
Sua indignação o distraiu por alguns momentos, e só quando estava sentado de volta no selim, usando os óculos descongelados e sendo chicoteado pelo ar cortante é que se deu conta de haver chegado a um ponto em que cumpria fazer uma opção imediata: parar e urinar já; permitir que sua bexiga estourasse e uma infecção interna o matasse; ou se molhar todo e morrer congelado. No entanto, foi em frente. Imaginou que deviam faltar uns cem quilímetros e estava fazendo uns quarenta por hora. Duas horas e meia. Claramente impossível.
Mas nem assim parou. Distraiu-se com a tentativa de lembrar a última vez que urinara. Sem dúvida no aeroporto de Longyearbyen, enquanto esperava pela bagagem tarde da noite, na antevéspera. Trinta e cinco horas sem mijar. Teria simplesmente se esquecido? Havia estado assim tão ocupado?
Parou no instante em que compreendeu que o frio é que o havia confundido e feito acrescentar um dia. Em sua ânsia, quase caiu do skidoo. Ouviu o veículo de Jan se chocar com a traseira do seu, porém não olhou para trás enquanto se afastava í s pressas. Estavam agora num terreno diferente. As marcas desenhavam um S estreito numa ravina ladeada por paredões de rocha e gelo com dez metros de altura. Um senso vestigial de decência o levou para a base de um dos paredões, como se ali houvesse um mictório, onde se dobrou para a frente, dando as costas ao vento e usando os dentes para puxar a luva externa da mão direita. Ouviu Jan chamá-lo, mas não tinha condições de ouvir nada naquela hora. Mordendo a ponta de um dedo de cada vez, tirou as duas luvas. Imediatamente sua mão ficou lenta e insensível. Levou mais de dois minutos para abrir o zíper da roupa de fora e, ao descobrir que necessitava das duas mãos para afastar a jaqueta e atingir as fivelas nos ombros do macacão, removeu as luvas da mão esquerda com a entorpecida mão direita. Mais uma vez os óculos estavam ficando embaçados e congelados. No entanto, tinha de admirar a calma com que ia vencendo as camadas de roupa enquanto seu precioso calor corporal se esvaía no frio cruel, e o vento, contornando suas costas, ricocheteava no penhasco e lhe fustigava o rosto. Só nos momentos finais, quando chegou à cueca a mão rosada e dormente, tão fria quanto a de um estranho, ele pensou que poderia perder o controle. Mas por fim, com um grito de júbilo que se perdeu na ventania, dirigiu o jato para o muro de gelo.
Seu erro consistiu em esperar alguns segundos no final, como tendem a fazer os homens de sua idade, conscientes de que pode vir mais. Devia ter virado a cabeça para ouvir o que Jan havia gritado. Ou talvez só teria evitado o inevitável se houvesse aceitado um dos outros convites, para as Seychelles, Joanesburgo ou San Diego. Ou ainda, como pensou depois com certo amargor, se a mudança climática e o aquecimento radical no Círculo írtico estivessem ocorrendo de fato e não fossem apenas uma fantasia criada pela imaginação dos ativistas. Isso porque, terminada a função, ele descobriu que seu pênis se colara ao zíper da roupa externa, congelando-se ao longo da extensão do fecho ecler como a carne sói fazer em contato com um metal em temperaturas inferiores a zero. Desperdiçou preciosos segundos contemplando, em choque, a situação. Quando por fim deu uma puxadinha tentativa, sentiu uma dor terrível. E vale notar que já sentia bastante dor por causa do frio.
