesse se sustentar numa vida normal, mas algo que podia lhe picar de vez enquanto, muitas vezes enquanto chorava sozinha em seu quarto. Não era o sexo, pois apesar de ser bom com aquele com quem não podia estar, se fazia mais presente na falta que sentia dele.
Catarina tinha também uma certa quantidade de pretendentes, não tantos quanto suas irmãs. Muitos que conheciam sua fama de estranha, a evitavam; outros que a desconheciam e tentavam cortejar-lhe, logo eram distanciados por sua natureza dúbia, algumas vezes interessada, outras vezes desinteressada; outros ainda, se atraiam por ela como um desafio, mas logo também se afastavam pela constância de sua natureza dúbia, não importado o que fizessem, ou por quanto tempo fizessem, não conseguiam tomar para si sua paixão. O homem que foi lhe conquistar acabara por seu um de fama tão excêntrica na sociedade quanto a dela. Baltazar, um autodidata, faz tudo, que fez fortuna por suas próprias mãos nos mais múltiplos empreendimentos. Amou-a desde o primeiro segundo que obteve um gosto de sua personalidade provocante. Embrenhou-se por quase 1 ano e 8 meses num cortejo de muitos altos e baixos, que também o fizeram como muitos outros desistir algumas horas de seus objetivos, mas cuja paixão não o deixou fugir por muito tempo. Altos e baixos que também pela primeira vez despertaram em Catarina uma paixão profunda. Ela entregou-se para ele no dia de seu casamento, tinha 22 anos, não foi bom pelo sexo em si, mas por todo o desejo que se amontoara sobre Baltazar. Mas logo o que só era desejo imaterial, se tornou material, pois se agarravam loucamente e cada dia era um aprendizado diferente sem limites. Desconsiderados por todos que estranhavam tal paixão num casal, fugiram para uma vida só deles. Seu amor era louco, obcecado, múltiplo em natureza, pois tanto se embriagavam com ele em suas mentes, tanto o materializavam de forma selvagem no sexo. E era um amor que nunca se apagava, pois estava sempre em constante transformação, fruto do constante estado de transformação dos dois, transformação em muito originada da paixão um pelo outro.
“Acredito que a ação da transmutação sexual como atua de forma importante na capacidade de auto-determinação de um homem, também tem uma ação muito profunda na natureza feminina. A mulher como tem a capacidade de provir maior prazer do ato da cópula, das mais diferentes formas, acaba por ser passível as mais diferentes transmutações. Como podemos ver neste famoso conto da escritora Iolanda Figueiredo nos casos de suas três personagens.
Todo ato sexual é o produto de dois fatores, um mental e um químico, e é o equilíbrio entre esses que determinara a relação do sujeito com o sexo e também acaba determinando sua personalidade perante a sociedade e o mundo. A mulher do paleolítico era uma mulher semi-poligâmica, como podemos exemplificar no caso de Felícia, porém diferente desta, sua semi-poligamia tinha a tendência de produzir várias crias, uma a cada novo parceiro, uma nova chance de combinar os seus genes com genes fortes encontrados em cada relação. Felícia procura bons genes, porém nada destes provem com suas muitas relações. Sua transmutação sexual é incompleta, pois apesar de se focar totalmente no material, a reprodução genética, ela não o consegue, produzindo um foco demasiado deformado no prazer que consegue obter isoladamente na carne. O prazer mental lhe é lentamente castrado através de suas várias experiências incompletas.
O exato oposto podemos encontrar no caso de Vivian, cujo prazer sexual se deriva inteiramente de fatores mentais, pouco se materializando no concreto. Sua dependência de conceitos externos a si, ou seja, a sociedade ao seu redor, a faz nunca buscar aprender o que realmente possa lhe afetar de alguma maneira significativa. Mesmo quando tem o caso com o jogador de cartas, este mais se concretiza pela sua falta por algo mais que qualquer coisa. Em Vivia a transmutação sexual nem começa, é interrompida pelo pé da sociedade em seu nascimento. Vivian é uma mulher interrompida.
Por fim, temos o caso de Catarina, que muitos dizem não ser nada mais que o alter-ego da própria Iolanda. Catarina na sua indecisão sobre tudo ao seu redor, seu constante andar na corda bamba sem a nenhum lado querer cair, acaba por encontrar em Baltazar, um homem que reconhece sua negação da sociedade, um agente para sua plena transmutação sexual. No encontro dos dois, ela acaba por também se determinar, abrindo as portas para um prazer tanto mental, como material. Nem o mental, nem o material dominam, mas sim o que podem compor entre os dois, o mental molda o material, mas o material oferece as possibilidades plausíveis de ação para o mental.”
Hans Pitanga

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3 respostas
Neste conto clássico, Iolanda Figueiredo, aka Daniel Matos, exercita mais uma transmutação literária de efeitos parodísticos. A paródia é a técnica transmutativa essencial de Iolanda Figueiredo, vulgo Daniel Matos, que permite prover um efeito de distanciamento ou estranhamento estético, também chamado de efeito-V. Este efeito gera uma lacuna entre a forma e o conteúdo, ou entre o mental e o material, lacuna esta que, em sua incompletude radical, “solicita” um exercício interpretativo, um preenchimento “simbólico” por parte do leitor, quase sempre gerando sinais de hilariedade. Esperamos que Iolanda Figueiredo, avatar de Daniel Matos, desenvolva com agudeza seu estilo para nossa suprema fruição…
Gostaria de saber se o clube continua existindo, se os encontros são frequentes e quando se realizam.
Obrigada,
Vera
Oi Vera! O Clube continua a todo vapor, a cada 15 dias, no Sebo Baratos da Ribeiro. O próximo encontro é nessa terça, se quiser aparecer será mais que vem vinda. Dê uma olhada na página do evento no facebook para mais informações: https://www.facebook.com/events/251592934901840/
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