
tradução de Paulo Migliacci
LINGUAGEM ESPACIAL
A área que viu surgirem as provas mais notáveis da influência dos idiomas no pensamento é a linguagem espacial -como descrevemos a orientação do mundo em redor.
Suponha que você queira explicar a alguém como chegar à sua casa. Poderia dizer “depois do sinal, vire na primeira à esquerda, depois na segunda à direita; você vai dar numa casa branca, nossa porta é a da direita”. Mas, em tese, também poderia dizer “depois do sinal, siga para o norte, depois vire a leste no segundo cruzamento e, quando vir uma casa branca a leste, a nossa será a porta sul”.
São dois conjuntos de instruções que descrevem a mesma rota, mas dependem de diferentes sistemas de coordenadas. O primeiro emprega coordenadas “egocêntricas”, que dependem do nosso corpo: o eixo direita-esquerda e o eixo frente-trás, disposto de maneira ortogonal com relação ao outro. O segundo sistema emprega coordenadas geográficas fixas, que não nos acompanham quando nos viramos.
À útil adotar coordenadas geográficas para caminhar em campos abertos, por exemplo, mas as coordenadas egocêntricas dominam completamente a nossa fala quando descrevemos espaços em pequena escala. Não dizemos: “Quando sair do elevador, caminhe para o sul e bata na segunda porta a leste”.
A razão para que o sistema egocêntrico seja tão dominante em nossa linguagem é que parece mais fácil e mais natural. Afinal, sempre sabemos onde ficam “frente” e “trás”. Não precisamos de mapa ou bússola para compreender; basta sentir, pois as coordenadas egocêntricas se baseiam diretamente em nosso corpo e nosso campo visual imediato.
GUUGU YIMITHIRR
Mas então foi descoberto um remoto idioma aborígine australiano, o guugu yimithirr, do norte de Queensland, e com ele a perturbadora constatação de que nem todos os idiomas se conformam ao que invariavelmente tomamos como “natural”. O guugu yimithirr não usa de modo algum as coordenadas egocêntricas. O antropólogo John Haviland e, mais tarde, o linguista Stephen Levinson demonstraram que o guugu yimithirr não emprega palavras como “direita”, “esquerda”, “frente” ou “trás” para descrever a posição de objetos.
Nos casos em que costumamos usar o sistema egocêntrico, o guugu yimithirr emprega os pontos cardeais. Se a ideia é que você abra um pouco mais de espaço no banco do carro, um falante de guugu yimithirr dirá “vá um pouquinho para leste”. Para dizer onde exatamente deixou um objeto em casa, ele dirá “deixei na ponta sul da mesa oeste”. Ou alertará:
“Cuidado com aquela formigona bem ao norte do seu pé”. Mesmo quando veem um filme na TV, descrevem-no com base na orientação da tela. Se a TV estivesse voltada para o norte e um homem na tela se aproximasse, eles diriam que ele está “vindo rumo ao norte”.
PESQUISA
Quando essas peculiaridades do guugu yimithirr foram descobertas, inspiraram um projeto de pesquisa em larga escala sobre a linguagem espacial. E isso deixou claro que o guugu yimithirr não representa uma ocorrência excepcional; idiomas que se valem primordialmente de coordenadas geográficas estão espalhados mundo afora, da Polinésia ao México, da Namíbia a Bali.
Para nós, poderia parecer o cúmulo do absurdo que uma professora de dança dissesse “erga sua mão norte e mova sua perna sul para o leste”. Mas algumas pessoas não perceberiam a piada: Colin McPhee, musicólogo canadense-americano que passou muitos anos em Bali na década de 30, conta a história de um menino que mostrava grande talento para a dança. Como não havia professores em sua aldeia, McPhee conseguiu que um instrutor de outra aldeia aceitasse o garoto.
Quando visitou a aldeia para verificar como estava indo o estudo, o menino estava desanimado, e o professor, irritado. Quando instruído a dar “três passos para o leste” ou “se curvar para o sudoeste”, ele não sabia o que fazer. Em sua aldeia natal, instruções assim não seriam problema, mas, como a paisagem na nova aldeia lhe era completamente desconhecida, ele ficava desorientado e confuso.
Por que o instrutor não empregou outro método de instrução? Ele provavelmente responderia que dizer “dê três passos para a frente” ou “curve-se para trás” seria o cúmulo do absurdo.
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2 respostas
Qualquer semelhança com o mote de uns encontros atrás seria mera coincidência?
não. ou melhor, sim. foi coincidência, mas é o mesmÃssimo mote, só q pelo prisma de outro autor. o assunto, pelo visto, é quente como este verão. mas enfim, o CL é como a vida, cheia de coincidências e repetições…
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