
O que você acha que as pessoas pensam sobre você com relação ao incidente?
Acho que eu estava me referindo a essa coisa… Você sabe do que eu estou falando.
O que te leva a pensar que eu saiba?
…
Nós já falamos sobre isso, não é mesmo, doutor?
Falamos?
À sobre aquilo que… eu mesmo cheguei a pensar na possibilidade de estar, você sabe, de alguma forma envolvido nisso tudo.
Envolvido?
…
À.
E como você não estaria envolvido? Você é parte disso.
…
Você estava junto quando tudo aconteceu. Como não estar envolvido?
…
Não é nesse sentido que estou falando.
Em que sentido então?
Você sabe.
Juro que não sei.
…
Eu falo na hipótese de eu estar envolvido mesmo.
Não sei se estou entendendo.
Eu não sei como ser mais claro, doutor. Como posso dizer? De estar… envolvido.
…
Continue.
…
À isso. Pensei que talvez eu tivesse me livrado delas, você sabe.
Você quer dizer que chegou a pensar na possibilidade de ser o responsável por tudo, é isso?
Isso.
…
Fale mais sobre isso.
À isso.
…
Talvez porque todo mundo desconfia disso eu acabei cogitando essa hipótese.
E o que veio a sua mente quando refletiu sobre isso?
…
Como você teria se livrado delas?Como eu teria me livrado? O que você acha?! Como me livraria?
…
Desabafe.
O que você quer ouvir?
Eu queria que você pensasse um pouco mais sobre isso. E, por mais fantasiosas que pareçam as idéias, eu queria que você trouxesse isso à tona.
À isso. Eu cheguei a pensar na hipótese.
…
Que imagens vieram quando você pensou sobre isso?
Que eu matava as duas e depois me livrava dos corpos. À isso que você quer ouvir?
Você pensou nisso depois do incidente, ou chegou a fantasiar isso antes?
Não, doutor, eu só pensei nisso depois. E justamente porque as pessoas desconfiam que eu tenha feito isso. Eu nunca teria pensado nisso antes. As pessoas é que me levam a pensar nisso.
[...]
Acho que estamos chegando num lugar importante.
…
Continue, Paulo. Deixe seu pensamento fluir.
Eu não me importo com o que possa ter acontecido.
…
Entendo… continue…
…
Eu não sinto nada com relação a elas.
…
Entendo.
…
Não precisa agir como se eu não tivesse dito algo duro e ruim.
…
Talvez você esteja querendo dizer que é mais fácil para você pensar dessa forma. Não seria isso?
À mais fácil para o senhor pensar assim?
Essa sensação pode ser o bloqueio que você insiste em negar.
Assim fica mais fácil para o senhor entender?
Você não precisa se sentir culpado por esse sentimento. Talvez esse seja o seu escudo.
…
Você não está entendendo.
Você acha?
Eu não me sinto culpado, doutor.
…
Você não acha que talvez tenha criado esse distanciamento, essa indiferença, para poder suportar o fardo dessa situação?
E o que o senhor acha que seria esse fardo?
O vazio deixado por elas.
…
Você não acha isso possível?
À claro que, se eu sentisse a falta delas, seria impossível viver.
…
Como eu seguiria meus dias com esse vazio? Mas não! Não é isso. A verdade, caso realmente queira saber, a verdade é que o que eu senti realmente foi alívio.
Ok.
Eu estou me lixando para elas. Me entende, doutor?
Claro.
Eu estou cagando pra elas.
…
Elas não representam nada pra mim.
…
Não fazem falta nenhuma.
E você não acha que isso seja uma defesa?
…
Eu não sinto nada por elas.
…
Elas não fazem, absolutamente, falta nenhuma.
…
No fundo, doutor, para ser sincero, não consigo sentir afinidade ou emoção alguma em relação a nenhuma criatura. Será que você consegue entender isso, doutor? Será que este lugar pode suportar isso?
[...]
Carlos.
Quê? Que horas são?
Eu não sei que horas são.
O que foi? Aconteceu alguma coisa?
Eu preciso falar com você.
Puta merda! São três da manhã! Você me assustou.
Desculpa.
O que foi? Fala.
Eu não estou legal.
Não está se sentindo bem?
Tem umas coisas que estão me deixando confuso.
Fala o que é, Paulo. Pode contar comigo.
Eu estou com medo.
Medo do que?
Eu tive um pesadelo horrível.
Foi só um sonho.
Tem umas coisas ruins passando na minha cabeça.
Que coisas?
Eu vi alguma coisa.
Você lembrou de algo?
Não sei.
Fica calmo. Eu estou aqui com você, cara.
Eu vi uma coisa horrível.
Calma. Respira.
…
Isso. Calma, Paulo, você está tremendo. À horrível.
Fica calmo. Me diz o que foi que você lembrou.
Eu estou com medo.
Vai ser bom pra você botar isso pra fora.
Eu tenho medo.
Eu to aqui com você.
Eu não sei se o que veio na minha cabeça aconteceu.
Quer um uísque?
Pode ser uma boa.
Vamos lá pra sala. Eu vou pegar.
Vamos.
…
Porra, eu não consigo parar de tremer.
Vamos lá. Dá um gole.
Cara, você acha possível eu ter feito alguma coisa ruim sem saber?
Fica frio, Paulo. Deve ter sido um sonho.
…
Bebe um pouco, vamos conversar.
Eu não vou agí¼entar!
Põe isso pra fora. Você vai se sentir melhor, você vai ver.
