
O Sr. Alberto Goldin abriu um processo para que fossem investigadas as condições do crime. Naquela tarde de domingo, dia 24 de março, o Sr. Alberto Goldin foi à cozinha por um instante pegar um copo de cerveja. Quando voltou, seu pedaço de queijo estava absolutamente revirado, amassado e quebrado. Alguém tinha mexido no seu queijo. Havia quatro pessoas, além do próprio Sr. Alberto Goldin, na mesa do almoço: Pai Rico, Pai Pobre, o Monge e o Executivo. Todos os quatro eram suspeitos, mas nenhum deles admitiu a culpa e, por isso, o Sr. Goldin decidiu procurar os tribunais. O Sr. Goldin fez as seguintes descrições dos suspeitos, e aproveitou para tentar esclarecer os motivos pelos quais cada um poderia ter cometido o crime.
“Pai Rico estava sentado à mesa, perto do queijo. Quando ele toma para si o queijo e o inutiliza, imediatamente evoca para si a sua própria figura paterna, que provavelmente teria lhe imputado a mesma lição quando menino para que aprendesse a valorizar o queijo, aqui entendido como representação do dinheiro e do poder.”
“Pai Pobre estava sentado à mesa, distante do queijo. Pai Pobre, ao mexer no queijo, coloca na mesa, diante dos outros participante, todos os seus anseios e frustrações, que derivam do fato de não poder dar um queijo ao seu filho. Pai Pobre enfrente um grande dilema. Ou bem aceita sua realidade de “ser sem-queijo”, ou então realiza ações, ainda que ilícitas, no intuito de garantir um pedaço de queijo para si e para o seu filho. Pai Pobre efetua manobras no sentido de negar ao seu filho a sua condição, e se projeta, para seu filho e para o mundo, como aquele que detém o queijo.”
“O Monge mal olhava para o queijo durante o almoço. Pelo seu relato, podemos perceber que o Monge apresenta uma forte repressão sexual, derivada do deu próprio trabalho como monge. Ao se jogar sobre o queijo, não há dúvidas de que o Monge manifesta, ainda que de forma inconsciente, as suas próprias frustrações sexuais sobre o pedaço de queijo. Ao optar por levar uma vida, digamos, pura, casta, isenta dos pecados terrenos, o Monge caminha pelo território tortuoso do desejo reprimido. Neste território, não cabem mágoas, raivas, excitações. Existe apenas a placidez. Portanto, pode-se dizer que o Monge, ao encarnar em si mesmo o arquétipo do ladrão, boicota simbolicamente sua repressão e comete conscientemente um pecado. Este pecado apresenta-se num impulso, e vem seguido da mentira, novamente outro pecado. Sugiro que o Monge reveja suas posições a respeito de seus dogmas eclesiásticos, pois a doação de uma vida à adoração divina, manifestada de forma radical, carrega consigo o outro lado da moeda, do pecado e dos atos ruins, que costumam aparecer nessas pessoas como reações descontroladas e manifestações inconscientes do pecado, aos quais se seguem sempre culpa e penitência, perpetuando o círculo vicioso de não dar vazão ao fluxo do desejo.”
“Por fim, o Executivo vez por outra olhava para o queijo, mas em nenhum momento se serviu do próprio. Quando o Executivo se viu distante da capacidade de julgamento, fortemente cedeu í s suas próprias tentações e se lançou sobre o queijo. O Executivo demonstra um comportamento de fortes tendências homossexuais reprimidas. O ato de lançar-se sobre o queijo representa, simbolicamente, o ato de lançar-se numa aventura sexual breve com outro homem. Dessa forma, o Executivo dá vazão aos seus desejos carnais de forma clandestina e, posteriormente, nega, acusa a mentira de jamais ter sequer chegado perto daquele queijo. Nota-se que o Executivo, que descreve a si mesmo como “workaholic”, também procura na dedicação ao próprio trabalho uma forma de dar vazão ao seu furor homossexual. Dessa forma, acredita que, dedicando-se ao seu trabalho, seus instintos não terão tempo de se manifestar, pois estará sempre muito ocupado e muito cansado. No entanto, os desejos humanos não se calam e não diminuem; pelo contrário, aumentam de tamanho quando são relegados a segundo plano. E, então, acontecem atos como o desse almoço, no qual, fora do ambiente de trabalho, os desejos se manifestam de forma violenta e clandestina. O Executivo precisa aprender que a vida está muito além das tábuas financeiras da empresa e que, í s vezes, é melhor expor a verdade nua e crua, ainda que doa, do que forjar os dados que serão mostrados í s outras pessoas.”
O Sr. Alberto Goldin tentou incriminar os quatro suspeitos, sem sucesso.
Pai Rico disse que poderia comprar uma fábrica de queijo, se quisesse.
Pai Pobre disse que nunca tinha comido queijo.
O Monge alegou que jamais cometeria esse pecado.
O Executivo disse que queijo era coisa de viado.
E no entanto, apesar de os quatro terem dito a verdade quanto a não terem mexido no queijo, os quatro mentiram. Nenhum deles contou ao Sr. Alberto Goldin, que tão logo ele adentrou a cozinha para pegar a cerveja, chegou toda esbaforida a Srª Martha Medeiros. A Srª Martha Medeiros tinha acabado de chegar de um outro almoço, onde tinha sido servido um guisado de abobrinhas. Chegou rapidamente, mexeu no queijo e foi ao banheiro.
Um pouco antes de ir embora abruptamente, ela disse aos que estavam na mesa: “Mexi no queijo porque a vida é uma só e a gente tem que fazer o que a gente tem vontade.”
Disse também que tão logo chegou ao banheiro, vomitou um monte de abobrinhas. Mas pediu para que eles não se preocupassem: ela fazia isso todos os domingos.
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1 resposta
GE-NI-AL!!!
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