
Estava na biblioteca municipal, e tossia por causa da greve dos faxineiros e da manutenção. Justamente ontem o ar-condicionado tinha quebrado. O suor pingava, apesar da sua imobilidade para afugentar o calor.
O silêncio opressivo do sábado matutino é quebrado apenas pelo barulho lá de fora. Chega Lauro, balançando as chaves do carro novo.
Loiro, alto e sorridente coloca o laptop e os livros novos em cima da mesa. Tem ótimas recordações do banheiro dessa biblioteca… as pegações regadas a cocaína entre os buracos da parede tinham custado uma câmera no banheiro, e os gays do campus tiveram que migrar para outros WCs menos limpos e intelectualizados. Mas agora ele estava ali para fazer este trabalho para valer nota. CONCENTRA, MONA!
Carlos olha de lado seus livros comprados nos sebos do centro e emprestados da biblioteca. Velhos e cansados como ele (se lembrou da música), mas que permaneciam ali.
- Oi, Lauro!
- Cara! Desculpe aí, nunca tinha vindo para esses lados e me perdi. Da próxima vamos fazer lá em casa, ok? (pensando na cobertura ventilada da Vieira Souto)
Carlos dá um sorriso e faz que sim. – O trabalho é pra terça-feira, né?
Ele se sentia velho, sempre em atraso com sua geração. A vida nunca foi fácil com os problemas financeiros, aos trinta e nove terminou sua graduação. Ao contrário dos colegas, não tinha carro ou ânimo pra flertar com as colegas na festa de formatura.
Solitário, e cansado da luta para se formar trabalhando, foi de ínibus mais cedo antes da festa terminar para o bairro onde morava, onde ninguém completara o 2o grau. Para variar, quase dez graus acima de onde foi a festa de formatura… o calor opressivo não o incomodava mais tanto assim.
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1 resposta
ótimo ter a gloria de volta ao site. seus contos parecem todos deslocados no tempo, como q suspensos em algum presente surreal e opressivo. e a imagem q agata arrumou parece saÃda diretamente da expo do escher. e viva a luta de classes, gloria!
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