
Tudo começou há pouco mais de um ano. Pode ser. Não lembro. Eu só sei que estou com muita fome. Não como há dias. Tudo o que tinha no estoque, mesmo estragado, acabou. Mas não posso sair. Tenho medo. Ouço os gritos simiescos rondando as janelas como as trombetas do Anjo da Morte e tremo. Penso: “À minha vez! Eu vou morrer! Essas coisas vão me pegar!” As linhas de telefone foram cortadas e há meses a energia também. O prédio está incomunicável. Por que ninguém apareceu até agora? Como um edifício inteiro com pessoas pode ser ignorado assim? Às vezes, me pergunto se ainda há moradores vivos além de mim. Quantos? Espero pelo socorro, com esperança terminal. Fico encolhido, aguardando a mortalidade surgir violenta e com o estrondo de um ser forte e enfurecido.
Antes dos moradores do edifício Waldemar começarem a desaparecer, eu costumava ir í s escadas da área de acesso na madrugada para fumar maconha. Apesar de ser um lugar de uso comum, quase ninguém passava por lá. Além do mais, gostava da sensação de relaxar ligeiramente em alerta, caso um dos porteiros estivesse vindo em sua ronda. As escadas também não eram de fácil transição à noite. A iluminação falhava em diversos andares, não havia corrimões, o espaço entre os degraus era alto e o ponto de apoio menor ao tamanho do pé de um adulto de um 1,70 m. Assim, apenas os porteiros utilizavam aquele espaço e eu conseguia ouvir seus passos lentos através do eco com uma antecedência estratégica.
Numa noite, estava apertando um baseado quando ouvi gritos. Primeiro, eram sons guturais, primitivos. Várias vozes que poderiam ser um animal selvagem ecoaram de forma ensurdecedora pela passagem em espiral e cessaram. Quando estava num estágio de introspecção química desejável, algo me assustou e levantei com o coração disparado. Em meio a escuridão, mais gritos surgiram. Desta vez, não eram de uma besta indecifrável. A voz era humana, bastante humana. Um homem em dor, implorando pela vida misturando com tecido rasgado. Eu nada vi, mas não precisava. Fugi escalando os degraus como um bicho desesperado, nas quatro patas.
No dia seguinte, desci para ir ao trabalho. Quando adentrei a portaria, notei uma tímida comoção. Perguntei o que houve. Responderam que Rosseno, o responsável pelo local no turno da noite, sumira. Seu colega, que ficara na entrada do edifício o tempo todo, não o tinha visto sair ou acionar a portão da garagem. Ao verificar as escadas, onde ele teria ido pela última vez, encontraram um círculo formado por gotas de sangue, com uma pequena extremidade vertical acima. Como se indicando um caminho, um traço ou uma forca.
Um tempo se passou. Desde aquela noite, evitava as escadas. Muito arriscado, especialmente com as buscas a Rosseno. O homem parecia ter evaporado no ar, comentavam os vizinhos no elevador. Tinha minhas suspeitas, mas resolvi que o melhor era ficar calado. Finalmente, a síndica convocou uma reunião para discutir o desaparecimento da mãe do morador do 202. Abaixo, a frase “presença indispensável”. Fui e mais umas sete pessoas.
Reinaldo, o residente do 202, dissera que sua mãe, uma senhora senil, sumira de casa. Aparentemente, ninguém a viu sair do prédio. As câmeras de segurança recém-instaladas indicavam sua última imagem: indo em direção í s escadas da área de acesso. Logo após, apenas um azul desagradável na televisão. Terminado o apelo, a síndica assumiu. Ela relatou que era o terceiro desaparecimento de residente do prédio em pouco mais de um mês. Houve uma pequena comoção entre nós oito, pois achávamos que era apenas um. A síndica, então, revelou uma pista. Em cada ocasião similar, uma pequena trilha de líquido vermelho, no formato de um círculo e com uma linha vertical na parte de cima, foi encontrada. E, mais importante, “tocos de cigarros de maconha foram recolhidos durante as primeiras buscas.” De repente, me apavorei.
Na noite em que Rosseno desapareceu e ouvi os gritos, saí correndo como um animal, escalando os degraus de quatro. Em meio a meus temores e a escuridão, só queria voltar ao meu apartamento. Só mais tarde percebi que havia perdido meu isqueiro. Entendam que não era um isqueiro qualquer, mas um importado contendo as iniciais de meu nome. E, evidente, impressões digitais. Criei coragem e, naquela noite, voltei í s escadas.
Com um boné na cabeça e usando a luz de meu celular como lanterna, fui lentamente procurar pelo maldito isqueiro. Eu me sentia em parte calmo, porque todos evitavam aquela área agora e o corredor em espiral estava quieto. Quieto demais, como na hora falhei em notar. Imerso em meus pensamentos e um tanto chapado, descobri que havia mais alguém quando uma força me puxou para trás. Gritei e apontei a luz do visor para o rosto de quem me atacava. E, do interior das sombras, surgiu Reinaldo. Ele berrava comigo, querendo saber o que eu fazia ali, o que tinha feito com a mãe dele… Antes que pudesse gaguejar uma resposta, os sons guturais que escutara na primeira noite fatal se manifestaram mais uma vez pelas escadas. Primeiro, um urro. Um aviso. Depois, vários. Entendemos a mensagem. Fomos procurar a saída mais próxima, mas, com os degraus tão estreitos, nossa movimentação não podia ser veloz quanto gostaríamos.
Reinaldo tropeçou. Eu me virei e apontei o celular para onde havia caído. Ia estender o braço, mas os rugidos primatas surgiram poderosos e assassinos. Congelei, enquanto Reinaldo era arrastado por alguma coisa escondida no vazio que envolvia as escadas. Fui testemunha auditiva de suas últimas palavras. Timbres agudos, pedidos por perdão e socorro, a surdez de roupa sendo cortada. E os sons líquidos. Para não ser o próximo, corri. Tentei chamar a atenção de moradores bramindo “Reinaldo! Reinaldo!”, mas sem reação dos outros. Encontrei uma porta e cai no quinto andar..
Desde então, as coisas pioraram. Fiquei alguns dias fora. Tentei encontrar um novo apartamento, mas os preços dos aluguéis subiram de maneira absurda. Só saía para trabalhar e nada mais. Há alguns meses, a energia foi cortada e os telefones ficaram mudos. Olho pela janela e nada ouço lá fora ou enxergo luzes. O mundo foi tomado pelas trevas. Tudo o que ouço são estrondos bestiais, a morte em seu estado selvagem, me avisando de que, cedo ou tarde, minha vez chegará.
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