
Segue-se trecho do artigo publicado na revista A Sociedade em Ação, Edição 259, Maio de 2011, pelo sociólogo Patrick Ibirapuera, PhD. em Ciências Sociais da UFRJ.
“Baratas! A nossa sociedade sofre de um grave preconceito contra esses pobres animais. Baratas são exterminadas impiedosamente, única e covardemente por suas aparências. Sim, se alimentam do lixo, mas se o fazem é porque este está lá. Na verdade, ajudam a humanidade a extingui-lo. E não trazem doenças, nem machucam ninguém. Só estão lá cumprindo seu papel na natureza. E é por isso, que aqui ainda estarão no ano 3482, quando toda a humanidade for extinta do planeta. E o que trará o fim da humanidade? O fato que enquanto hipocritamente milhares de pobres baratas estão sendo exterminadas sobre solas de sapatos, seres muito inferiores, sem sua dignidade ou respeito, são permitidos a andar por ai livremente. Sim, estamos falando de funqueiros. Não, não, não vamos generalizar, pois funqueiros só são uma sub-espécie do verdadeiro problema – funqueiros são mais um problema específico do Rio -, no Brasil também temos aqueles que em praça pública, em ínibus, nas ruas, na janela de vizinhos despercebidos, escutam a altos volumes, coisas como forró, axé, samba, hip-hop, música pop em geral. O caso dos funqueiros em específico é um bom caso a ser estudado, porque enquanto ainda podemos identificar, digamos, pessoas que escutam forró ou outros sons, que são parte da humanidade, o fazendo de forma privada ou em estabelecimentos especiais para isso, sem invadir o espaço de ninguém ao redor, diferentes de outros grupos que escutam o mesmo forró e outros sons, mas não uma completa escoria inumana, sem capacidade de distinguir qualquer limite, que não seja lhe imposto por uma grande pedaço de madeira com pregos – os funqueiros, nesse esquema, se distinguem por só participarem do último grupo. À impossível ser funqueiro e manter qualquer traço de humanidade.
Mas voltando ao caso geral dessa espécie de criatura, a qual daremos aqui o nome cientifico de Escoria podre, podemos analisar outras características desse grupo de seres. Não é só seu comportamento incivilizado ao ligar o auto-falante de um celular no meio de um ínibus cheio, escutando Beyoncé, ou qualquer coisa, que os faz identificáveis, mas também sua estranha aparência. Geralmente tais seres carregam em suas carapaças exteriores formas deformadas, assimétricas, tanto na própria constituição física, quando na postura de seus corpos: curvados para frente, tortos para um lado, com a boca entreaberta, olhos distantes. E quando por algum acidente da genética chegam a ter uma aparência exterior decente, suas verdadeiras identidades são rapidamente reveladas pelo seu ato de abrir a boca, com seu balbuciar incoerente, que logo revela suas deformidades mentais. À interessante, como é justamente na presença de certas músicas, ou certos ruídos – no caso do funk -, que tais traços deformados melhor se revelam. Como se a evolução tivesse desenvolvido um mecanismo de alerta que melhor os atiçasse e os deixassem evidentes para o resto da humanidade. Geralmente, são músicas simples, com únicos acordes, ou ruídos repetidos, e letras que impeçam qualquer tipo de pensamento complexo, ou melhor que o anulem quando presente, que os tornam evidentes. Nunca se viu uma criatura da espécie Escoria podre com a janela aberta escutando música clássica no máximo, ou outro com o carro parado na rua, porta-malas aberto com alto falantes gigantes, a tocar Bob Dylan. A evolução os tornou evidentes com seus comportamentos, e os tornou evidentes para que fossem eliminados, ou pelo menos contidos e esterilizados. Porém, nossa sociedade com sua moral cristão-judia chegou a tal ponto de sua decadência, na sua política de favorecer o mais fraco, ou seja o degenerado geneticamente, de pregar igualdade entre todos, que hoje em dia, tal criatura da espécie Escoria podre, em vez de ser separada e repreendida por seu comportamento, é aceita e deixada livre para praticar suas ações, ou seja suas invasões e abusos na vida alheia.”
Segue-se carta publicada na revista A Sociedade em Ação, Edição 261, Julho de 2011, enviada pelo professor de química pernambucano, Inácio Galvão.
