
Somos máquinas num perpétuo estado de sono. O dia me acorda, sigo sonâmbulo pelos golpes que vêem de todos os lados: como, ando, trabalho, sou entretido, sou aborrecido, me enfureço, durmo, como, ando, trabalho, sou entretido, sou aborrecido, me enfureço, durmo, como, ando, trabalho, sou entretido, sou aborrecido, me enfureço, durmo, ando, …
1 ” Uma Temporada no Inferno
Nascido da casta dos escravos, ratos que por essência baixam a cabeça enquanto outros ratos defecam em suas cabeças. Não um rato, mas em uma ratoeira com ratos gordos e cancerígenos. Uma casa com árvores, numa rua com árvores, que até descente poderia ser, caso não fossem os ratos, o insólito emaranhado de ratos. Ratos e sujeira, ratos e sujeira. Na ratoeira tudo engole, se não são os ratos dentro dela, no seu eterno ciclo de repetições: limpeza, limpeza, limpeza, de uma sujeira que está dentro e nunca poderá ser limpa por fora; comida, comida, comida, a nunca encher um vazio eterno que precisa de um real esforço para ser preenchido, TV, TV, TV, a se acreditar em comunhão com os outros ratos. Se não fossem os ratos, seria a sujeira, a sujeira que se faz de gente, mas só é sujeira. De um lado da ratoeira há uma velha, uma velha com um cão, quando não escuta um rádio religioso no máximo volume para apagar seus gemidos de masturbação com a cruz, faz o cão latir e latir enquanto o molesta. Quando ambos param, vem o gigolo para fora de sua gaiola, a escutar músicas sertanejas de corno também no máximo, a fim de esconder sua reprimida homossexualidade. O que não é rato, mas preso entre os ratos está teria o maior prazer de enfiar a cruz pela garganta da velha até que ela parasse de se mover, mas os ratos na sua única ação perante tudo que é externo, se contorcem e atacam perante isso, pois um rato é elogiado pela velha, logo como isso é raro, o rato baixa a cabeça em adoração, o outro se sensibiliza pelo gigolo, já que ambos dividem a mesma repressão. Do outro lado, a sujeira é muito mais fedorenta, e se materializa para ratoeira através de uma constante descarga de samba e funk. Lá há outra velha, uma velha bêbada, que em si não faz nada, só é uma velha bêbada que poderia ser ignorada e esquecida para todo sempre, mas ela aplaca sua solidão com o gigolo gordo, que encontrou num bar de esquina qualquer, e toda a sua família que veio descendo com ele do esgoto aberto de um morro próximo a espalhar seu fedor de putrefação para todos os lados. Desses, nem os ratos gostam, já que essa sujeira não se dá o trabalho de se fingir amistosos para eles, mas disso nada importa, pois nada fazem, já que essa é a natureza dos ratos: a covardia. Ratos que qualquer um pode defecar, urinar, tacar lixo, pois nada nunca farão, senão inventar desculpas porque nada podem fazer. Mentira, farão sim, caso lhes apontem a sua natureza de ratos, ai sim, atacarão quem os revela a verdade, pois a verdade os faria ter de se fingir humanos. Há aqueles que culpem todos os problemas do mundo na sujeira, mas a verdade que o verdadeiro mal está na covardia. São os ratos com a sua covardia que permitem a sujeira se espalhar e crescer. A covardia é o verdadeiro mal que assola a terra, a sujeira nada mais é que um emaranhado de memes podres bagunçadas em recipientes vazios. E nessa ratoeira se juntam dois ratos, a competir entre qual é o mais ignorante e covarde, e a comer carne humana. Na verdade, um dos ratos, especificadamente escolheu a companhia do outro por saber ser este mais ignorante e covarde, só assim poderia ter alguma coisa na vida que o fizesse se sentir de alguma forma superior. E é claro, ainda há o que não é rato, do qual eles se alimentam, mantido na lama, acorrentado, drogado demais com ilusões para se soltar e sair correndo.
2 ” Purgatório
Haverá um limiar entre o aceitavelmente címodo e o absolutamente inaceitável? Cama, comida e passa-tempos para fingir se esquecer da realidade em que se encontra, o fosso em que escorre a sujeira por todos os lados. Entre ratos, forçado por seus dentes de roedores a viver como eles, com a sujeira sendo jogada em sua cara dia após dia. Quanto de uma comodidade ilusória é necessário até ter se deformado o suficiente para também acabar como um rato? O que não é rato dorme, acorda, come, se entope de realidades fictícias exteriores afim de não pensar na sua não realidade presente, no fosso em que está afundado. Pois pensar leva a mudança, e para mudança é necessário uma batalha, e a batalha dói, dói, mas no final trás a salvação. Não é esse o nome daqueles que tem medo da batalha? Ratos, lixo covarde, entidades da imundice. A batalha é necessária para existir. Reagir, rosnar, agir. Pisar nos ratos e tacar fogo na sujeira. A sujeira é inaceitável, a sujeira deve se extinguir no fogo, a sujeira deve se extinguir em gritos. Mas aquele que ainda não é rato só se diz: depois, depois, depois, depois começarei a andar para batalha, por enquanto só vou comer mais um pouco ” adoro pizza -, por enquanto só vou ver mais um episódio de House ” o que acontecerá nessa semana?-. E tudo fica igual, e o eterno ciclo do sansara continua. E quanto mais gira, mais no fosso se afunda. Mais se adapta as mentiras da covardia, vê pêlos cinzas começarem a crescer, seus dentes frontais se tornam maiores. Mas não, não pode, a morte é melhor que se tornar um com a imundice. Se mata.
3 ” As Crianças do Paraíso
Nenhuma mudança vem sem uma ruptura, sem uma ruptura violenta. Não tem inteira certeza, mas essa já deve ser sua quarta morte. Morte, nascimento, desenvolvimento, corrupção, mais morte. Não pode negar que isso também não acabe num ciclo. Mas só assim se pode fugir, morrendo quantas vezes forem necessárias. Começando do zero, reparando a carcaça deformada por tudo aquilo que aceitou, que se cegou. Se reparando e se armando para batalha, para eterna batalha. Porque é isso que fazem aqueles que não são ratos, lutam! Lutam, se responsabilizam por cada passo de suas vidas, por cada detalhe do espaço que os rodea. A realidade é um líquido maleável e é necessário lhe drenar toda a imundice provinda de tudo aquilo que os ratos deixaram se expalhar. Tudo é ensaio e luta. Liberdade é luta. Ele pode se lembrar de uma casa. Uma cabana entre uma floresta e uma praia. À uma cabana simples – pois nunca se embrenhou pelos reinos da arquitetura, ainda não – mas é uma casa com muitas portas. À engraçado que ainda possa vê-la tão bem definida, começou a construí-la há muito tempo, e se esqueceu dela quando se perdeu em uma outra mentira, uma paixão por alguém que não valia nada. Ainda pode se lembrar do destino de algumas das portas, e de seu poder ” este ainda se encontra nele. À necessário voltar a casa. Caminha na praia, vai a casa, atravessa a porta de madeira escura, na sala atravessa a porta da direita, ao primeiro corredor, entra na primeira porta. Senta na cadeira que se encontra em seu centro, está lá! Além do universo, um começo.
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