
À maio. Estou eu na sala batucando estas linhas no netbook já quase aos 40 anos, que completo em setembro. À madrugada. Perto de duas da manhã do dia 20 de maio, de quinta pra sexta-feira. De repente, minha mulher abre a porta e exclama, irritada: “Que vício, hein! E eu, irritado: – Que vício o quê? Ela jurava que eu estava no facebook, mas na verdade só batucava estas linhas. Aliás, batuco ainda. Na televisão, estava começando o programa do Jí Soares. Ele entrevista o cartunista Laerte que conta sobre sua experiência como bissexual e o hábito de vestir-se de mulher. A segunda entrevista é com a atriz Denise Fraga e o marido, Luiz Villaça, que vão lá pra divulgar uma peça. Por fim, o terceiro entrevistado é um sujeito que está lançando um livro. Amanhã, sexta-feira, tem Eike Batista no Jí. Não perca!
Após divagar, volto ao propósito do texto. Estava na cama me revirando e sem sono, relembrando meus dez anos anteriores. Minha década mais recente começou em 2001, quando completei 30 anos. Morávamos na rua Aperana, no Leblon. Não havia filhos. Era um bom apartamento quarto e sala de uma amiga da minha mulher. Ponto excelente, final do Leblon, ao lado da praia, ao lado do burburinho do baixo. Tínhamos uma boa vida, chegamos a ter dois carros, um deles presente pela minha falecida tia rica, dona de uma fábrica de pães, e uma cachorrinha de uma famigerada ex-colega de faculdade (ex-sócia, ex-amiga) que adotávamos durante finais de semana eventuais. Se não tínhamos dívidas, tínhamos muitas dúvidas.
Entre elas, a gravidez. Eu mesmo não queria muito na época. O primeiro filho, como seria? Seria? A primeira gravidez foi anembrionada. Fiz até uma crínica na época, “Um Pulinho na Terra”. Foi duro! Não era pra ser. Não foi. Minha mulher ficou grávida pela segunda vez por volta de outubro de 2001. Eu acabava de completar 30 anos. Ela 33. Sempre tive uma ligação muito forte com número três. Minha filha mais velha nasceu em julho de 2002 quando nós dois ainda tínhamos, por pouco tempo, as mesmas idades do início da gravidez. Foi uma alegria! Minha mãe não foi nos visitar na maternidade. Estávamos sem nos falar. Castigo. Hoje, é a neta preferida dela.
Agora volto ao número três. Quando minha mulher e eu começamos a namorar, ela tinha 30 anos. Sempre gostei de mulheres de 30! Minha mãe quando se separou do meu pai tinha por volta de 30 anos. Não me lembro exatamente se tinha 29 ou 30, mas o 30 ficou no meu subconsciente. Quando nasci, meu pai tinha entre 29 e 30 anos. Também ficou no meu subconsciente. Foi aí, no se vira nos 30, que o nosso relógio biológico, meu e da minha mulher, começou a acertar os ponteiros. Ela queria ter filhos. No fundo eu também, mas não sabia.
O ano 2001 foi marcante. Dois + um, novesfora 00 e olha aí o três novamente. Uma odisséia no espaço. Além de ser o ano do início da gravidez da minha filha mais velha, no espaço aéreo de Nova Iorque acontecia o atentado í s torres gêmeas. Olha Nova Iorque aí também. Não tinha comentado antes aqui, mas meus pais namoraram, viveram e engrenaram o casamento deles em Nova Iorque. Assisti ao atentado, a partir do segundo avião que se chocou contras as torres, ao vivo pela TV. Parecia uma cena de filme mas era real. E no Brasil já era o real desde 1994. O cínsul de Israel, soube depois, morava em frente da minha casa. Logo em seguida ao atentado, uma patrulhinha da PM foi fazer plantão na frente da minha janela. Ficou lá por dias, talvez meses. Olha a globalização aí. Eram os efeitos do atentado afetando diretamente a minha janela. Dez anos depois e, quem diria, Inês é morta e Bin Laden também!
Se 2001 foi marcante, 2002 foi mais ainda. Como já disse, foi o ano que minha filha mais velha nasceu. Morávamos, de aluguel, numa casa de vila no Jardim Botânico e fomos, em seguida, para o Humaitá. No novo bairro tivemos que apagar um incêndio. O apartamento, alugado, pegou fogo um dia após a mais velha completar um ano. Até então eu trabalhava como freelancer e não era como bombeiro. O aniversário da minha filha mais velha é 12 de julho. Um mais dois e olha o três novamente. Eu comecei a trabalhar num organismo internacional da ONU pouco antes dela nascer. Fiquei todo bobo. ONU? Que chique! Nossa vida mudou radicalmente. Tenho certeza de que o empurrão pra melhorar de condição veio da necessidade de criar e educar uma criança, no caso a mais velha. Passei quatro anos naquela agência da ONU. Quando a minha mulher engravidou pela segunda vez, eu ainda estava na tal agência. Meu filho mais novo nasceu em fevereiro de 2006 e quando ele tinha três meses, olha o três de novo, eu fui trabalhar numa empresa de telecom. Novo empurrão, no caso do mais novo! Passávamos, por necessidade, um período na casa da minha sogra, onde o guri nasceu, e depois fomos morar na Gávea ” de novo aluguel – no mesmo período em que mudei os rumos profissionais.
Quatro anos mais tarde, a história se repetiu. Mudei de emprego, tivemos o terceiro filho, mudamos de apartamento. Agora estou numa empresa que atua em várias frentes, entre elas petróleo e mineração. O nome da empresa tem três letras, a mesma quantidade de letras de “Rio””, cidade onde ela investe bastante. Olho no lance: em 2014 temos a Copa do Mundo, em 2016 as Olimpíadas e o Rio vai bombar! Se bobear vem o quarto filho e uma nova mudança de emprego. Quem sabe nessa eu compro o sonhado apartamento! Mas agora são quase três da manhã e vou acordar í s 6h pra levar a mais velha ao médico. Vou dormir só três horas. Hoje já é 20 de maio, amanhã é 21, e temos todo o futuro pela frente!
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