
Saio o elevador do prédio e a visão do corredor já me dá ânsia, em antecipação à visão da porta suja e sem pintura que me espera e ao mundo de fedor e sujeira que ela vai me trazer. Imagino sem esperanças como seria se, ao chegar ao fim do corredor, eu desse de cara com uma porta nova e pura de branco como todas as portas vizinhas. Poderia ser. Eu sei que não será, mas poderia. Do mesmo jeito que penso quais seriam as repercussões se um dia eu simplesmente fizesse certas coisas. Como se eu entrasse de novo no prédio de escritórios onde trabalhava, sentasse em meu antigo lugar e falasse a todos que trabalhava lá. Ou se eu continuasse no ínibus eternamente, ponto após ponto. Ou se agarrasse a pessoa parada na minha frente no metro. As vezes fico pensando se os loucos não são simplesmente pessoas que decidiram isso certo dia, e ninguém conseguiu fazê-las voltar atrás.
A porta não mudou, claro. O lado de dentro bem que poderia estar igual a como estava da primeira vez que eu cheguei, mas não está. A casa era um pouco bagunçada, sim, mas bagunça é temporária (assim dizia-me ele) só até as coisas que ajeitarem. As “coisas” não se ajeitam nunca, ao que parece. Seis meses e a única mudança foi a sujeira. Muita, muita sujeira.
Sujeira no banheiro, que cheira a mijo e tem pelos de barba espalhados pela pia e pelo piso. Sujeira na sala que permanece fechada, o suor impregnando nas paredes. A cozinha onde crescem vermes nas panelas que passam semanas sem ser lavadas. Vejo só sujeira e mais sujeira. E uma pessoa obesa numa poltrona funda em frente a um computador, assistindo a filme depois de filme, seriado depois de seriado, e que me diz que vai arrumar a casa “quando tiver um pouquinho de tempo”.
Eu ponho os pés pra dentro e ouço roncos vindos da poltrona da sala onde ele se afunda durante todo o dia. Tem um sono de pedra ” ou melhor, sono de porco. Eu imagino de novo. A cozinha imunda, a faca afiada já suja de carne e legumes. Visualizo tudo acontecendo. O caminho da cozinha até a sala, a sensação da faca das mãos. O cheiro que ficaria na casa durante semanas sem ninguém reparar, já que ele praticamente não sai e a casa vive toda fechada. O chão lavado a sangue. O cheiro, a sujeira, a imundice.
E se eu fosse?
A loucura me escolhe, ou eu escolho a loucura?
Acho que está na hora de eu mudar de casa.
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