
Hoje, quando abri os olhos, lembrei-me imediatamente do personagem central de um livro do Lourenço Mutarelli que agora me foge da memória. Lembro bem do personagem mas o nome do livro nada.
No livro, Paulo é um analista de sistemas que desaparece junto de sua mulher e sua filha. Após um ano ele retorna sem lembrar o que aconteceu e muito menos sem saber o paradeiro das duas. Pra piorar a situação, o personagem diz a terapeuta não sentir a falta delas. A única coisa que sente é um cansaço extremo.
Dito isso, entendi perfeitamente a razão do meu mau humor. Era segunda-feira e eu acordava sentindo-me desorientado assim como o personagem do livro. Aqui estou í s ordens de mais uma semana capitalista. Ah, diacho!! Até ontem estava tudo bem. Prainha com a patroa, cinema com as crianças, ilusões, sonhos, fantasias… até sexuais, transa no final do dia. Alegria, alegria, bradou Caetano, diretamente de algum exílio nos anos 60.
Naquele entardecer de último dia do final de semana não havia contas a pagar. Afinal, era domingo, pé de cachimbo. Malandro é o gato e tudo são flores! Eu sou apenas mais um rapaz latino americano, sem dinheiro no banco,  sem sobrenomes e salamaleques. Na sala do pequeno apartamento alugado de dois quartos, um porta-retrato com a foto imortalizada no dia das bodas, onze anos passados, me faz lembrar quem sou. Sujeito homem, casado, barbado, pai de família, í s vezes vacila e na maioria acerta (pelo menos tenta) na mega sena, na mega sina. Super mega enrolado, mas boa gente.
Tá, tá bom, mas….voltando à vaca fria, quem sou eu? A correspondência do banco que chega por debaixo da porta e não perdoa, além do porta-retrato, é outro indício que me faz lembrar. Sou aquele CPF, aquele FDP. À, filho da puta mesmo. Aquele nome no SERASA. Mais um na estatística. Mais um a responder o senso do IBGE. IBG, o quê??? BNDES, cadê meu financiamento???
Sou mais um a jurar que faz juras de amor eterno ao modelo vigente mas sem juros, interesses e segundas intenções. À segunda-feira, me lembro de novo, ainda deitado na cama sem forças pra levantar. À dia de botar o terno. Mesmo sendo eu sujeito carinhoso e terno, tí na selva, tí na briga. Tí na chuva pra me molhar, pra me melhor. Pausa para reflexão:
desculpe o trocadilho infame, foi inevitável. Mas estou mesmo é me sentindo um tremendo frango de padaria, desossado e duro. Apesar de você, como diria o Chico, amanhã a de ser outro dia. Hoje é segunda, amanhã é terça e a esperança é última que morre. O Paulo e o Lorenço Mutarelli que me perdoem, mas a felicidade vai bater na minha porta. Ah vai!!!
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