
Terça-feira, dia 31 de agosto
Hoje, conversei pela primeira vez com o paciente da ala 22. Embora mais dócil que ontem, ainda se mostrou agitado e agressivo. Recomendei o aumento de sua dosagem para 2cc.
Ainda não pude descobrir nenhuma informação concreta sobre este homem. Sua muralha delirante está bem erguida e levará algum tempo até conseguirmos derrubar os primeiros tijolos. Ele apresenta, no entanto, certas características não comuns a sua condição. A primeira e mais espantosa é que o paciente está ciente da realidade social. Ele afirma com certeza dados coerentes. Ele sabe que estamos em 2010, quem é o presidente do Brasil, que o Flamengo está afundando no Brasileiro e até que o Barrichello finalmente ultrapassou o Schumacher. Apesar disso, mantém persistente em sua teoria de que veio do futuro. Apesar disso, seu comportamento preenche os demais requisitos de esquizofrenia paranóide: alucinações auditivas e visuais, paranoia e momentos reservados alternados com agressividade.
O paciente, que me referirei como José, foi admitido recentemente. Os policiais o encontraram andando nu pelas ruas do centro e gritando absurdos. Estava desorientado e agressivo. Como um profeta trágico, dizia vir de outra época e que era seu dever nos alertar para um apocalipse iminente. Após brigar com os oficiais, foi preso. Devido a ausência de documentos e a desavenças severas e imediatas com outros presos, foi transferido para cá. O médico que o recebeu me informou pela manhã que o paciente ainda estava agitado e agressivo quando chegou, gritando sobre o iminente apocalipse e um desejo insaciável por suco de laranja.
Logo em seguida, almocei na cantina. Fiquei só na salada de novo. Preciso emagrecer. Pensei no que meu colega tinha dito e pedi um suco de laranja. No entanto, minha vontade por doces prevaleceu e o bebi. Finalmente, fui vê-lo.
Sua percepção se destacou logo, pois, assim que me apresentei, ele afirmou que eu tinha acabado de beber suco de laranja. Quando perguntei como percebera, dissera que sentia o cheiro de meu hálito. Finalmente comecei a questioná-lo quanto sua identidade e origem. O paciente afirmou que, embora não se lembrasse de seu nome, conseguia rememorar quem era. “José” era um gerente de supermercado até o final de 2010. Não pude esconder dele o quão intrigado fiquei. Em geral, portadores deste distúrbio não costumam colocar sua fantasia tão colada a realidade. Ele vivia sozinho e não tinha família. Em suas palavras, dividia seu tempo livre entre a televisão, os bares de seu bairro (ele não lembra qual seria) e masturbação. Quando perguntado porque havia destacado esta última parte, ele respondeu que realmente não fazia mais nada além disso. “Personalidade isolada, antissocial”, anotei na prancheta.
Sua história começa a ganhar forma em novembro. “José” afirma que estava se limpando com um jornal velho quando leu um anúncio: “Precisa-se de voluntários para experiência. Preferência por pessoas sem família. Paga-se bem”. O paciente, então, entrou em contato com o local (cujo endereço ele não recorda). Lá, ele teria sido submetido a uma “cricrixinização”, o que depois compreendi como “criogenização”. Em uma sala vasta, contendo câmaras largas e brilhantes, dois homens lhe teriam explicado que a experiência se desenrolaria num período de dois anos. A ele teria sido dito que tudo que precisaria fazer era assinar um formulário, entrar em um dos “casulos brancos” e dormir. O pagamento, lhe disseram, seria feito na íntegra quando o experimento fosse finalizado.
“José” entrou na câmara. Ele se lembra que estava frio e, então, uma porta de vidro teria fechado, o lacrando no interior do objeto. O paciente, com medo, começou a bater nas paredes, exigindo para sair pois precisava usar o banheiro uma última vez. De repente, ouvi um som semelhante a um caminhão de lixo parando e uma nuvem branca, cheia de “vidrinhos que grudavam na pele”, o envolveu. Então, ele apagou.
Quando acordou, “José” estava no meio de um deserto. Ele não sabia se era noite ou dia, pois uma gigantesca nuvem preta pairava no céu, como o que parecia ser um enorme redemoinho escuro invertido tapando os céus. O horizonte e a terra estava vermelhos. Havia algumas raízes de vegetais azuis no chão e nenhum ser humano à vista. “José”, de repente, teria sido abordado por duas baratas de 2 metros de altura. As baratas tinham listras brancas e verdes pelo corpo, “como o uniforme do Palmeiras”. Elas também possuíam apenas quatros braços no total, o que o paciente estranhou. Ele teria sido levado para um enorme local de ferro no meio da paisagem desértica. Lá, foi amarrado de bruços a uma mesa de cirurgia, “bem fria”, e sodomizado com um bastão fino de ferro. Após a ferramenta ser retirada de seu orifício, sentiu uma sensação relaxante e adormeceu.
Quando acordou, estava no Centro carioca na época atual, nu e desorientado. Após ser agredido por uma senhora, se sentiu tonto e ouviu o barulho de uma interferência de rádio na sua cabeça, som que escutava até hoje quando o vi. “José” se lembrara, em seu delírio, o que os alienígenas não tinham abusado sexualmente dele, mas inserido um chip em seu cérebro que apagava suas memórias e serviria de receptor. Assim, os seres espaciais coletariam informações para uma eventual invasão ao planeta Terra.
Sorrindo, percebi que meu horário estava terminando e me despedi. Estava na saída quando “José” me disse:
- Doutor Ronaldo Dias, não se preocupa. Daqui a pouco, o mundo acaba. Melhor comer logo essa barra de chocolate enquanto pode. Eu, o máximo que recebi, foi esse chip desgraçado e uma baita hemorróida. Dona Márcia não precisa saber.
Eu não tinha dito meu nome. Nem o da minha mulher. E eu sei que ninguém mais poderia ter feito, pois seria uma infração séria de segurança. Quando saí do hospital, olhei para o céu escuro e vi uma luz brilhante. Ela estava parada, mas, de repente, fez um movimento brusco em Z e sumiu no horizonte opaco da noite. Parei em frente a um vendedor na porta da universidade e comprei duas barras de Suflair.
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