“Muito contundentes foram as observações do Dr. Ibirapuera nessa última edição. Sempre acompanho com ávido interesse seus artigos na revista e devo apontar para um caso que observei recentemente que acredito entrar perfeitamente no seu atual estudo. Há pouco, houve um caso que chamou certa atenção no Twitter, o de uma paulista que twittou “Faça um favor a SP: mate um nordestino afogado!”, o que causou uma forte reação online contra ela. Foi um comentário político, contra a presidência de Dilma, porém tomado como racial, devido a uma longa história de embates culturais, que acredito entrarem exatamente nos fatores tocados em seu artigo. Como sabemos, os forrozeiros estão para o Brasil, como os funqueiros para o Rio, ou os hip-hopers para São Paulo, e tristemente os nordestinos em geral levam a culpa por certos indivíduos que simplesmente não pertencem a humanidade. Sim, o comentário da twitteira foi ridículo, mas igualmente foi os dos que reagiram contra ela, ambos perdendo o verdadeiro fio da questão que tudo isso acidentalmente levantou. Não gosto particularmente de forró, mas não tenho nenhum problema com quem o escuta, só o tenho quando aquele específico grupo de criaturas, ao qual chamou perfeitamente de Escoria podre, o escuta a altos volumes sem respeitar ninguém ao seu redor, e quando confrontado, age de forma ofendida e no direito de cometer seus crimes. A esse grupo, por mim, afogar seria uma punição por demais rápida. Achei engraçado o que li em uma das respostas, que reagia ao comentário falando de nossos grandes mestres literários nordestinos. Perdendo a questão que garanto que qualquer um deles, mesmo aqueles que se deleitavam em certos momentos nos exotismos das músicas de corno, ou homossexualidade enrustida, comuns ao forró, se as tivessem que escutar pela janela de suas casas enquanto estivessem escrevendo um dos seus grandes clássicos, seriam levados a se levantar e ir tacar fogo ou capar o indivíduo que a estivesse produzindo.
Além de professor de química, também sou um contista nas horas vagas, e não faz muito tempo escrevi um relato sobre uma estranha história que escutei que pode lhes interessar, mando-o em anexo.”
Anexo: Seja educado, por favor!
Algumas degradações humanas são contagiantes como um cair de peças de dominó. Era uma rua de aparência decente, num bairro de aparência decente, mais só algumas horas parado em qualquer ponto dela revelaria sua verdadeira face. Carros passando na rua com batucadas ao máximo, janelas emitindo sons de rádios e TVs, que, de tantos, se misturavam entre si num ruído incoerente, pessoas que de suas casas ou da rua, gritavam umas para as outras, como se mais ninguém existisse ao seu redor. E ninguém, absolutamente ninguém, estranhava isso. Como se tal balburdia invadindo uns as casas dos outros fosse a coisa mais natural do mundo. O Senhor L. morara naquela rua cinqí¼enta anos atrás, assim que chegara ao Brasil, e dela só trazia lembranças de paz e tranqí¼ilidade. E a ela agora retornava, mal sabendo da vergonha cega que a havia acometido. Alugara o apartamento de trás do segundo andar de um condomínio.
O povo sempre bisbilhoteiro olhou com estranhamento, quando aquele pequeno velho de cabelos vermelhos, sempre usando um terno e chapéu verde escuro, chegou com seus moveis para a sua nova moradia. Ainda mais, pois não era dado a se misturar com o povo ao redor. Não se pode dizer exatamente quando tal aflição tomara a rua, tudo que era necessário era um único indivíduo, um colocando um som alto num específico dia, invadindo muitas casas e se mantendo impune, para a primeira peça cair. Impune, pois quem sabe, por um programa governamental que dominava aquela sociedade, a partir de um certo momento, estavam se matando os homem honrados e se multiplicando os covardes. Cai uma peça, e outros começam a achar que podem fazer o mesmo, logo para todos os lados tudo se tornou barulho. E qualquer pessoa decente a se revelar contra isso passou a ser vista como um monstro. Aí, nesse meio, chegou o Senhor L., despercebido, a morar logo acima de uma das fossas abertas do esgoto. Foi logo no segundo dia de sua vinda. Calmamente a ler um jornal em sua sala, teve seus ouvidos tomados por um forró vindo da janela. Primeiro, não acreditou, tomou por um engano, alguém despercebido quanto ao volume da música, depois quando viu que continuava, fez o que qualquer pessoa decente e moral faria, foi reclamar, fazer cessar aquela violência a si sendo perpetuada. Chegando lá, no apartamento do andar de baixo, foi atendido por uma mulher gorda, feia e demente, e um homem de olhar solto. Apontou para o som alto, e imediatamente foi respondido por um ar arredio, seguido de raiva. Clamaram que podiam fazer o que queriam em suas casas e que ele deveria voltar para sua. O Senhor L. tentou responder a altura, mas foi em vão, ali com aquelas criaturas nada podia fazer. Assim, primeiro tentou tomar ações legais, mais pela polícia também foi renegado, que trabalhar não pretendia. Depois, após ver que tal crime contra si, não fora apenas uma exceção de um dia, mas algo constante, tanto pelo rádio, mas também por um cão a latir em altas horas, decidiu recorrer a outros meios.
