
Um bebê cruel, crudelíssimo, aliás, chorava no andar de baixo. Ou de cima, que Carolina não era capaz de precisar a origem dos sons que atravessavam a existência de seu apartamento, salvo os oriundos das manifestações climáticas. Enfim, o bebê bradava de tal forma que Carolina não conseguia se concentrar em nada que não o sufocamento que se iniciava no peito e resultava, afinal, em certo formigamento nos pés e nas mãos. Aquele choro mitigava qualquer paz.
Ela agora subia a toda a escada interminável que a levaria a Santa Teresa, a partir da Rua do Lavradio. Quando atingisse seu ápice, veria a Central do Brasil, se olhasse para trás, e, em frente, veria casarões velhos, umedecidos pelo tempo e pela história. Ela queria chegar logo, mesmo que não tivesse razão para pressa. E enquanto subia, crianças ao seu redor brincavam, correndo, de um pique qualquer, talvez polícia e ladrão, ela não sabia ao certo, já que sua atenção, naquele momento, era apenas chegar lá em cima, parando o mínimo possível para retomar o ar. As crianças ” que eram mais de dez e pareciam cem “, incrivelmente, tinham fílego que não acabava mais, e corriam verdadeiramente pelos degraus, saltando, subindo, descendo, gritando, falando, eram grupos que Carolina não conseguia distinguir perfeitamente bem. Assemelhavam-se mais a vultos do que a seres humanos, dada a rapidez com que se movimentavam pela escada que era, para os meninos, seu playground, e, para ela, tudo o que queria deixar para trás. Escadas, Carolina não sabia bem por quê, inspiravam um sentimento inespecífico que seria impossível traduzir para qualquer palavra do léxico atual mas que se aproximava do desagradável. Talvez ainda inventassem todas as palavras que correspondessem sem ambigí¼idade a todas as sensações espinhosas.
Talvez fosse o antigo pique-cola o jogo que entretinha as crianças saltadoras, será que as crianças dos anos 2010 brincam desse tipo de coisa? Aquelas ali brincavam. Não havia computador em suas casas. Se houvesse, o uso era restrito, pois estavam ali, ao ar livre. O que havia próximo í s suas residências eram igrejas evangélicas com cultos estridentes e muitos fiéis expurgando seus demínios. As crianças, contudo, naquele momento exato em que Carolina atravessava suas vidas, só se preocupavam com a intensa correria, porque cada brincadeira, quando acontece, é tudo ou nada, e cada criança, quando brinca, é apaixonada. Em sua pressa e em seu suor, Carolina até conseguia notar que, naquele jogo, um salvava o outro, havia times, equipes, alguém iria ganhar e alguém iria perder, e era incrível como elas se locomoviam com a velocidade e fúria próprias de quem está no início. Já Carolina tinha como exclusiva preocupação alcançar o fim da escada, que não acabava mais. Em sua tarefa extenuante, até conseguia observar que além de sua respiração, também os degraus eram irregulares, mas estavam mais bonitos do que da última vez em que os subira: haviam colocado alguns azulejos à moda do Selaron, da escadaria da Rua Joaquim Silva, na Lapa, porém não ficara assim tão belo, era uma tentativa de.
Uma tentativa de.
Ao final de toda aquela subida, Carolina esperava encontrar alívio. Haveria também descanso e a Central do Brasil atrás. Sentiu saudades de quando brincava de pique-cola americano, de pique bandeira e, especialmente, de pique esconde valendo salve-todos, quem se lembra do salve-todos? Se na vida houvesse o salve-todos, ninguém precisaria ter tanta insínia, os fabricantes de ansiolíticos não aufeririam lucros crescentes e o bebê não choraria tanto. Aquele bebê cruel, que espetara com seu choro pontiaguado todas as capacidades de Carolina exercitar alguma tranqí¼ilidade, ainda não estava ciente de que haveria, possivelmente, um salve-todos no final. As regras das brincadeiras imitam a vida. Não podia ser diferente. E as crianças das quais Carolina se desviava talvez soubessem que toda brincadeira tem um fim para certamente recomeçar. No entanto, Carolina só queria se livrar de tudo aquilo e principalmente da algazarra infantil que a circundava durante o trajeto escadaria acima.
Ela só queria se livrar de.
Carolina não sabia muito bem o que a esperava após o último degrau. Não fazia a menor idéia do motivo para que alguns lamentos infantis – mescla de choro e grito lancinante – fossem insuportáveis de escutar. E não podia imaginar por que, naquele derradeiro momento voluntário, só se recordava daqueles dois breves acontecimentos ” e justo aqueles ” de sua vida inteira.
Artigos Relacionados
5 respostas
nossa, q conto lindo! e olha, conheço todas as brincadeiras, salve o salve-todos. mas tbm desse eu me lembrei. adorei “porque cada brincadeira, quando acontece, é tudo ou nada, e cada criança, quando brinca, é apaixonada.” apaixonada e decidida como é a “fuga” para cima de carolina, procurando o “alÃvio”, ou sabe-se lá o quê. e não sei porque me lembrei da Arte Zen de Manutenção de Motocicletas: “o zen q vc encontrou no alto da montanha, foi o zen q vc mesmo levou para lá…”
Que alÃvio! Achei que ela ia matar o bebê quando chegasse em casa…caberia uma consulta? rsrsr Bacana o conto e o salve-todos era ótimo porque geralmente tinha um que sempre salvava todos e os todos podiam descansar na certeza de que, em algum momento, seriam salvos. Agora, pique americano, não me lembro, talvez não seja da minha época
) Pique bandeira e queimado eram os meus preferidos, bjobjo
Gente, obrigada! Então, Ana, é o pique cola americano. Tinha vários tipos de pique cola, entre eles este (em que pra vc tirar a pessoa da estátua em que ela ficava tinha que passar por baixo da perna) e tinha o pique cola três vezes… Mas pô, não projeta sua ultra-violência-tarantina-literária no meu conto singelo não, hahaha!!!! E Guilherme, que bom q vc conhece o salve-todos, hahahaha! Poxa, vc lembro do livro zen, por que será? Sei qual é o livro, mas não li e me sinto honrada de alguém lembrar de um livro zen lendo um conto meu. Valeu, meninozzz!
Oi Vivian!
gostei muito do seu texto. Pena que a Carolina não conseguiu ouvir a música que tem nos choros e gritos dos nenens…Beijão da Ana
Pelo amor de deus, alguém manda um salve todos, por que nos piques da vida nem pra se esconder tá fácil… A estranheza de atos simples e corriqueiros como subir uma escadaria… não seriam estes os nossos poucos momentos de alguma consciência?
Me arrepiou. Muito obrigado.
Deixe seu comentário