
Do”espólio-de-textos-impublicáveis-que-um-filho-da-puta-vai-publicar-um-dia
Claudicante o senhor P. cruza a rua, um passo após o outro sem saber como e onde firmar cada pé, reunindo o que sobra das forças para manter-se ereto e respirar. Obriga-se a concentrar energia, a priorizar uma ou outra das tarefas. Os faróis altos de um carro que dobra subitamente a esquina numa velocidade várias vezes acima do limite do concebível lhe cegam por tempo bastante para que o pequeno retrovisor lhe arremesse sobre uma pilha de sacos de lixo. Só depois que cai ouve a buzina disparada se afastando, emoldurada pelas marchinhas distantes que começam a arrefecer na madrugada da direção oposta e pela desorientada polifonia de risos, gritinhos e gemidos que ecoam dos mais diferentes cantos escuros do beco em que percebe se encontrar. ” Está feito ” esmorece. A dor lateja e se espraia, de modo morno, aconchegante.
” Não é mesmo seu dia de sorte, hum? ” distingue uma voz debochada, reverberando de um lugar ainda bem mais distante do que as marchinhas cada vez mais indiscerníveis e que a buzina que ainda há pouco desaparecera nos confins de seu ouvido. ” Ele ouve? ” pergunta uma outra voz, esganiçada como um falsete desafinado que arrancasse caretas de quem quer que ouvisse. ” Ouve. Eles sempre ouvem ” respondeu a primeira, ainda há pouco debochada, mas agora assumindo um tom mais solene. Por entre elas parecem ressoar ainda os gritos avulsos e pedaços desencontrados de gargalhadas que se espalhavam pelos cantos escuros da rua e mais além da esquina, mas o senhor P. agora já não acha que os esteja ouvindo com seus próprios ouvidos e sim com a memória, ou o que ele dela alcança, pois os sons não parecem vir de fora, ainda que soem impossivelmente longínquos. ” Coisa boa ele não fez! ” exclama insuportável a vozinha falseteada. Contorcendo uma careta, o senhor P. imagina ser a voz de um duende mal alimentado; seria assim que haveriam de soar caso houvesse duendes e não tivessem se alimentado. ” Olha todo esse sangue! ” arremata o homenzinho, e há mais excitação que horror em sua exclamação. ” Precisamos encontrar quem ele feriu, não precisamos? ” indaga agora excitadíssimo. ” A julgar pela quantidade de sangue aqui, e por mais tudo o que ficou pelas calçadas, não foi só um ferimento”¦ ” ponderou a voz mais grave. ” O senhor não acha que nos deve uma explicação? ” a voz volta-se impaciente para o senhor P., que se sente diretamente inquirido mas não encontra ainda a força para mover os lábios ou abrir os olhos. Não entende do que falam, e ao fundo a banda parece silenciar. ” Ele está fingindo! ” grita a voz estridente como se saísse do próprio nariz do senhor P. ” Eu o vi piscar por trás da máscara! Eu vi, eu vi! ” saltita a vozinha. ” Como pode ser inocente um homem com uma máscara dessas?! Quem escolhe algo assim só pode mesmo ser um doente! ” e de repente parece que tudo em volta é silêncio. Nenhum sinal da banda com suas marchinhas, nem dos barulhos difusos do beco. Agora escuta a própria respiração, a sua e algumas outras ao redor, sem poder precisar quantas sejam.
Abre os olhos e não discerne senão vultos de formas instáveis, que silenciosamente se afastam e aproximam, certas sombras bruxuleando em várias direções, e ouve ainda respirações circundando seu corpo, que sente se encontrar deitado. ” Ahrá! Abriu os olhos! ” regozija-se o sujeitinho de voz aguda. ” O senhor então fará a delicadeza de nos explicar? ” pergunta a voz mais solene. ” Afinal, o senhor pode confessar e se arrepender. ” Não sei o que há para explicar. ” Pode começar dizendo quem é você. ” E pode explicar de quem é todo esse sangue em suas roupas! ” acrescenta a voz estridente. ” E também por que está usando uma máscara dessas! ” falseteia triunfante. O senhor P. não quer saber de sangue, sempre teve medo de sangue, e não consegue levantar a cabeça para ver que sangue é esse de que as vozes falam. Sabe, contudo, que está de fato mascarado, por conta da visão limitada, pela dificuldade com que o ar lhe chega í s narinas e pelo eco de tudo que reverbera como que dentro de sua cabeça, mas não se lembra de ter colocado máscara alguma.
” O senhor não vai mesmo colaborar? ” insiste desafiadora a voz grave. ” Isso é uma pena, uma pena”¦ O senhor sabe a que estará nos obrigando. Será péssimo para o senhor. Não precisava ser assim. ” e quase parece haver sinceridade no lamento.
” Mas quem são vocês? ” grita o senhor P. como quem gritasse para si mesmo tentando despertar.
” Essa agora é muito boa mesmo! ” grita insultada a vozinha. ” Você não nos diz quem matou, não explica por que está usando essa máscara, não sabe sequer seu nome ou onde está, e acha que pode perguntar alguma coisa! À muito boa, muito boa mesmo!” ele está realmente indignado. ” Nós só queríamos ajudar”¦ ” pondera a voz mais grave. Era uma chance para o senhor. Quem nesse mundo não quer uma chance? Quem nesse mundo pode abrir mão de uma última chance?!
” Mas eu não sei”¦ eu não sei. Eu só sei que era uma outra”¦ que eles não viram, e ela não quis. ” balbucia o senhor P. Suas forças terminam de escorrer.
” Seu merda! ” grita enfurecida a voz falseteada, no que é repetida em ecos enérgicos e dessincronizados por varias outras vozes, de muitíssimos timbres, como não tivessem mais se agí¼entado em silêncio. Os risos, gemidos e gritinhos do beco voltam a se espalhar por dentro de sua cabeça. Bem distante crê ouvir ainda uma última vez algo da banda. ” Seu merda! Seu suicidazinho de merda!
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