
Foi só no meu segundo encontro com a Lenore que descobri que ela não tinha um dos braços. Nosso primeiro encontro havia sido í s cegas, arranjado pela mulher do meu irmão, que se esqueceu de mencionar essa história do braço. Acho que não sou muito observador. Já me disseram isso algumas vezes. Mas Lenore usava uma prótese muito benfeita, e acho que foi um descuido compreensível de minha parte.
Meu vizinho de porta naquela época era um mágico chamado Paul, e aos fins de semana ele fazia um número em um bar chamado Singing Henry”s. Não tinha nenhum “Henry cantor” lá. Era só o nome do lugar. Decidi perguntar para a Lenore se ela queria ir ver o show de mágica do Paul no nosso segundo encontro.
Lenore concordou, e quando passei na casa dela para buscá-la, reparei que havia uma série de pinças metálicas no lugar onde deveria estar sua mão.
“Ei, o que é isso?”, perguntei. Achei que talvez fosse alguma pegadinha esquisita.
“À a minha mão”, ela disse.
“Não é não.”
“À uma prótese”, ela disse.
Ela enrolou suas mangas até quase o ombro para que eu pudesse ver onde terminava a pele e onde começava o aparelho. Era preso por uma ventosa e duas fitas elásticas.
“Bom, OK”, eu disse. Como foi que eu não reparei?
“Você já tinha essa coisa antes?”, perguntei. “Quando saímos antes?”
“Chama “prótese”", disse Lenore. “Eu estava usando um braço diferente aquele dia. Tinha dedos de borracha. À mais discreto, mas não é tão útil quanto esse.”
Leonore voltou a entrar no seu apartamento e pegou o braço de borracha. Ainda não sei como não reparei naquele aparelho. Mesmo uma olhada superficial deixava claro que o braço não era de verdade. Os dedos nem se mexiam! Mas é assim que são as coisas na vida, descobri. Assim que entendemos alguma coisa, todas as pistas ficam óbvias e você fica sentindo que já devia saber daquilo há muito tempo.
O show de mágica era uma porcaria e eu fiquei reparando como a Lenore fazia para bater palmas com seu braço protético. Ela o levantava um pouco e depois apenas dava tapinhas no antebraço. Esse método não resultava em muito barulho, mas o Paul também não merecia muito mais. Ver a Lenore batendo palmas era mais interessante do que a maioria dos truques de mágica.
Depois de cada truque Paul gritava, “E voilá!”, e todo mundo tinha que dar vivas. Isso foi cansando, mas ele fez um truque lá pelo fim que me impressionou. Ele pegou uma pomba viva de dentro de uma gaiola, bateu nas suas costas com força e voou confete para tudo que é lado. Fiquei com a impressão de que o pássaro deveria ter desaparecido, mas em vez disso ele ficou ali parado, na mão dele, aparentemente espantado. Então Paul bateu mais uma vez, um pouco mais forte. Dessa vez a pomba fez um ruído, e mais confete saiu pelo ar, mas ela nem voou nem desapareceu. Eu estava começando a me sentir mal pela pomba, e dava para ver que alguma coisa estava errada porque o Paul balançava a cabeça e mordia os lábios. Então ele deu um suspiro e meteu a pomba no bolso. No bolso do casaco! O show continuou e eu fiquei esperando a pomba sair voando dali ou pelo menos se dabater, mas ela não se mexeu. Para onde ela foi? Incrível!
Depois perguntei a Lenore a respeito disso e ela disse, “Ela ficou ali, no bolso dele”.
“Uma pomba no bolso?”
“Olha, sei lá, talvez ele a tenha matado.”
“O quê?”
“Brincadeira. Aposto que ele a jogou em algum lugar sem a gente perceber.”
Considerei a possibilidade, mas tenho quase certeza de que Paul não jogou nenhum passarinho para fora do palco.
Perguntei a Lenore se ela queria ir para a minha casa e ela disse, “Não, obrigada”.
“A gente podia só dar uma volta de carro por aí então”, sugeri.
“Para quê?”
“Não sei. À mais fácil conversar assim, em movimento.”
“Você pode me levar para casa”, disse a Lenore. “A gente conversa no caminho.”
Assim que o carro começou a andar eu disse, “Bom, Lenore, e como foi que você perdeu esse braço?”
“Num acidente de carro”, ela disse.
“Na verdade, um acidente com uma van. Eu tinha 11 anos. Foi numa viagem com a escola.”
“Alguém morreu?”
“Não.”
“Que bom.”
“À.”
“Tentaram costurar seu braço de volta?”
“Ele foi esmagado. A van rolou por cima dele.”
“Ah. Bom, sinto muito.”
“Sente muito o quê?”
“Sinto muito não ter reparado antes.”
“Achei que você tivesse reparado, mas estava tentando não dizer nada.”
“Por que eu não diria nada?”
“A maioria das pessoas finge que não repara.”
“Eu jamais fingiria uma coisa dessas.”
“Não teria problema.”
“Mas eu não fingi.”
Tentei dar um beijo de boa noite em Lenore. Ela era uma mulher muito atraente. Tinha uma íris diferente, cinza-claro no centro e bordas escuras. Mas ela não estava muito interessada em me beijar. Pensei em dizer a ela o quanto os seus olhos eram maravilhosos, mas achei que era o tipo de coisa que ela já devia ter escutado antes. Me veio à cabeça uma outra pergunta.
“Os seus olhos são verdadeiros?”, perguntei.
“Como assim?”
“Você está usando lentes de contato coloridas ou alguma coisa do tipo?”
“Não, não estou.”
“OK. Só estava curioso.”
“Sei.”
O nosso encontro terminou nesse tom de acusação desconfortável e eu não a vi por mais um bom tempo. De vez em quando eu tinha umas fantasias, uns devaneios com Lenore e sua mão de pinças metálicas. Ela olhava para mim com aqueles olhos claros enquanto fazíamos amor e a outra mão de borracha estava sobre uma mesa ao nosso lado, como se tivesse sido excluída da situação.
(quem quiser saber como termina essa história pode clicar aqui e ir pro link da Revista Vice, onde ela foi publicada na íntegra)
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