Porra! À difícil.
…
Não tenha pressa.
Carlos, eu preciso que você acredite em mim.
Eu acredito.
…
Tem alguma coisa errada, cara.
Fica calmo. Daqui a pouco você vai estar mais calmo e vai ver que as coisas não são tão ruins assim.
Tem umas coisas na minha cabeça.
Bebe mais um gole.
Obrigado por tudo, Carlos. Você está sendo um puta amigo, cara.
Respira um pouco. Você está branco feito um fantasma.
…
Eu vi a Luci e a Ingrid.
Você deve ter sonhado com elas. Deve ser isso.
Eu vi umas cenas, sabe?
Talvez você esteja recuperando a memória nos sonhos, quem sabe?
Não. Eu espero que não. Foi horrível!
Deve ter sido um sonho.
Eu estava espancando a Luci, cara.
Foi um sonho.
Eu batia nela com um martelo.
Foi só um pesadelo.
…
Eu não sei…
Deve ser a porra daquele teu psicólogo. Ele deve estar botando essas coisas na tua cabeça.
Será?
Essa coisa de hipnose…
Foi horrível!
Se acalma. Foi só um sonho.
Será?
Foi só um sonho. Você está estressado. Todo mundo fica em cima de você. A gente sabe que tem um monte de gente desconfiando de você, mas eu te conheço. Você nunca faria uma coisa dessas. Você está sendo sugestionado. À isso.
…
Mas é isso que eles querem.
Isso o quê?
Que eu seja culpado.
Não diga uma besteira dessas!
…
À isso. Eles querem um bode expiatório.
Você precisava descansar.
…
Foi muito real.
Paulo, a mente é capaz de criar essas coisas. E além do mais, se é um bode expiatório o que eles querem, não vai ser você que eles vão pegar. Eu não vou deixar eles fazerem isso.
Eu batia nela com aquele lado do martelo que é para arrancar o prego, sabe?
Calma, Paulo. Esquece.
…
Eu via a carne rasgando.
Nem fala uma coisa dessas.
Mas foi você que disse que era melhor falar.
À… mas sei lá. Lembra do Mundinho?
Que Mundinho?
Que fez o colegial com a gente.
Sei… lembro, por quê?
Lembra que ele falava umas xaropadas?
Lembro, ele era muito doido.
Isso, se acalma. Vamos tomar mais um gole.
Vamos, vamos.
Vou servir uma dose caprichada.
Por que você estava falando do Mundinho?
Porque ele dizia que tudo o que a gente fala se materializa em algum lugar no espaço. Lembra disso?
Não.
Então, não sei porque isso me veio na cabeça quando você estava falando das imagens do teu sonho.
Carlos, eu acho que não foi sonho, não.
Psiu. Relaxa. Você sonhou. Você foi sugestionado por aquele incompetente do teu psicólogo. Foi aquele filho da puta que botou idéias na tua cabeça. Agora esquece. Nem vamos falar mais nisso. Combinado?
Tudo bem.
[...]
Eu andei pensando.
O quê?
A sua mãe ainda tem aquele terrenos em Bertioga?
À em Peruíbe.
Isso, Peruíbe.
Tá lá. Por quê?
…
Lembra daquela nossa ideia de abrir um barzinho?
Claro.
Você não acha que agora era uma boa hora pra gente meter as caras?
Não sei não. Você acha?
Eu acho. Acho que a gente já deixou passar tempo demais.
Eu queria isso, mas foi em outros tempos. E a gente nunca foi em frente porque sabe que as chances de quebrar a cara são grandes.
E o que a gente tem a perder?
Não sei se minha mãe ia vender esse terreno.
A gente encontra outro. À que esse ia ser sob medida. Nós não temos mais nada a perder, não é mesmo?
Não sei não.
…
Lembra que a gente pensava em vender cerveja importada?
Lembro.
Hoje em dia isso é mais fácil.
Você está falando sério?
Claro. Por que não?
Meu, precisa de muita grana pra isso.
A gente dá um jeito.
Que jeito?
Eu podia vender este apartamento. E o terreno da tua mãe é de frente pra praia?
À. Bem de frente.
…
Ela podia deixar a gente pagar aos poucos, depois que o negócio começasse a engrenar.
Acho que você não conhece a dona Inês.
Eu falo com ela.
Eu não acho que ela ia topar.
Eu tenho certeza que ela não ia negar isso pra mim.
Por que você está querendo isso agora?
Eu sempre quis isso. Só que a hora é agora. Nós já deixamos passar muito tempo.
Isso é verdade.
Você não agí¼enta mais o trampo. Eu também estou de saco cheio daquele escritório.
Eu não sei se a minha mãe ia deixar a gente construir naquele terreno.
Deixa que eu falo com ela.
Será?
Ia ser demais, não ia?
Puta, pior que ia.
Deixar tudo pra trás.
À.
A gente podia levar a Cris junto. Ela podia ser a gerente.
Não. Vamos deixar a Cris fora disso.
À?
Você não disse que quer deixar tudo pra trás?
À verdade.
Mulher não deixa nada pra trás.
Isso é verdade.
Se a Cris fosse, ela sria a nossa consciência. Ia querer ficar tomando conta da gente.
Você está certo. A Cris que se foda!
À isso mesmo.
Pau no cu de tomo mundo.
À isso aí. Que se fodam!
Ia ser foda, não ia?
Pior é que ia.
Vamos largar tudo… vamos deixar tudo pra trás…
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