
Tudo começara com os ruídos, sim, os ruídos. Alguns dias antes ouvira um comentário sobre uma nova moradora no apartamento acima do seu. Ele bem que não pudera deixar de perceber na última semana bem mais ruídos do que o de costume, novos sons descendo do teto pelas paredes, um certo arrastar de móveis e a agitação de passos ao longo do dia, alguns latidos que nunca antes escutara, o inconfundível ruído do papelão de caixas e fitas adesivas sendo rasgadas, e também aqueles golpes ritmados e secos que um salto fino de mulher faz ressoar na marcha que sai do quarto, atravessa o corredor, a sala, e bate a porta, trancando-a. Os sons deixavam claro que uma nova rotina tomava conta do apartamento de cima, vazio por quase um ano. O fato de se encontrar em casa a maior parte do tempo fazia com que seus ouvidos involuntariamente vislumbrassem no decorrer das horas de cada dia as buliçosas evoluções da vida vizinha, de modo que, sem que de fato percebesse, o divertimento de tentar adivinhar os hábitos da recém-chegada moradora ia imprimindo um novo colorido à sua própria vida. Tudo isso, somado à lascívia dos comentários de seu amigo, nutria de modo coquete a curiosidade que se avolumava num fantasioso e hesitante interesse.
Já fazia quase três semanas quando, tomado por súbita coragem, provocou um encontro. Era começo da noite, ouvira a vizinha chegando em casa, parecia estar calçando tênis, deduziu que estivesse chegando da academia. Alguns minutos e latidos depois, ela batera novamente a porta. “Vai levar o cão pra passear”, pensou. Levantou-se e saiu imediatamente, bem a tempo de fazer o sinal e deter o elevador de serviço. A porta pantográfica correu e ele abriu a cabine. Era jovem e bonita, suas roupas não deixavam dúvidas de que ele estava certo ao supor que ela voltava da ginástica. Sorriu vaidoso do próprio acerto, baixou o olhar hesitando encará-la enquanto pensava em algo que pudesse dizer. Deteve o olhar na delicada mão direita, de dedos brancos, finos e esmalte claro. Com aquela mão segurava a guia do animal, e ao temer que ela notasse a volúpia com que ele fitava seus dedos, deixou a visão deslizar ao longo da guia, chegando ao pescoço do cão, de pêlos viçosos, brilhantes, macios. A coleira prateada lembrava uma gargantilha, delicadamente abraçada em torno daquele pescoço de pêlo tão irresistivelmente atraente.
Foi então que seus olhos se encontraram com os do animal, aqueles negros e profundos olhos que o fitavam de volta numa alternância perversa entre desafiadores e indiferentes. Inibido, sentiu a respiração travar. Aquele olhar o atravessava, desnudava-o, parecia enxergar toda a indignidade que lhe movera até um encontro tão patético; parecia, do alto de sua animalidade, tão majestosamente superior… mas ao mesmo tempo tão magnanimamente compassivo! Aquele animal enxergava sua pusilanimidade e ainda assim lhe cobria de uma ternura esmagadora. Corou.
” Como se chama? ” ele perguntou de olhos baixos, fixados nas patas dianteiras.
” Eu ou ela? ” perguntou de volta a vizinha, sorrindo do desconcerto do homem.
” Ela?! ” sobressaltou-se intimidado e ao mesmo tempo eriçado ao descobrir revelada a natureza feminina do poder devorador daquele olhar canino. Ele ergueu novamente o rosto em direção à vizinha na tentativa agora já quase automática de dar algum prosseguimento à situação, mas assim que alcançou sua face desviou abruptamente os olhos, galvanizado pelo constrangimento que quase chegava a ser medo de que a cadela duvidasse da exclusividade da incompreensível atração que lhe despertara. Viu-se compelido a lhe afagar a cabeça, o desejo de roçar aqueles pêlos por entre os dedos e de sentir, no dorso da mão, o áspero e molhado toque de sua língua. O elevador chegou ao térreo. Incapaz de dizer o que quer que fosse, segurou a porta para que a fêmea e sua dona saíssem. Atormentou-se o resto da noite.
