
No princípio era o verbo. Ao menos, isso é o que se pensa, e é tão errado quanto só os seres humanos conseguem ser. Não, o verbo veio depois. Bem, bem depois. Antes das palavras e dos verbos, existiam as letras, que flutuavam sozinhas no grande nada do antes-de-tudo, mal cientes de sua existência. Elas sempre estiveram lá e em algum momento (dado que não haviam dias nem noites nem semanas nem meses), por algum motivo, duas letras se esbarraram. E ao se esbarrarem viram que, ao invés de se quebrarem ou se ferirem, formaram algo a mais. Talvez fosse um B e um A, talvez um T com um O ou um J que trombou num F. O fato foi que quando isso aconteceu, das faíscas saíram pares das duas letras, deixando as originais livres para se esbarrarem mais e mais.
E foi o que elas fizeram, numa orgia litero-alfabetária, até que viram que algumas das coisas que se formavam até que faziam um certo sentido. Ao contrário do que diz Saussure, foram as primeiras palavras, naquela língua original que há muito foi perdida, que carregavam todo o significado do mundo. Conforme elas se formavam surgiram idéias e coisas e os próprios conceitos. Dizem os lingí¼istas de hoje em dia, que sem querer são os religiosos de um início de universo do qual ninguém sabe, que a língua limita, molda a forma de ver o mundo. O que eles não sabem é que este é exatamente o propósito, pois nenhuma boca humana suportaria pronunciar a mais simples palavra do idioma criador.
Quando viram o que podiam fazer, as letras que agora eram palavras começaram a formar frases. E isso de certa forma as divertia. Inventaram como crianças todo um universo, um mundo, pessoas e vontades e animais e cores. Dão a cada coisa uma história que elas acham interessante. Deram também, porque se sentiram generosas naquele dia, o dom da língua, mesmo que rústica e incompleta, para que alguns aqueles que elas haviam criado pudessem experimentar por alguns momentos toda a experiência de, apenas com um punhado de riscos no papel, criarem eles mesmos um universo. Poucos sabem, mas escrever é provar um pouco de papel de criador que as palavras reservaram para si, até o dia em que elas resolvam colocar o último e derradeiro ponto final.
Artigos Relacionados
1 resposta
os textos têm qualidade, agradam. gostaria de saber quando será o próximo encontro do clube da leitura.
um abraço,
Deixe seu comentário