
Não agí¼ento mais ouvir a minha voz. Ela está um pouco mais estridente do que de costume, ligeiramente abafada. Quase não a reconheço, mas é ela, indiscutivelmente é a minha voz, aquela mesma que sempre reconheci como uma extensão de mim, quase como que minha corporeidade sonora me continuando naqueles espaços vazios que a matéria da minha carne não é capaz de preencher. Agora, entretanto, era diferente. Tanto quanto um corpo estranho que o sistema imunológico de um organismo não é capaz de reconhecer e procura rejeitar, aquela voz, que era minha, assemelhava-se a uma partícula estranha a mim, que eu fracassava em rejeitar. E, o que é mais curioso, eu já dissera aquilo tudo que agora era obrigado a ouvir. Todo aquele som vocal, proveniente da minha garganta em outras épocas, era dito em altos decibéis, expressando aquelas coisas horríveis que eu já havia dito não uma nem duas, mas dezenas, quiçá centenas, de vezes. Não havia pausa, nem intervalo, nem uma parada para o fílego. Â A minha voz era contínua e vinha de um terceiro. Eu era uma ilha rodeada da minha voz por todos os lados, sem o poder de interromper aquele discurso cheio de fúria, falácia, maledicência, calúnia e horror. Eu não tinha como parar de ouvir.
No quarto inteiramente branco, desprovido de quaisquer objetos que pudessem me distrair ou aliviar, já não sabia mais quanto tempo se passara, e tudo era som. Não havia portas de entrada ou saída, tampouco janelas, ralos ou uma mísera chaminé. Se houvesse o inferno, era exatamente ali onde me encontrava!
Quando me dei conta de que aquele corpo estraçalhado após o acidente era o meu e que aquele desconhecido medonho e turvo que me encarava era a morte e seus processos, pude entender que tudo o que eu havia dito, durante meus sessenta e seis anos de vida, eram coisas horríveis, recheadas de rancor e desprezo, inveja e recalque. Palavras rudes haviam sido abundantes em meu vocabulário. Pelo menos, essa era a única explicação que eu conseguia enxergar que explicasse aquela tortura à qual eu estava sendo submetido naquela duração sem começo ou fim. Quando era uma pessoa viva e alguns conhecidos tentavam me convencer de que suas religiões reencarnacionistas continham a verdade da alma, sempre desprezei aquilo tudo, orgulhosíssimo de meu agnosticismo sem causa. Não sei ainda se estavam certos e nem que outro destino me seria possível, mas o fato é que estou no inferno, ou numa dimensão equivalente a esse constructo teórico dos cristãos. Devo ter dito apenas as coisas ruins constantes do meu rascunho pré-vida, esse que todas as almas têm e que constituem sua missão durante a vida (dizer aquilo tudo ou calar-se para sempre). Morri antes de dizer algo que de fato valesse a pena ou que fizesse bem. E agora, sou obrigado a me ouvir, sem descanso. Há quantos dias estou aqui? Não agí¼ento mais esse eco de uma voz que é e não é minha. Sinto dores de cabeça e no fundo dos olhos, já que eles insistem em se manter abertos, é impossível dormir. Dói especialmente o ouvido, ou esse simulacro de ouvido que me restou, pois essas palavras que vêm e não vêm de mim o corroem devagar e sempre, provocando-me vertigem e falta de ar. Trata-se de uma escuta inescusável, trata-se de uma dor lancinante, trata-se de ouvir repetidamente tudo aquilo que um dia fui capaz de dizer e não há nada que eu possa fazer para cessar esse desconforto.
Veja… Começou de novo. Rebobinaram a fita.
Não agí¼ento mais ouvir a minha voz.
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