
Estou sentado olhando tudo passar. Me sinto congelado no tempo, mas simultaneamente observo de tudo, com olhar de um personagem dos filmes de Hitchcock. Houve fases que queria participar, mas não sabia como.
Nos primeiros tempos estava anestesiado, e só fazia o que me mandavam. Mais tarde foi a época da esperança, tão fugaz… Depois me dei conta do ridículo da situação e me tornei mais consciente. O cinza que me rodeava conseguiu finalmente me invadir e não me esforcei para expulsá-lo.
Trabalho mecanicamente, o tempo não passa. A cada dia o ar parece estar mais denso e o meu pulmão não tem capacidade de absorver a minha morte que parece tão próxima. A paciência que tinha com meus colegas de trabalho já se esgotou, não tenho mais tempo para a vida social, que me entedia. Quando precisei daqueles que chamava de amigos, nunca apareceram.
O que chamava de vida não está mais acessível, sou um pálido fantasma de um passado recente. Dizem que a maior tortura que um homem pode sofrer é ter sua capacidade de criação cortada abruptamente. Foi o que aconteceu.
Meus companheiros que eram poucos estão distantes, minha namorada está desconfiada de que tenho outra mulher, mas minha impotência sexual é reflexo daquilo que tenho. Nada. Não consigo fazer nada.
Minhas mãos estão paralisadas, tudo passa. Carros, senhoras com carrinhos de compras, crianças, adolescentes com espinhas na cara, jovens com shorts coloridos feito a primavera que acabou de chegar. írvores em flor, frutos e folhas. Já passou meu tempo.
A vista se deforma… quando me sentia bem gostava dos jovens passando, do colorido. Agora por que tudo isso só me causa indiferença? Tudo passa, por que tenho que ficar aqui preso, estático? Pensando bem, eles é que estão parados, eu estou indo para onde eu quero.
Finalmente! Os remédios começaram a fazer efeito e estou ficando sonolento. Nunca mais vou ter que olhar pela janela enquanto os dias passam em cima desta cadeira de rodas.
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2 respostas
Minha mãe reconheceu imediatamente: fiz este conto antes de 1999 pensando no meu avô materno. Ele era médico, e teve derrame. Ficou mais de 10 anos na cadeira de rodas e com mal de Parkinson… a gente tinha que fazer mutirão para dar banho e outros cuidados para aquele homenzarrão de mais de 1,90. E Ã s vezes percebÃamos ele aflorar e falar coisas coerentes… até o dia que o perdemos em definitivo.
Forte. Bonito…
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