
Um dia ideal na vida de José Maria Azedinho
José Maria Azedinho tinha 80 anos e há não muito tempo havia perdido seu pai, que chegou quase aos 100 anos e morreu de causas naturais. Azedinho era um doce de pessoa, gostava de construir prédios e acompanhava suas obras andando pra lá e pra cá, dirigindo o seu próprio carro. Tinha uma bela família, esposa, três filhas,  três genros e três netos. Foi pai mais tarde do que o habitual e por consequência aví tardio.
Era sujeito realizado, católico praticante, bom conselheiro e gostava de discutir política. Chegou a candidatar-se numa ocasião ao cargo de vereador na cidade onde vivia,  no interior de Minas. Pobre homem, era muito honesto, também muito crédulo e um sonhador: não foi eleito.
E foi numa noite dessas que o sonhador teve um sonho, após largar na cabeceira seu livro preferido ” Nove Estórias”, do escritor americano J. D. Salinger, para entregar-se ao sono. Zé Maria interrompeu sua leitura exatamente quando acabara de ler o conto “Um dia ideal para os peixe- bananas”. Como bem sabem os apreciadores de Salinger , o conto acaba em morte.
No dia seguinte, Zé Maria acordou intrigado e associou o final do conto com um dos sonhos que tivera durante a noite. Ele via seu velho pai, Luiz Gonzaga, que na Terra era professor de matemática e no Além continuava a exercer o tal ofício. O pai estava bem mas parecia quer dizer algo. Tão claro como dois e dois são quatro, Azedinho revestiu-se de uma certeza.
- Preciso mandar reformar o jazigo da família. Pintar, lustrar, limpar e fazer uma bela missa de reinauguração, com direito a padre, reza, terço e bênção. Assim, meu pai se sentirá melhor ” interpretou.
Foi então que Azedinho, super animadinho, começou a mexer seus pauzinhos como há muito não mexia. Mandou chamar seu Dias de Pinto, capataz de suas obras, que lhe fazia serviços particulares havia anos, entre os quais cuidava da limpeza e conservação do jazigo da família. Seu Pinto, de sobrenome consagrador, só não consagrava mais a esposa que tinha em casa, Raimunda. Todas as noites, esperançosa, Raimunda aprontava o jantar e preparava-se como sobremesa a seu ver apetitosa para os apetites satisfeitos do marido voraz que durante as noites pintava jazigos, cometia adultérios e despautérios!
Raimunda, depauperada, coitada, só murmurava:
- Vem Pinto, vem. Vem fazer coelhinho na vagava. E o Pinto, manso, nada.
-Â Mas que nada, sai da minha frente que eu quero passar. O cemitério tá animado, hoje eu quero é ir pra lá Â ” parodiou Benjor.
E assim, todas as noites, no período em que pintou o jazigo, seu Pinto saia de casa no horário nobre da novela, deixava sua esposa no jardim da saudade, e dirigia-se ao cemitério para terminar o “silviço”. Enquanto isso, seu Zé Maria, sem saber da missa a metade, era pura ansiedade.
Mas num belo raiar de dia, contados sete, de trabalhos intensos e folia, seu Dias adentra a casa de Zé Maria, trazendo a novidade:
- Alegria, alegria, seu Zé Maria. À hora da Ave Maria, o jazigo se anuncia. Chega de melancolia. Pode chamar a família e mandar convite à freguesia.
Zé Maria, que não cabia em si de felicidade, mandou chamar a secretaria à sua presença.
- Bença padrinho -Â disse Florisbela, que tinha coxasbelas e era afilhada sua. – Como posso lhe ajudar?
- Quero que você prepare um mailing e envie convites para o prefeito, bom sujeito, demais autoridades, amigos e família. Não se trata de pleito, mas será um evento!
- Padrinho, mai..o quê? Pleito?
Florisbela era bela, esforçada, e cheia de boas intenções, mas í s vezes dava mancadas.
Zé Maria, certo de que o entendimento ia piorar, afinal diria palavras mais difíceis, como “jazigo”, respirou fundo, contou até dez, e entoou um mantra mentalmente:
- Minha filha, preciso que você mande convites para a inauguração do jazigo da família.
Florisbela jogou o cabelo pra traz, acionou a tecla sap, engatou a primeira e foi-se. Dois dias depois, toda a cidade já sabia da novidade.
Era dia de festa, dois de novembro, feriado de Finados. A cidade reuniu-se em peso. Do prefeito à Raimunda, esposa de seu Dias, todas ali estavam extasiados.
- Onde já se viu? Inauguração de um jazigo só mesmo no Brasil! E já que estou aqui, vou fazer um discurso ” bradou o prefeito, bom sujeito.
Zé Maria, aflito, pra não botar água no chopp, deixou o prefeito fazer as honras, mas disse solene:
- Meu dileto prefeito, bom sujeito: pra não quebrar o decoro, tens direito ao discurso, mas avisa a teus eleitores que nem tudo na vida são flores, que neste jazigo mando eu e tenho dito.
Nesta hora, pra por fim à cerimínia e dar o veredicto, chega o padre, apressadinho e atrasadinho. Em nome da Santa Igreja Católica, o padre foi lá atender ao chamado e ganhar uns caraminguás.
- Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, declaro inaugurado o jazigo Azedinho, que serve de morada para os corpos que aqui descansam.
Finalizando, leu a frase na lápide:
-Â Nós que aqui estamos, por vós esperamos.
Ouvem-se fogos de artifícios e música eletrônica a todo volume.
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