
Era uma fila realmente longa, realmente longa! Ela não tinha contado cinco pessoas? Talvez sua vista estivesse cansada, já faziam horas desde que ela chegara ali. Estava há muito tempo em pé, há muito tempo. Provavelmente a melhor coisa a fazer era ir embora, estava cansada e o cheiro doce no ar a estava enjoando. Os cheiros vinham do balcão, das mesas a sua volta, da cozinha. O cheiro doce vinha das pessoas, se desprendia das cortinas que enfeitavam as janelas da vitrine. Era o cheiro do mel por sobre os waffles, o cheiro do xarope de morango nas taças de milkshake, o cheiro do caramelo dos pudins, o doce cheiro do chocolate dos bombons recheados com licor em cima do balcão. Ela notava tudo isso e se sentia enjoada, colocou as mãos sobre a barriga e sentiu suas costelas. Lembrou porque tinha entrado na confeitaria atrás do ponto de ínibus. Todo dia esperava o ínibus pra casa depois do trabalho e sentia o cheiro da fornada das seis. Não era exatamente fome, ela nunca sentia fome, mas o cheiro era convidativo. Ela gostava apenas de olhar os pães na vitrine, podia contemplá-los por horas, perdia a noção do tempo enquanto esperava seu ínibus no ponto. Desde a semana retrasada, de segunda, quarta e sexta, ela passou a frequentar um analista. Tudo porque seu pai lhe disse, “Sua mãe ficaria feliz de te ver sarada dessa paranóia” e ela não teve como dizer não. O pretexto inicial das consultas era ajudá-la com a perda da mãe, mas seu psicanalista não podia deixar de diagnosticar sua desordem alimentar. Fez uma simples recomendação, “Coma”. E era isso que ela estava fazendo ali, esperando no que ela acreditava ser uma fila em uma confeitaria, prestes a comer um pão doce e se livrar de uma vez por todas de sua doença. Mas a fila e era tão longa. “Oi! Posso ajudar?”, uma atendente a assustou, cutucando-lhe no ombro. Porém a mulher levou um susto ainda maior ao sentir os ossos salientes da garota. Disfarçando disse, “Er, você gostaria de fazer seu pedido? Eu levo na mesa pra você”. “Ah, sim sim. À… Eu vou querer um… Ahm…”, será que ela deveria pedir logo o maior doce, ou o mais doce, ou o doce mais indigesto? O mais indigesto. Não! Ela tinha que manter a comida na barriga, essa era a finalidade. Ok, não o mais indigesto, então o maior. “Me traz o maior doce que vocês tiverem.” Agora os anos de teatro na escola lhe deram uma ajudinha, “eu estou morrendo de fome”. A atendente deu um sorrisinho, anotou algo em uma comanda, deixou uma parte do papel em uma mesa de frente para o balcão e virou para fazer o pedido na cozinha. Ela sabia que a garota não ia segurar nada no estímago, mas contanto que ela pagasse, podia vomitar a cozinha inteira no banheiro se quisesse. A garota sentou na mesinha, a cadeira de madeira maciça não recebeu bem os ossos das suas nádegas magras. Porém a dor não era nada, logo ela teria outras coisas lhe incomodando com as quais se preocupar. Colocou sua bolsa na cadeira vazia ao lado e cruzou suas mãos sobre a mesa. Ficou a imaginar que tipo de doce a atendente ia lhe trazer. Pensou em muffins decorados com glacê e confeitos coloridos, depois imaginou um petit gateau com o interior derretido escorrendo pelo lado do pratinho, essa imagem foi seguida por diferentes tipos e taças de cristal e bolas de todos os sabores de sorvete, cobertura de chocolate, confetes, calda de doce de leite, cerejas em calda, pêssegos em calda, calda, muita calda… Não estava funcionando, talvez fechando os olhos a vontade viesse. Descruzou os braços, apoiou os cotovelos na mesa e a cabeça nas mãos. Deixou que todos aqueles cheiros penetrassem sua mente. Pensou em pães com cobertura de açúcar, recém saídos do forno, brioches fofinhos e um pote de geléia de amora, roscas de cíco cobertas de leite condensado, cookies macios, as gotas de chocolate ainda derretidas… A atendente voltou com um prato enorme, ocupando-o quase todo, um croissant de chocolate generosamente recheado. Colocou-o ruidosamente na frente da garota esquelética. Ela não abriu os olhos. A mulher pís a mão sobre seu ombro e deu um grito quando o corpo frágil da garota tremeu e seu crânio se desfez em ossos por sobre o prato.
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