
A humanidade havia sido subjugada pelos autímatos. Assim chamávamos as máquinas de aparência humanóide criadas para auxiliar a (outrora) raça dominante. Eu era um cientista de terceiro escalão na Skynet Brasil, o braço nacional de uma grande empresa americana especializada em tecnologia de ponta. Meu trabalho consistia em decodificar bugs dentro de componentes de chips de grafite. Ou algo parecido. Na prática, eu ficava lendo o jornal e dizia para os estagiários o que fazer sem entrar em detalhes. Apesar de toda uma formação calculada, a assistência fornecida combinada com o alto salário me levou um destino sedentário, em que minha maior preocupação era manter meu cargo. Consiga um bom emprego, com um bom pagamento e você está feito. Coisas de Brasil, em que as responsabilidades são degustadas ao som de bossa nova.
Um dia, acordamos com um enorme clarão no horizonte. Ouvi uma voz, que não era única, mas várias, unidas em uma sintonia de medo e dor. De repente, um zunido e uma onda de calor me carregou.
Tudo escureceu.
Quando acordei, estava coberto de poeira, na margem da rua. Do outro lado, uma pilha de escombros. Tropecei em um pedaço de concreto. Olho em horror para o número inscrito: 72. 72. 72 era o número do meu prédio. No lugar do edifício, escombros, como uma imagem de pós-ataque terrorista. 72 marcava o local dos escombros. O pedaço deslizou de minhas mãos e acertou o chão. A força de seu impacto provoco um barulho surdo e lento, como o de lençóis de cama sendo sacudidos no ar. Em seguida, um grupo de despertadores soou. Ou algo parecido. Poderia jurar que relógios cucos e pêndulos eletrínicos e um baixo instrumental estavam tocando em sequência. As águas de março espirraram do céu e percebi que precisava fugir o mais rápido. Mas para onde?
Dobrei uma esquina e encarei algo que me deixou apavorado além da razão. Como em uma formação militar. esqueletos dos andróides que fabricávamos patrulhavam as ruas, armados até os dentes, pisando indiferentes em crânios humanos!
Em pânico, corri na direção oposta. Entrei em uma loja de aparelhos eletrodomésticos. Os televisores estavam ligados. O noticiário passava. O telejornal apresentado pelo primeiro casal do jornalismo nacional ainda estava no ar. Uma sensação de alívio me invadiu. Só poderia ser um sonho ou um delírio. Logo após a introdução do programa, me sentei, rindo de minha estupidez.
“Ao vivo! Da sede do México!”
“Ao vivo da sede do México?” Que loucura… O cara parece genuinamente assustado.
“Estamos transmitindo ao vivo do México, único país livre da presença dos robís assassinos!”
Aos poucos, minha insegurança voltou. Passei a mão em meu rosto para sentir a poeira em meu rosto. Era real. Fiz um corte em minha coxa com um vidro quebrado para sentir a dor. Foi uma má ideia, porque a sensação foi bem real e a incisão foi mais fundo do que deveria. Tive que fazer um torniquete.
Enquanto sangrava, o telejornalista relatava uma revolta dos seres de metal. Aparentemente, um pequeno defeito, atribuído ao esquecimento da primeira lei da robótica em um único modelo, causou uma reação em rede. Esta reação anulou o comando do software, liberando a estrutura física para obedecer a qualquer ordem que quisesse. De alguma forma, eles agora estavam nos caçando. As grandes cidades estava destruídas. Londres se afogava no sangue de seus mortos. O Rio de Janeiro, bombardeado à noite. O mundo se encontrava nas garras do terrorismo de ferro e silício. Apenas o México resistia, com a poderosa ajuda do narcotráfico. Nem os ciborgues podiam dar conta do armamento do cartel. Meu pensamento imediato após esta informação foi o que Pancho Villa teria achado disso.
Os meses seguiram. Comida era uma raridade. Não via uma pessoa há meses. A perna estava podre. Encontrei um baú de roupas de brechó e joguei fora os farrapos imundos com que me cobria. Era o fim do mundo e eu não me sentia bem. Estava sozinho.
Até que escutei um piano.
Corri para a casinha no meio do mato. Uma senhora, usando roupas de época, tocava. Afobado, fui em sua direção, mas ela se afastou como uma amante ressentida. Ela não falava. Era o trauma, pensei. Tentei estabelecer outras formas de comunicação, mas sem sucesso. Enquanto nos encarávamos, percebi o que era mais importante para mim. Não era papo, comida, água ou medicamentos (embora a perna discordasse dessa parte). Eu não via uma pessoa, um humano há meses. Muito menos uma mulher. Precisava sentir seu toque, seu gosto.
Avancei para um beijo, mas ela se levantou no mesmo instante do banco em frente ao piano. Após alguns minutos, ela se acalmou a convenci a tocar de novo. Enquanto seus dedos extraíam beleza das teclas de marfim, me deitei no chão. Sua meia calça tinha um furo. De maneira delicada, pus a ponta de meu dedo na estrada. Senti sua pele suave e fria. Senti outro ser de carne. Fechei os olhos, em júbilo!
Ela se afastou mais uma vez. Senti uma garra poderosa agarrar meu pulso, como se tivesse prendido minha mão em um compactador de lixo. Era a mulher. Seus olhos piscavam vermelhos. Era um autímato, perfeitamente disfarçado de humano. Esse era o plano deles. Eles queriam ser nós!
Dei meu último grito enquanto a “robí” arrancava a pele de meu rosto, encarando aquele monstro com uma expressão de cara de píquer.
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3 respostas
Ah…
E não é que eu gostei do blog xD
volto… se é que consigo ir…
abraços
ahaha, pop-FC com muito humor e imaginação. adorei a ideia do narcotráfico ajudar na resistência contra os robôs. votei neste conto c/ razão. mas boa msma ficou a ilustração, fantastic!
Ribas, muy bueno!
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