
No escuro, um rumor. Seria, talvez, seu coração, constante e compassado. E também, um lamento. Gritos? Gritos. Por uma fresta, vislumbra o fogo, nada mais. O rumor aumentando e diminuindo, em ondas. O calor que entorpece. Seus olhos se fecharam e sua cabeça tombou sobre o peito. O silêncio”¦
Visto de longe, somente o fogo e os troncos enfeitados “um exército à beira rio, embaixo de um dossel de palmas cortadas, desenhando sombras. E as vozes:
” Ho-ri-ri. Icatí! Ho-ri-ri. Icatí!
” Nei-mahon! Nei-mahon!
Um pouco mais além, distante das águas do riacho, a salvo de águas crescidas com as chuvas, índios pintados da cabeça aos pés, com os cabelos duros de urucum, batem os pés no chão e dançam numa grande roda. Alguns tocam flautas enormes. A dança é sempre a mesma. A música não varia. E os pés batem no chão, como tambores.
“Â Â Â Â Â Â Â Ho-ri-ri!
“Â Â Â Â Â Â Â Nei-mahon!
“¦ dura pouco. Logo as vozes estranhas começam a repetir sempre as mesmas palavras, é como a música das esferas, ou como os sons de seu próprio corpo, aprisionado dentro de um escrínio, de um útero de madeira, aguardando a ordem para o nascimento. Outros lamentos. Ou gritos. Parece um nome já ouvido antes: Francisca. Mas não deveria ser Francisca, o nome era outro, embora o semblante pudesse ser o mesmo, uma face esplendorosa em sua beleza, refulgindo na escuridão, como um relâmpago. Cego, outra vez o rumor ecoa, encantatório. Batidas ritmadas como as de seu coração.
E o rosto sério da moça, que não pode sorrir para não incendiar a selva, flutua sem vê-lo. O poeta se esconde, envergonhado de sua barba crescida, da cabeleira desalinhada e alastrada de fios brancos. Onde está? Distante de casa, sem reconhecer cheiros e vozes, aprisionado como uma hamadríade num tronco de árvore. Encolhido, envelhecido, exilado, desejando a face séria da moça, cujo sorriso abrasava o mundo. Ou os braços da outra, que o levavam ao turbilhão do humano desejo. Haveria pecado nos abraços tão doces, nos beijos, nos dedos gelados e trementes? Ele nunca poderia dizer seu nome, não poderia condená-la í s penas infernais. O silêncio”¦
Os troncos agora reluziam, banhados pela luz do nascente. Já não são precisos os cantos, nem os lamentos do luto. A morte se transforma em criação, o mundo se repovoa e o deus já pode adormecer sem medo de lhe faltarem fiéis. Mavoitsinim sorri.
Um pouco mais além, os índios não sossegam. Depois da noite de danças, eles se preparam para o embate. Huka-huka. Desafiantes, de quatro, eles se olham e parecem onças imóveis, preparando o bote. Quando atacam, são flechas de ponteiras vermelhas de urucum, são troncos esculpidos em músculos. São manifestações da natureza, indiferentes a tudo que não seja o momento presente.
Sariruá, Itacumã, Canato, Taculavi, o ar se embriaga de vogais, que dançam dentro do rio Tuatuari, aguardando o desfecho das lutas para se saciar de vida. Os homens-onça, curvados frente í s mulheres-lobas que lhes tomam os adornos nas derrotas. Em algum lugar deste cenário (paraíso ou inferno) uma serpente branca espreita, tecendo interpretações. Dela partirá o bote paralisante. Mas agora a vida ferve nas veias aquecidas pelo cauim e pelo sol nascente.
“¦ recua ante o verso que surge espontâneo, mas domado em sílabas precisas:
“Quella que imparadisa mia mente”.
De quem é esta voz, que se perde entre os rumores da clareira? Uma clareira que se esconde no meio de uma selva escura, à qual se chega flutuando pelas águas preguiçosas do rio cantante. Culuene, Jarina, Xingu, os nomes cantam no meio da mata sombria e levam índios e serpentes para suas origens, para o coração das trevas. Ou este seria o paraíso? Os caminhos se fecham em túneis vegetais enquanto a mente do poeta se abre em versos, retratando uma vida nova. Até aquela manhã, a floresta fechada num mundo secreto, vida em oferta apenas para si mesma, sem necessidade de simbologias, de revelações. Uma vida que se basta. Mas os olhos de serpente transformam o encanto em desencanto. Nomeiam. Traduzem. Traem. E confundem  essências com efemeridades. Já não é mais possível viver sem desesperadamente tentar reunir os dois aspectos. Tudo se cala, de repente. O silêncio”¦
Aquecidos pelo sol e pela luta, os homens se voltam agora para os troncos, cascas vazias, mas dentro dos quais o mistério tinha habitado. O luto termina com a chegada da vida. À hora de desenterrar os troncos enfeitados e de fazê-los rolar até o rio. Um após o outro, eles rolam pelo declive, postos em movimento pelos pajés que conhecem seu destino. Um atrás do outro eles mergulham, sem alarido, plaf, plaf, entram n”água, afundam um pouco e depois emergem. O maior, com sua faixa de algodão colorido, suas penas de arara e de gavião, saiu boiando e a serpente em seu seio silvou, mas ninguém escutou seu aviso.