Continuou parado, com as pernas afastadas, encarando a parede rochosa. Não ousava, como faria no caso de um esparadrapo, se livrar com um único repelão. Lera a história de um aventureiro americano que, explorando sozinho uma região inóspita, ficou com o braço preso sob uma pedra e o serrou na altura do cotovelo com o canivete. Beard não tinha esse tipo de intrepidez, embora um cotovelo, um antebraço, uma mão fizessem parte de um par e fossem até certo ponto dispensáveis. Enquanto o vento polar golpeava com fúria a superfície do penhasco e ricocheteava em seu corpo trêmulo, ele viu com horror que o pênis escolhera ainda mais e se grudara por completo ao zíper. Não apenas encolhia a olhos vistos, mas também estava ficando branco. Não o branco de uma página virgem, mas o prateado brilhante de uma bola de árvore de Natal.
Estava à beira do pânico, porém não se sentia capaz de pedir socorro. Era mais difícil evitar o pânico com a cabeça envolta por um forro de tapete e um grosso capacete, além de óculos que permitiam uma visão cada vez mais restrita. Sem saber o que fazer, cobriu o pênis com a mão em concha, conquanto ela parecesse um bloco de gelo. Estava começando a se sentir mole, quase sonolento, como costuma acontecer í s pessoas submetidas a um frio extremo. Seus pensamentos também se processavam em câmera lenta. Viu Jock Braby desfiar seu obituário na televisão com um sorriso magnânimo. Ele foi conhecer o aquecimento global com seus próprios olhos. Bobagem, sem dúvida iria sobreviver. Mas a verdade era que seria uma vida sem pênis. Como suas ex-esposas, em especial Patrice, se divertiriam! Embora ele não fosse contar para ninguém. Levaria uma vida tranqí¼ila com seu segredo. Viveria num monastério, faria caridade, visitaria os pobres. Ainda indeciso, imaginou pela primeira vez em sua vida adulta se havia algum propósito na existência humana e em entidades como os deuses gregos, impondo ironias, se vingando, ditando sua dura justiça.
Mas o racionalista que habitava em Michael Beard não se entregava assim à toa. Havia um problema, e ele devia tentar resolvê-lo. Após obter o doutorado, havia trabalhado por algum tempo na área da física de baixas temperaturas, porém mesmo quando era um colegial, o Gordo Beard, ruim nos esportes, estudante aplicado de ciência, ele conhecia as noções fundamentais. O etanol puro congelava a menos cento e catorze graus centígrados, e todo mundo sabia que o conhaque continha quarenta por cento de etanol, tendo, assim, um ponto de congelamento de… menos de quarenta e cinco vírgula seis graus centígrados. Por fim alcançou o cantil, retirou a tampa após breve refrega e derramou uma porção generosa do líquido: em poucos segundos estava livre.
Ao guardá-lo, seu sofrido pau estava tão duro quanto gelo, mas já não mais branco. Também doía tremendamente, como se pidaco por uma agulha quente, o que tornou mais lentos os esforços para se vestir. Depois de dez minutos, por fim inteiro, deu meia-volta e caminhou aos tropeços até o skidoo, onde o guia o esperava.
“Desculpe, uma necessidade biológica.”
Jan o pegou pelo cotovelo. “Você não está bem, meu amigo. Olhe, deixou cair as botas do pescoço. Vamos juntos no meu skidoo. Pegamos o seu mais tarde.”
Deixou-se levar até o skidoo de Jan e foi lá que ocorreu a calamidade. Ao erguer a perna para se aboletar no lugar atrás do guia, sentiu uma terrível dor dilacerante no centre, e até mesmo pensou ter ouvido algo se quebrando, como um parto, como uma geleira parindo icebergs. Deu um berro e Jan se voltou para ampará-lo, ajudando-o a acomodar-se.
“Agora é só uma hora. Você vai ficar bem.”
Alguma coisa fria e dura tinha caído do ventre de Beard e se enviado pela perna do macacão, estado agora alojada um pouco acima da patela. Pís a mão entre as pernas e não encontrou nada. Levou a mão ao joelho e o abominável objeto, com uns cinco centímetros de comprimento, era tão duto quanto um osso. Não dava a impressão de ser ou de ter sido parte de seu corpo.
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2 respostas
xD
Gostei, ser!
aiaiai…
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