O casal que vivia naquele apartamento de baixo, já fazia barulho e seguia impune há anos. Era uma mulher gorda, feia e demente, que além de se excitar com o latido de seu cão, também o fazia com o som de padres a gritar no rádio, e seu gigolo, que a visitava toda semana, e limpava a casa ao som de forró. Era difícil de se imaginar que uma mulher como aquela poderia manter um gigolo, mas há anos fraudava o governo, mantendo uma pensão que conseguira ao assassinar seus pais, e além disso, é possível se conseguir gigolos em qualquer nível da sociedade, desde que não se procure por qualidades, e este estava em par com a mulher: antes era um limpador de privadas, igualmente feio e demente. Quando o Senhor L. veio lhes apontar como o estavam o incomodando, se sentiram ofendidos, suas vidas já eram miseráveis o suficiente sem mais alguém lhes vir ditar o que podiam ou não fazer, e seu som de estourar os tímpanos e enevoar a mente não iam lhes tirar. Eles não sabiam com quem estavam se metendo.
Uma semana após o ocorrido, a mulher gorda recebeu uma ligação da policia. Seu filho, com mulher e filhos havia sofrido um acidente de carro. Todos haviam sido lentamente carbonizados. Isso foi apenas o começo. Em seguida, seu cão ficou doente, e logo os latidos pararam, principalmente na manhã de seu último ataque de tosse, em que vomitou em cima do colo da mulher todos os seus órgãos internos. Com o gigolo forrozeiro, tudo seguia normal, até que uma noite voltando para casa em que se viu seguido por cinco estranhas figuras, que pelo canto to olho só pareciam vultos negros. Mesmo depois do ocorrido, não pode realmente descrevê-las. Mesmo depois de ter sido naquela noite alcançado por elas, surrado e depois sistematicamente estuprado por todas. Aquilo acabara com seus nervos, e lhe negara um dos poucos prazeres que ainda tinha na vida, ser possuído por outros homens, agora, só de pensar nisso, era levado a um ataque de tremores. Os dois foram jogados numa ruína maior do que a que já tinham antes transformado as suas próprias vidas, e só tinham agora o seu som estupecedor para tentar não pensar em nada. Isso foi quando receberam mais uma vez a visita do Senhor L., para mais uma vez o tratar de forma arredia e raivosa. Dessa vez, foi até pior, o ofenderam e depois aumentaram o som. O que ele respondeu com um sorriso, o de alguém que fizera o máximo que podia de uma forma civilizada, e agora tinha sido permitido acabar o serviço.
Não se pode dizer realmente o que aconteceu com aquele casal, a mulher gorda foi encontrada uma manhã pela empregada, eletrocutada. Estava à frente da cruz, como se aquela tivesse sido a última coisa que tocara. Depois foi descoberto, que um fio descascado energizara sua cruz. Já o homem, só foi encontrado um dia morto na rua com um rádio enfiado em sua traseira. O rádio ainda funcionava e tocava um forró no máximo. Depois daqueles ocorridos, o Senhor L. se viu com alguns bons dias de tranqí¼ilidade, porém, aqueles dois vizinhos não eram todo o mal a tocar aquela rua, a contaminação havia já há muito se espalhado: vizinhos da casa ao lado escutavam também um rádio no alto algumas vezes, e quase toda noite, pivetes se juntavam a frente do condomínio, e urravam sem parar enquanto tacam fezes uns nos outros – ou jogavam futebol, ele não sabia distinguir. A limpeza estava apenas começando.
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