
(Advertência: Quaisquer semelhanças entre personagens e pessoais reais não passam de coincidências. Mas que elas acontecem, acontecem…)
Parte I – LADYTRON
Desde que adicionei Ladytron como amiga em minha rede social, coisas muito esquisitas começaram a ocorrer em minha vida.
Ladytron é uma mulher muito estranha. Quando sua solicitação de amizade bateu em minha caixa postal, veio acompanhada de uma simples mensagem: “Add me”. Achei, ao mesmo tempo, elegante e intimidadora. Levado por uma fraqueza de espírito e também por uma curiosidade talvez mórbida, não hesitei em adicioná-la.
Não tínhamos nenhum amigo em comum. Procurei por suas informações, mas ela não disponibilizou nenhuma. Tampouco havia fotos. Em seu perfil, ela aparecia aparentemente loura, de óculos escuros e uma jaqueta tipo gabardine. Tinha uma expressão de rosto indefinível, envolta por uma espécie de halo brilhante como se feito de purpurina. A imagem era tão etérea que eu não podia dizer com precisão se era uma fotografia ou um desenho. Julguei conhecê-la de algum lugar, não sabia dizer de onde. Ou talvez fosse só minha imaginação.
Ladytron não postava nada, nunca. Nenhum comentário, tampouco. No entanto, curtia. Curtia posts meus falando de variados assuntos. E curtia minhas fotos. Curtia os eventos que eu promovia. Curtia as notas que eu escrevia e curtia os links que eu inseria.
Aos poucos aquilo começou a me incomodar. Como ela nada escrevia nem inseria, não podia retribuir sua curtidora atenção. Por outro lado, comecei a me sentir vigiado. Havia alguém, naquela rede social, que me observava. Lia minhas atualizações, conhecia minhas opiniões e preferências. Â Sabia quem eram os meus amigos. Reconhecia minhas fotografias.
Comecei a me sentir devassado em minha privacidade, como se minha intimidade estivesse sendo invadida por olhos alheios. Já não podia mais entrar na rede que logo acreditava estar sendo silenciosamente seguido.
Sempre fui muito escrupuloso em minhas relações e Ladytron havia sido a única amizade que eu aceitara sem um conhecimento pessoal de fato. Para solucionar este constrangimento enviei-lhe uma mensagem particular convidando-a para um encontro. Â Ao que ela me respondeu com um singelo: “Ok”.
Marquei nosso encontro para um fim de tarde num distinto e antigo restaurante da Lapa chamado Adega Flor de Coimbra. Cheguei pontualmente, o restaurante estava vazio, então pedi um copo de água, pois estava nervoso, e me pus a esperá-la. Porém, passou-se mais de uma hora e o restaurante continuava vazio, ninguém havia chegado. Aborrecido, cheguei à conclusão que Ladytron não viria mais e pedi a conta. Qual não foi minha surpresa quando neste momento soou o SMS de meu celular com a seguinte mensagem: “I”ll find some way of connection. Still you won”t suspect me”. Fiquei bastante confuso com aquela situação. O SMS tinha origem desconhecida e  eu não havia passado o número de meu celular para Ladytron e não conseguia entender o sentido desta mensagem em inglês. Supus apenas que Ladytron estava querendo brincar comigo por alguma razão maliciosa e voltei para casa bastante decepcionado.
A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi entrar na rede social. Â Esperava encontrar alguma mensagem de Ladytron que explicasse o ocorrido, e para minha completa surpresa, Â pela primeira vez em nosso relacionamento, havia uma mensagem espontânea dela na minha caixa postal que dizia simplesmente: “Stalking is love”.
Fiquei intrigado, não consegui entender o sentido desta mensagem. De madrugada, como se tentasse resolver um quebra-cabeça, não conseguia dormir, procurando decifrar a solução desse difícil mistério. Foi quando tive a intuição de procurar na internet alguma pista.
Entrei num buscador e digitei a frase: stalking is love. Â Veio então, logo no início dos resultados, um link para um vídeo anínimo que imediatamente acessei. Enquanto o vídeo carregava, abri a tela cheia e me recostei na cadeira.
Na tela apareceu uma moça bastante semelhante í quela que aparecia no perfil de Ladytron. Ela também usava óculos escuros e portava uma gabardine. Estava no que parecia ser uma boate esfumaçada e cantava uma canção que eu desconhecia. Era uma bonita canção, cantada em inglês e procurei entender o que dizia:
Stalking is love
to stalk is the only move
I see what you want to be seen
but I guess the deepest fantasy
you hide behind the screen
oh my little ecstasy
your face is such a real fake
to watch you is for your only sake.
Fiquei absolutamente magnetizado e inebriado pela beleza da canção. Repeti o vídeo várias vezes fascinado pela figura misteriosa de Ladytron a interpretando. A um determinado momento observei que havia um letreiro luminoso que provavelmente indicava o lugar onde Ladytron interpretava sua canção e que me passara despercebido, tão absorto estava em seu desempenho musical. Estava escrito, em letras de neon: Avalon.
