
-      Não sinto nada”¦ quero livrar do meu corpo, arrancar o prego”¦ ai, como a mente é capaz de criar cada coisa”¦ Maldita golpeada! Aaaaaiiiiii
A tentativa de pendurar aquele quadro na parede, definitivamente, não foi uma boa ideia. À claro que estava pensando na separação, justamente no momento de levantar o martelo com energia contra a gravidade.
Ela sabia que era preciso aprender a deixar tudo para trás antes de abrir a gaveta. Ah, como queria aprender a deixar e esquecer a dor. Mas não se permitia. A sensação da martelada permanecia.
Mulher tem dessas coisas. Parece querer não esquecer. A dor fazia vir `a tona as lembranças do momento da foto: o calor do abraço, o gosto do beijo, e o pai dizendo: “olhem o passarinho” e”¦ click! Tinha saudade do prazer daquele encontro. Queria materializa-lo no espaço de vinte por vinte e quatro daquele quadro.
Haviam se passado três anos e ainda era difícil deixar para trás a separação. Diariamente, a dor voltava, insistia. Como se a presença da dor tornasse a história passada, em história presente.
Ela desejava. Queria de novo aquele Amor.
Abriu o armário e lá estava o martelo. Objeto de uso principalmente masculino. Era dele, primitivo. Todo seu cabo, esguio, estava empoeirado. Há anos estava guardado na gaveta junto das fotos antigas. O prego estava ao lado, pontiagudo, enferrujado.
Impulsivamente foi para a sala. Escolheu a parede, procurou simetria e alinhamento com a estante. Marcou com o lápis um ponto preciso. Agarrou o martelo com força e posicionou o prego, enquanto pensava”¦ Mirou e transferiu para o martelo toda sua raiva e angústia.
Errou o alvo.
Aquele abraço e aquele beijo que eram guardados na gaveta, agora estavam emoldurados com respingos de sangue, na mesa de centro. Ela, por sua vez, ficou presa na parede da sala. O prego precisamente fincado entre os tendões do polegar e do dedo indicador da mão esquerda. Era canhota e não sentia nada”¦
A foto nunca foi pendurada.
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