
” Vocês aceitam alguma coisa pra beber? ” perguntou a moça de cabelos coloridos. Ela tinha metade da franja vermelho sangue e a outra metade preta, alguns piercings tilintaram em suas orelhas quando ela se abaixou pra falar conosco.
” Não obrigada. ” ela estava morrendo de vontade de fazer xixi, eu lembro que ela comentou quando nós começamos a descer a rua pro cabeleleiro. Eu ri em silêncio, ela também.
” Eu aceito, o que você tem aí?
” Temos cerveja, Pepsi, Guaraná, água…
” Hum, vou querer uma Pepsi, obrigada,
Ela foi até a pequena geladeira vermelha seiscentista que ficava encostada na parede oposta e voltou com uma garrafinha de Pepsi e um copo que parecia de geléia da Turma da Mínica. O mezanino era apertado, ainda mais com aqueles dois sofás estofados com um vinil vermelho brilhante, mas o clima antigo do lugar era um barato.
A conversa entre eu e ela rolou basicamente assim:
” Uau, você viu o sapato daquele cabeleleiro?
” Meu deus! Muito lindo! E o cabelo da hostess?
” Incrível!
Depois de uns 40min nós vimos ele terminar o penteado e subir todo feliz.
” E aí, garotas? Vamos? Cadê meu celular?
” Aqui. ” ela entregou o celular super moderno dele. Quando nós chegamos ficamos tirando várias fotos, mas tirar fotos cansou, então começamos a jogar Angry Birds RIO. Céus, eu tenho que parar com esse vício. – Uh, ficou gatinho, hein?
” Nossa, o corte ficou ótimo! Nem dá pra ver sua falha, está menos careca que da última vez, haha!
” Ah, vai se ferrar… Seja boazinha senão não te dou um cupcake.
Nossos olhos brilharam.
” Cupcake?! Uhul!
Lá fomos os três subir a rua de volta pro shopping. No caminho ele nos contou sobre um cara que resolveu persegui-lo na faculdade. O cara está apaixonado pelo meu amigo, a questão é que ele não é gay.
Bom, mas isso não vem ao caso. Ele disse que o cara era até legal, meio nerd indie alternativo, com um cabelo estiloso, mas que estava obcecado por ele. Meu amigo até pensou em apresentar uma de nós pra ver se ele não mudava de time e o deixava em paz. Nós rimos, eu ri porque ele sabe que eu tenho um namorado que eu amo muito e ela riu porque ele sabe que o cara não fazia o tipo fortinho dela. Quando chegamos no shopping fomos direto pro quiosque dos cupcakes, cada um pegou um diferente e nós subimos pro piso dos cinemas pra sentar numa das mesinhas circulares. O papo agora era o aniversário dela que estava chegando. Enquanto tirávamos fotos com nossos cupcakes, eu e ele tivemos uma ideia ao mesmo tempo.
- Vamos fazer bolinhos pra ela ao invés de um bolo grande!
- Hey! Não estraguem a surpresa!
- E a gente pode ir na casa dela pra cozinhar.
- Isso! Levamos os ingredientes e as forminhas, aí a gente expulsa ela da cozinha…
- Gente! Eu estou aqui!
- E podemos ver filme comendo pipoca! Lembra quando a gente fazia isso?
- Nossa, lembro! Faz tempo que não vamos na sua casa comer pipoca, ver filme e passar a noite conversando, né?
- Ah, agora resolveu me perguntar, é?
Aquele papo de pipoca e o cheiro vindo da bomboniere foi tentador. Depois dos cupcakes compramos um pacote extra enorme família de pipoca com manteiga e um litro de Sprite. Aquilo foi muita gordice nossa, deixamos um quarto da pipoca intacto. Na hora de ir embora fomos para o mesmo ponto, mas o ínibus deles veio muito antes do meu. A despedida nem foi muito melosa, afinal sempre nos falamos, por mensagem, telefone, MSN, e-mail, twitter. Eu fiquei lá uma meia hora esperando meu ínibus e lembrando de quando a gente estudava junto, faziamos esse tipo de programa toda tarde depois da aula. Eram bons tempos, não tinha essa preocupação com o futuro, com diploma, com horas de estágio. A gente só pensava no CD novo de alguma banda que nem escutamos mais hoje em dia, no dever de casa que ia valer ponto positivo na média, no capítulo final de temporada do Lost, presente, sonhos e esperanças. Meu ínibus chegou e me levou de volta pro mundo de trabalhos, provas, relatórios e futuro.
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