Não conhecia este lugar e voltei ao buscador atrás de alguma dica. Descobri que Avalon era o nome de uma boate de karaokê localizada em Copacabana. Eram ainda 00:30, a boate ainda deveria estar aberta. Não perdi tempo, vesti um casaco, desci as escadas de meu edifício e chamei um Táxi. Para Copacabana, rápido, ordenei ao motorista.
Parte II – AVALON
Avalon era uma boate decadente em Copacabana. Conversando com o segurança ele me disse que lá havia sido um lugar de encontros de moderninhos que se vestiam de preto e exibiam um ar entediado na década de oitenta. Na década de 90 se transformara num desses inferninhos típicos do bairro com strippers girando em barras verticais, mas a concorrência a tornara afinal numa drinkeria com karaokê nos últimos anos. Naquela noite, a boate estava muito vazia, com alguns poucos grupos de amigos em roupas sociais sentados em mesas imitando seus ídolos de forma patética. Procurando um lugar, entre muitos vagos, avistei uma moça de cabelos curtos e louros, sozinha e sentei-me ao lado dela. Parecia uma frequentadora típica do espaço e talvez soubesse alguma coisa de Ladytron.
“Boa noite, como é seu nome”, perguntei. “Boa noite”, disse com bastante simpatia a moça, “meu nome é Tabata Isabbor”. “hummm, e o que você faz, Tabata?”. “Olha, eu sou modelo vivo e frequentadora do Clube da Leitura”. “Clube da Leitura? hummm, então você deve conhecer o Daniel Matos!”. Tabata fez então uma careta: “Daniel Matos? À um que escreve umas coisas maluquinhas?”. “Este mesmo”, respondi, “é meu amigo na rede social. Â Mas Tabata, na verdade, não estou aqui atrás do Daniel Matos, mas sim procurando uma moça que você talvez conheça. Ela é conhecida pelo nome de Ladytron. Já ouviu falar?”. Â Neste momento, os olhos de Tabata se iluminaram, ela se levantou do sofá e começou a pular, gritando: “Ladytron, Ladytron, é claro”! Em seguida correu em direção a um pequeno tablado, pegou um microfone e sem nenhuma música ambiente começou a cantar. E imediatamente reconheci o refrão: “Stalking is love, to stalk is the only move…”.
Enquanto Tabata interpretava a canção de forma apaixonada e impressionantemente semelhante à versão do vídeo de Ladytron, senti uma nova vibração em meu celular. Era um outro SMS de origem desconhecida e que dizia: “The background is fading out of focus. The picture is changing every moment. Your destination you don”t know it”. Fiquei bastante perturbado com mais esta mensagem misteriosa e cifrada e esperei ansiosamente que Tabata terminasse sua performance. Â Quando voltou a se sentar ao meu lado, ainda muito excitada, me dirigi a ela com voz grave: “Tabata, me ajude. Preciso encontrar urgentemente Ladytron. À uma questão de vida ou morte para mim. E sei, pela sua interpretação, que você a deve conhecer intimamente…”
Tabata olhou de forma imensamente compadecida para mim, como se encarasse um enfermo. E o que ela me disse em seguida, eu preferiria jamais ter ouvido.
Parte III ” LOVE IS THE DRUG
“O Daniel Matos, seu amigo de rede social, costumava ganhar todas as edições do Clube da Leitura, o que começou a provocar o surgimento de vários imitadores. Mas isto não era o pior. Em breve os vários imitadores começaram a duelar entre si, para ver quem escrevia no estilo Daniel Matos mais perfeito e ninguém mais assumia as autorias dos contos, mesmo que o verdadeiro Daniel Matos jurasse que aquele conto não era dele. Em todo caso, era sempre o Daniel Matos que ganhava. Em breve ficou cada vez mais claro que nem ele mesmo era capaz de escrever em seu estilo com tanta perfeição como seus imitadores, o que começou a gerar inicialmente um enorme ciúme nele e depois um sentimento de baixa estima que em seguida se tornou uma grande depressão. O Daniel Matos já não era mais capaz de escrever como Daniel Matos e seus seguidores haviam o superado em perfeição de estilo Danielmatosiano. Então, ele parou de frequentar o Clube. Preocupado com sua situação, o coordenador do Clube, o Guilherme Preger, para trazê-lo de volta, propís-lhe um projeto novo: ele faria o roteiro do primeiro filme do Clube. O Daniel Matos ficou super empolgado com a iniciativa e começou a escrever uma história sobre o mote proposto: Stalking. Â Guilherme deu uma ideia de colocar as musicas do Roxy Music como trilha sonora e o filme acabou ganhando o título de “Amor é a Droga”. Como o filme tinha muitas cenas de nudez, Â eles me chamaram para interpretar a protagonista do filme, Ladytron, que é uma mulher fatal que vive nas redes sociais stalkeando possíveis vítimas de seu vampirismo social. Com o roteiro pronto, eles chamaram o Daniel Ribas para ser o diretor e o Julio Rodrigues para ser o responsável pelo vídeo e pela edição. A cena que você viu que se passa aqui na Avalon sou eu cantando a canção do Roxy Music, Love is the drug, que o Guilherme adaptou para Stalking is love. Lamento dizer, meu caro amigo, mas Ladytron não passa de uma personagem. Ela nunca existiu”.
