
Kriktu olhava seu reflexo na superfície do lago negro, dentro do qual não sentia estar nadando. Já não nadava nesse lago há tanto tempo que acreditava em verdade nem estar lá, acreditava que nunca esteve em lugar algum, acreditava que, em verdade, não existia. Ao não observar suas feições imaginava se aquela aparência moluscosa refletia sua verdadeira essência, ele nunca se sentiu muito gosmento, pensava ser mais peludo, mais quente, mais saboroso que uma lula.
Seus pensamentos voavam, iam longe, de animais de corpo mole e frio í s dobras do tempo-espaço. Fazia apenas alguns zilhares de anos que entrara nessa onda de questionamentos existenciais, se encantava com cada pensamento que invadia sua mente e agora, ao ponderar a possibilidade de ter uma mente na qual pensamentos podiam lhe ocorrer, teve uma grande surpresa. Após o grande não tempo de ponderação sobre o vazio do não espaço, Kriktu não pensou em mais nada.
Nenhuma nova pergunta apareceu para lhe entreter, não conseguia mais formular questões, não achava as ideias para imaginar as coisas, não lembrava que existiam coisas, nem mais perguntas, nem mais não espaço, nem mais não tempo, ele não se lembrava de existir, de ser, de estar. Logo não havia mais lago, mais molusco, mais nada.
E do nada, surgiu tudo.
Kriktu sentiu o movimento lento da água gelada, o lago estava lá, ele ficou boiando durante alguns minutos e percebeu a passagem do tempo, nadou até o fundo do lago e arrastou seus tentáculos e seu corpo pelo solo, tudo era liso, sentia a corrente de água fria que atravessava seu corpo oco lhe fornecendo oxigênio para respirar, se espreguiçou e tocou paredes, as quais também eram lisas, como o chão, como seu corpo, como seus tentáculos…
Pensamentos voltaram a sua mente. Paredes. A imagem de uma parede surgiu osbcura, como uma ideia distante, mas Kriktu queria ter certeza do que ele tocava e da razão de tais paredes se posicionarem tão próximas.
A criatura moluscóide abriu seus grandes olhos redondos, localizados em cada lado da sua agora real cabeça e o que viu foram vários outros olhos grandes e redondos olhando sua existência com curiosidade.
Uma quantidade enorme de novas informações correram desenfreadas, todas ao mesmo tempo preenchendo sua cabeça, perguntas querendo ser processadas, questões querendo ser respondidas. Tudo se formava numa velocidade inimaginável, numa velocidade que só seria possível no vácuo passado e que por essa razão se auto destruiu. A impossibilidade do momento, cujas imagens captadas por seus olhos haviam dado início, acabou por agir como um soco no meio do seu corpo mole. Kriktu, nocauteado pelas imagens e enganado por sua própria mente questionadora, deixou de existir, mas não como antes, no seu período de não existência e sim para sempre, como a morte.
O cozinheiro da cantina italiana de frutos do mar, que assistiu a dramaticidade da morte da lula ao ser intoxicada com o suco do limão e o vinagre no qual havia sido mergulhada viva, pegou o corpo inerte de Kriktu e o jogou na água quente da panela. O prato mais caro da cantina.
Artigos Relacionados
Seja o primeiro a comentar
Deixe seu comentário