“¦poderia ser eterno, mas é rasgado por gritos humanos de órfãos. São lamentos do desamparo, são vozes do desespero, são gritos de vingança. Obrigado a sair de onde se encontra, o poeta sente as contrações do nascimento. À preciso sair do escrínio de madeira onde se guarda, abandonar as paredes conhecidas e a vozes suaves. Vida nova, que se aprende vivendo. Vida passada, irrecuperável. As águas de sonoras vogais o levam pelos caminhos desconhecidos. O tronco ” quarup ” agora é uma ubá que desliza em silêncio e chega ao local onde as flores podem brotar. Orquídeas oferecendo-se como metáforas através dos séculos. Catléias. Mas os seus olhos não se despregam da face séria, que o repreende.
“Perché la faccia mi si t”innamora
che tu non ti rivolgi al bel giardino
che sotto i raggi di Cristo s”infiora?”
Contrito, o poeta compreende que é preciso desviar os olhos enamorados do rosto sério para fitar o jardim onde florescem os raios amorosos. Mas seria aquela jovem a sua amada? Pertenceria ela a sua história? Aquele paraíso desordenado e quente, banhado por águas escuras e verdes, viscosas, seria o seu? Ou estaria ele no inferno, escutando a bela Francisca em seu lamento:
“["¦]Nessun maggior dolore
che ricordarsi del tempo felice
nella miséria["¦]“
Queria chamá-la, queria que ela interrompesse seu trajeto para contar sua história, mas não conseguia romper o silêncio”¦
No meio da mata, um jardim edênico. Uma vereda de orquídeas lilases, de orquídeas claras, quase brancas, de orquídeas pálidas e cúmplices, de orquídeas com pétalas quentes, que se fechavam para fabricar mel e seiva, sustento para o amor e para o desejo. Orquídeas de nomes pomposos e sonoros: Catasetum Pileatum, Galeandra Devoniana, Catléia Luteola, Menadenium Labiosum. Orquídeas que se despejavam em cascatas densas, impedindo a passagem. Até aquela manhã as flores e as águas eram secretas. Flores que se ofereciam como estrelas, no silêncio. Agora eram nomes desencontrados, eram signos a serem preenchidos de significado, eram incompletudes. Iam necessitar de quem as cantasse, as descrevesse, as perpetuasse.. As orquídeas se transformavam rapidamente. Eram gemidos e suores. Eram cheiros. Eram fétidas. Belas e fétidas. Rajadas como leopardos, belas, e repulsivas exalando odores vis para afastar outras testemunhas.
“¦deste lugar encantado, onde o paraíso se confunde com os tormentos infernais. Calor, mais quente que o fogo, insetos que atormentam o corpo e o espírito e ele finalmente renascido, deslizando no canto das águas sonoras, murmurando seus nomes como quem imita o próprio deslizar. Xingu. Prolongando sons, xxxiiinnnguuu. Trazido í quele novo exílio para contemplá-lo e domesticá-lo.
Seus olhos examinam o céu, que se esconde atrás das copas de árvores enormes. Ele deseja as estrelas, o conforto de seus vaticínios, o preciso traço divino de suas constelações. O dia já se esvaiu. O rio se alarga, as árvores se afastam e o céu aparece em toda a sua glória, coberto de estrelas, numa nova ordem. O céu estrangeiro ostenta o símbolo sagrado, uma cruz, que oscila, num calvário todo seu, percorrendo esse firmamento onde os caminhos do paraíso e do inferno se confundem. O poeta deseja ordená-lo, quer desviar os olhos do espetáculo celeste para poder melhor explicá-lo. Precisa, porém compreender. Somente agora percebe que os troncos quarup que habitou tinham sido esmagados, trabalhados até se transformarem na polpa, na massa da vida, nas folhas de uma nova selva, onde se inscreve o mundo. Maivotsinim sorri, assimilado. O poeta olha a seu redor e descansa. Não lhe cabe a tarefa de escrever o novo mundo. Agora ele é o guia que, folheado com atenção, aponta o caminho das estrelas. Tudo é possível nas noites tropicais. Até mesmo o silêncio metamorfosear-se em versos que mostrem como as imagens podem se confundir no desenho perfeito do Amor,
(“l”amor che move il sole e l”altre stelle”)
capaz de encontrar, no rumor dos mesmos versos , seu silêncio.
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2 respostas
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