
Eu gosto ficar sozinho por um minuto. Se desse pra ser no silêncio era melhor, mas não dá: é mais ou menos na hora em que a escola anterior está terminando o desfile que eu fico sozinho. Aí é barulho de gente gritando, de gente aplaudindo, da imprensa correndo prum lado e pro outro pra entrevistar as madames fantasiadas. Aqui onde eu fico ninguém entra. Os meninos já avisam: é hora da concentração do Mestre Toco.
Eu saio da concentração diferente. Dali em diante, o mundo todo está em câmera lenta, menos eu. Teve um ano em que até os barulhos pareciam ter ficado grossos, daquele jeito arrastado de quando o toca-fita dá problema. Eu batalhei durante muitos anos pra comprar um toca-fitas. Hoje eu tenho uns três, e eles não valem mais nada.
Quando chego na frente da bateria eu não lembro o nome de ninguém. Não existem nomes ali, nem mesmo pessoas. À todo mundo um corpo só, o meu corpo. Assim, quando meu sangue corre nas veias, ele também corre por entre os tamborins e caixas. Quando meu coração pulsa, o surdo de primeira imediatamente soa. Quando meu peito enche de ar, a cuíca afina o tom. E quando solto o ar o agogí dá a pausa de um quarto. O que eu faço eles fazem. Eles são meu corpo.
Nesse carnaval tinha avisado que iria acelerar as coisas. Antes de começar fui trocar uma idéia com o menino do cavaquinho base, o Tico. Ele tem 17 anos. Um dia, em sua casa, seu pai estava se masturbando assistindo a um filme porní comprado na Uruguaiana. Sua mãe chegou mais cedo, e o pai do Tico, no instinto, mudou o canal da tevê. Sem ver, ele colocou num canal novo da Gatonet que só passa luta. A mãe do Tico viu o pai do Tico excitado com dois homens se atracando e concluiu que ele era viado. Dois dias antes do desfile, ele foi morto a pauladas por dois irmãos da igreja que a mãe do Tico, o Tico e o próprio pai do Tico freqí¼entavam.
Coisas da vida.
Cheguei no ouvido dele e disse que esse ano o samba ia parecer uma locomotiva. Um trem doido, dez vezes mais rápido do que o da Supervia, em que a gente entrasse pra sair dali, pra sair da vida, e desembarcasse onde quer que fosse, longe da gente mesmo, pra poder ser outro cara, outro tipo de gente. “Lembra só do seu pai, Tico, e segue o tempo”.
Quando eu marquei o tempo e o Tico puxou o refrão no cavaquinho, os caras da bateria me olharam assustados. O Bubu chegou a perguntar: “À nesse tempo mesmo, professor?” O pai do Bubu foi preso por ajudar o próprio irmão a esconder um corpo que ele nem sabia de quem era. A mãe do Bubu costurava pra escola. Ela era muito gorda e fumava dois maços de cigarro por dia. As tromboses foram levando ela embora aos pouquinhos, pedaço a pedaço, bem na frente do Bubu, bem longe do seu pai.
Coisas da vida.
Quando meu corpo ordenou a partida da locomotiva, eu juro que cheguei a ver o Sambódromo ficar escuro por uns dois segundos. A Rainha de Bateria reclamou com o Diretor que não ia conseguir sambar nessa velocidade com aquele salto todo. Ele mandou ela se fuder. Ela era uma atriz famosa, nascida nas Laranjeiras. O primeiro papel dela numa novela das oito tinha sido ano passado. Mas no meio da novela ela abandonou o namorado de infância, “problemas de agenda”. Ele saiu da casa dela dizendo que entendia e que iria esperar por ela a vida toda. Saindo do Leblon, um ínibus espremeu seu carro na calçada e o carro capotou pra dentro do canal, parecendo uma bolinha de papel.
Coisas da vida.
Eu segui ditando o samba, apitando as ordens e me sacudindo. Realmente o tempo tava muito rápido. Na hora eu pensei que de repente eu tivesse cheirado um pouco mais de cocaína do que o normal. Ela tava mais molhadinha mesmo, o Gezinho falou pra segurar as pontas. Mas eu não queria segurar nada. Eu precisava pilotar minha locomotiva.
A locomotiva que ia levar o Tico pra longe dos caras que mataram seu pai. A locomotiva que deixava o Bubu numa estação em que sua mãe está viva e seu pai, solto. A locomotiva que jogaria a agenda da Rainha no fogo e deixaria a menina namorar um homem e a fama ao mesmo tempo.
Eu tinha uma missão ali.
Uma dívida.
A bateria é meu corpo, e meu corpo a bateria. Quando me deu o suadouro, senti os tamborins pastosos, sem pegada, “tamborim de bloco”, que nem a gente diz. Quando meu peito doeu, o surdo deu uma rateada que assustou os puxadores. Quando eu parei de sentir a perna, as caixas desencontraram.
Quando eu caí no chão, a Sapucaí assistiu, atínita, à maior paradinha de bateria de todos os carnavais.
Era a locomotiva parando para eu saltar.
Coisas da vida.
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