Parte IV ” REMAKE/REMODEL
Nosso protagonista ouviu a história contada por Tabata Isabbor em silêncio, sem sinal de protesto, sem interferir em sua narrativa. Seus olhos, a princípio, concentrados na bela moça, foram aos poucos se desviando e se concentrando num ponto distante, num ponto perdido. Ao fim do relato, ele não fez qualquer movimento, não esboçou um sorriso, não derramou uma lágrima. Tabata ficou preocupada com o visível alheamento de seu interlocutor e tentou chamar sua atenção, mas sem sucesso. Neste movimento, seu celular caiu e Tabata pode ler a mensagem de SMS que havia lhe chegado e a achou estranha: “I tried but I could not find a way. Looking back all I did was look away. Next time is the best we all know. But if there is no next time where to go‘. Chamou então a gerente da casa, sua amiga e ambas telefonaram para um táxi levá-lo a um hospital, já que o homem havia caído numa catatonia profunda e não respondia aos seus chamados. Pouco antes de entrar no táxi com um dos seguranças da casa, Tabata colocou em suas mãos um cartão e lhe sussurrou ao ouvido: “Confie nela. Ela vai te ajudar”. Já no carro, nosso protagonista fez seu último gesto de lucidez: olhar para o cartão e ler o que estava escrito: Vivian HP. Psicologia Clínica.
(Fim da Parte IV. Segue Final).
Parte Final ” THE BOGUS MAN
(Vivian e Johandson estão na sala de seu apartamento na rua Benjamin Constant. Johandson está desenhando).
Vivian: Píxa, Johandson, sabe que apareceu um maluco lá no consultório?
Johandson: Pí Vivian, para variar…
Vivian: Pois este era maluco mesmo. Ele chegou a mim indicado pela Tabata do Clube da Leitura e parece que é amigo do Daniel Matos.
Johandson: Então só podia ser maluco mesmo…
Vivian: Ele teve um surto esquizo-paranóide. Imagina que ele criou um perfil na rede social chamado de Ladytron…
Johandson: Ladytron? Mas Ladytron não é aquela música do Roxy Music?
Vivian: Pois é, mas Ladytron também é a protagonista daquele filme lá do Clube que passou no cine Jóia.
Johandson: Ah, sei! Â Aquele que o Daniel Matos escreveu, o Ribas dirigiu, o Júlio editou e a Tabata interpretou? Ele só podia ter ficado maluco mesmo. Eu quase fiquei depois de ver o filme uma centena de vezes…
Vivian: Ah, mas você só viu porque era seu trabalho e para ver a Tabata pelada…
Johandson: Mas eu gostei do filme, Vivian. Era sobre stalking…
Vivian: Sim. Era sobre uma ideia do Guilherme de que stalking é a quintessência do amor contemporâneo…
Johandson: Esta é a cara do Preger, sempre usando palavras difíceis… Â Mas por que, Vivian, ele fez um perfil na rede social com o nome de Ladytron?
Vivian: Você acredita que ele criou o perfil apenas para stalkear ele mesmo e para curtir todos seus próprios posts? Ele fez isso, porque ninguém curtia nada do que ele escrevia. Então ele criou um avatar e passou a curtir suas mensagens.
Johandson: Nossa, que doideira!
Vivian: A personalidade dele se dividiu. Ele chegou mesmo a abrir uma nova conta de celular e ficava enviando mensagens de SMS para si mesmo, quer dizer, para sua outra pessoa…
Johandson: Poxa, Vivian, como tem gente carente neste mundo…
Vivian: Pois é, Johandson, pois é…
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24 respostas
Primoroso, Guilherme! Além de saborear mistério, fantasia e humor, vou melhorar o inglês…
hahahahahahahahahahahah!!!!! muito bom, muito bom! o incrÃvel é que tô começando a achar que tem alguém me vigiando também, que esse alguém é de fato do Guilherme Preger (e como ele faz isso não sei, mas depois de ler esse conto começo a achar possÃvel o impossÃvel) e que sabe exatamente que o Johandson fica desenhando na sala e fala exatamente como ele colocou aà no conto… esse foi ótimo!!!
Pior que dá até pra ouvir o Johandson falando dentro da nossa cabeça, não dá? xD
hahahahhaha! adorei! e ladytron tb é o nome de uma banda.
Guilherme,
um dos personagens do filme poderia estar ocasionalmente usando esta blusa http://2.bp.blogspot.com/-AQSyOVBgxpg/TVPsnobMGyI/AAAAAAAAAgk/ScQ2l53hVm4/s1600/stalking_shirt.jpg
Ã?timo texto!! Prende do inÃcio ao fim… parece o enredo de um filme noir rsrsr Imaginei muita coisa em preto e branco
sensacional, Glória, juro q não conhecia. Vou querer uma!
Preger, finalmnte tive tempo pra ler e achei sensacional! Até gargalhei!
Muito maneiro !! divertidasso
prende o leitor até o fim
Vivian H(orse)P(ower,)a “mulher maravilha” aqui da Glória, Johandson um dos caras mais felizes que conheço…
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