Não perdera o juízo! Tinha perfeita consciência de que a situação, vista por alguém de fora, por um amigo ou pela vizinha, seria não apenas insólita, não apenas ridícula, seria incompreensível, absurda, sórdida, seria mesmo repulsiva!, sim!, ele mesmo acharia repulsiva qualquer tentativa de descrição de uma tal atração bestial, mas ao mesmo tempo não podia deixar de confessar em seu íntimo que o que sentira durante a troca de olhares era nobre, altivo, incompreensivelmente mais delicado e avassalador do que o que sentira no olhar de qualquer outra mulher. Sabia que para o mundo pareceria um depravado, mas o mundo já lhe soava subitamente muito pouco se comparado à ternura e mesmo à cumplicidade que sabia ter encontrado no olhar da cadela. “Então é isso o amor”, pensou, e todo um universo de sensações explodia fulgurante no interior de sua alma. Ainda que não fosse capaz de explicar, ainda que jamais pudessem entender, ele sabia, ele tinha certeza de que algo único acontecera no elevador. E era algo tão indescritivelmente belo que fingir não ter acontecido não seria simplesmente uma covardia, seria mesmo um sacrilégio. “Um sacrilégio”, murmurou já quase de manhã, emocionado com a inefabilidade de seus sentimentos. Adormeceu.
Acordou com um latido algumas horas depois. A tensão que sentira ao ouvi-lo deixava claro que as reminiscências da noite anterior não eram ficções de sonhos agitados. Acontecera. Apurou os ouvidos e tentou escutar mais alguma coisa. Distinguiu o ruído faceiro das unhas troteando e riscando o sinteco, atravessando o quarto que ficava bem acima do seu. “Está tentando me chamar a atenção?”, indagou-se confuso, sem saber como se comportar. Aos poucos as recordações dormentes dos pensamentos da madrugada passada foram recuperando suas cores e o contorno da grandeza de seus sentimentos tornou a se agigantar em seu coração. Comoveu-se com a beleza e o tamanho do que experimentava, envaidecido pela constatação de ser capaz de sentir tanto.
Levantou-se e lavou o rosto. Sua felicidade era transbordante, mas vinha acompanhada de uma angústia que lhe excruciava o peito. O que fazer agora? Tocara as portas do Paraíso, as mais excelsas esferas dos sentimentos, provara o sabor oceânico desse ímpeto de se dissolver numa outra natureza, dilacerara-lhe o espírito o desejo de fusão com a alma por trás daqueles olhos, mas via-se agora arrancado da sublimidade de suas aspirações, lançado contra a implacável constatação do abismo que lhe separava do objeto de seu desejo. Fechou a torneira e encarou-se no espelho.
Ouviu-a latir. Desabou então de joelhos, arrebentando num pranto copioso, ganindo um soluço desesperado que não conseguia tomar ar. Abraçado à louça, a cabeça enfiada na latrina, vomitou uma, duas, três vezes, sentindo as vísceras se comprimindo contra o pescoço e o sangue lhe dilatando as têmporas. Deixou-se cair sentado, escorregando em seguida as costas pela parede. Suspirou profundo, destroçado. Ganizou baixinho enquanto com a mão tentava limpar o rosto das lágrimas e o vímito ao redor da boca.
Sabia que jamais a teria. Podia vê-la, desejá-la. Poderia tocá-la até. Talvez, tivesse a coragem para ir tão longe, pudesse mesmo possuir seu corpo, provar seus ferozes sabores e tocá-la com mais cuidado do que jamais tocara o corpo de qualquer mulher. Todavia, sabia também que seria esse o limite. Jamais ouviria de sua amada uma única palavra que lhe confirmasse carinho ou repulsa. Até estaria disposto a amá-la sem poder saber exatamente o que se passava em seu coração canino, suportaria resignado a selvagem inescrutabilidade de seus sentimentos: esse não seria, no fundo, dos infernos o mais quente. Fosse a fêmea uma humana, a obscuridade não haveria de ser tão menor. Contudo, ele sabia, jamais poderia alimentar secretamente em seu ânimo a esperança de se fazer compreendido. Nunca poderia confessar seu amor, nunca poderia esperar que ela fosse capaz de reconhecer a nobreza desse afeto que lhe dominava, nunca poderia adular a expressão de seus carinhos e comprazer-se dos esforços de convencerem-na de sua verdade. Ela estava simplesmente lá, para além de qualquer possibilidade de convencimento. Tocara as portas do Paraíso, sim, mas não poderia adentrá-lo acompanhado. Tampouco sozinho. Ela nunca saberia o tamanho do que ele sentia, nunca haveria de achá-lo belo por isso. Ah, nunca!
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18 respostas
O texto é bom, apesar de angustiante.
Se for interpretar a partir da lógica implicante… a personagem deveria tentar o vegetarianismo. Talvez assim se aproximasse mais de uma relação saudável para com o animal.
O texto é bom, apesar de se desviar das prescrições divinas. Se interpretar a partir da lógica implicante, como sugeriu a minha colega, o personagem deveria tentar se tornar um cão. Mas atenção: tornar-se UM cão é bem diferente de tornar-se O Cão – o que também o afastaria das prescrições divinas.
Qualquer semelhança com as cadelas sapiens sapiens é mera coincidência?
Agata e suas fotos incrivelmente bem escolhidas.
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