
Meu nome é Rogério Carvalhão. Sou detetive particular. Meu aperto começou na hora em que ela entrou no escritório. Era 12: 24 e eu ainda não havia terminado de traçar meu sanduíche de linguiça com ovos. Assim. tivemos um desacordo logo no começo. Enquanto eu via uma mulher de pernas musculosas e bem torneadas, quadris que balançavam ao sabor da feminilidade e uma cintura e seios cujas formas naturais eram enaltecidas pelo caimento do vestido, ela encarou um sujeito com uma barba por fazer e suja de clara de ovo ainda por cima. Logo que engoli a linguiça, pedi para que ela se sentasse. Ela se abaixa lentamente, tornando aquele movimento uma sinfonia a sua bunda. Ela malhava e sabia como fazer seu corpo falar “Me deseje.” Cruza as pernas com a fluidez típica das melhores representantes do outro sexo. Tira da bolsa um cigarro longo e fino. Marca espanhola. Peço um e ela o acende para mim.
- Obrigada. Digo, obrigado!
- De nada. Vou direto ao assunto: preciso que siga meu marido.
- Acha que ele anda dando por aí… (traga o cigarro) … umas puladinhas de cerca?
- Eu não sei o que pensar. Ele chega tarde da noite, fedendo a perfume barato e cecê… À como se ele tivesse encontrado uma prostituta e depois ter ido jogar bola…
O nome do alvo era Clóvis Flores. Empresário bem-sucedido, casa grande, mulher em forma. Esses caras nunca estão satisfeitos com o que tem. Querem tudo, apenas para mostrar para si mesmos que podem. Outros, no entanto, se sentem culpados, em eterna crise em viver uma existência que lhes parece imposta e procuram reafirmar este sentimento autodestrutivo se envolvendo em todo tipo de buraco ou vício. Típico.
Comecei a seguir o garotão. Executivo de multinacional; do tipo que aparece em todas as colunas, embora o resto do mundo não tenha a menor ideia de quem seja ou porque é tão fodão assim. Logo no primeiro dia, tive sorte. O maridão, afinal, não saia com prostitutas. Também não jogava bola depois do expediente. Jogava bolas, entendeu? O sujeito catava travecos, travão mesmo, Mulher-Hulk, lá na Glória. Tirei as fotos a uma distância segura e saí de fininho.
No dia seguinte, mostrei à cliente a pouca vergonha. Ela usava um perfume agressivo demais, adequado para alguém que pretende ir para uma festa com muita gente e por bastante tempo. Porque o odor dura, entende? Quem trabalha no palco, debaixo de luzes quentes entende do babado… Voltando ao assunto, acredita que a mulher não engoliu? Disse que não era possível, que devia ser um engano. Pediu provas mais concretas da traição. Eu ia dar por encerrado o caso, mas aí ela prometeu um bínus generoso se conseguisse, então… Tenho um crediário para financiar, né?
Para alcançar o tipo de abordagem necessária, era inevitável trabalho de campo. Eu deveria abordar o objeto diretamente, gravar sua voz, imagem, tudo que pudesse ser verificado por especialistas durante o vindouro litígio. Foi aí que embonequei. Arrumei uma peruca, uns vestidos do tipo liquidação em loja popular, tamanho P menos, e maquiagem. A maquiagem foi mais difícil, devido a meu tom de pele, mas isso não importa agora.
Clóvis logo me notou. Esses ricaços de carrão a 10 km/h na avenida nunca resistem à carne fresca. Entrei no carro, combinamos o programa (R$ 300 adiantado. Mais uma grana pro crediário, pensei.), e fomos. Ele me levou a um motel na Barra. Chegamos ao quarto e bebemos uísque. Ele tira um DVD da pasta de trabalho e o insere no aparelho. Antes que o filme de putaria começasse e as calças dele caíssem, eu sairia de lá com as evidências e outro um serviço bem feito.
O filme começou. O nome “Al Pacino” apareceu na tela. Surpreso, achei que um filme porní com Al Pacino era estranho o bastante para merecer uma conferida. No entanto, não era um filme porní, mas uma trama policial passada no meio gay sadomasoquista chamado “Parceiros da Noite”. E foi tudo o que fizemos. Depois que o filme acabou, ele perguntou o que achei, me deu um dinheiro para o táxi e foi embora. Fiquei tão intrigado que voltei ao ponto nas noites seguintes. Ele gostou de mim, de modo que esta situação permaneceu. Ele não fazia nada, só pagava travecos para assistir a filmes, todos de temática gay: “Gaiola da loucas”, “Priscila”, “Segredo de Brokeback Mountain”, “300″, “Senhor dos anéis: as duas torres”… Estava me especializando no gênero.
Quando finalmente arrecadei o bastante para financiar todo o crediário, dei o flagrante. Clóvis me olhou intrigado. Admito que apontar uma carteira de investigador usando short jeans, meia calça, blusa vermelha e peruca longa platinada era uma circunstância única.
- Do que você está falando?
- Fui contratado pela sua mulher para gravar a safadeza. A sessão “Tela Caída” acabou.
Clóvis me chamou para ir ao banheiro com ele. Queria me mostrar algo. Fui, segurando a pistola escondida na calcinha. Quando ele abriu a porta, um clarão me cegou. Estou num camarote com espelhos e lâmpadas de néon. Perguntei o que era aquilo e Clóvis, indiferente, anunciou que eu precisava me preparar, pois entrava em cena em 10 minutos. Ele saiu e fechou a porta. Embora não compreendesse o que ocorria, me senti estranhamente familiarizado com o ambiente. Sentei numa cadeira e puxei a peruca para baixo. Meu rosto estava cansado. Detestava essas marcas em cada lado da parte superior da minha cabeça, como se pregos tivessem sido retirados ou inseridos em meu cérebro.
Meu nome é Rogéria Wood. Sou travesti na Espanha. Tenho pernas musculosas e adoro roupas que realcem minhas formas. Como hobby, leio romances policiais. Quando me levantei, pisei num jornal velho cuja manchete me chama a atenção: “Desaparecido responsável pela investigação de tráfico de travestis.” E abaixo do título: “Criminosos teriam feito lobotomia em vítimas para garantir submissão”. Algo soou na minha cabeça, como se fosse um sinal, mas, não entendi o que queria dizer. Fui pro palco e fiz a melhor interpretação de “Sweet Transvestite” da minha vida!
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1 resposta
Ribas e sua vasta cultura… transexual!
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