
(tradução de José Rubens Siqueira)
Peggy Jackson, 54, fica muito incomodada com certas maneiras de falar sobre a morte. Não gosta do tom militar de expressões como “ela perdeu a batalha contra o câncer”. Também fica insatisfeita quando o médico diz ao paciente “esgotamos todas as possibilidades” ou “não podemos fazer mais nada”. Peggy é assistente social em Arlington, na Virgínia (EUA): trabalha num “hospice”, espécie de asilo hospitalar que cuida dos últimos momentos de doentes terminais. Ela não gosta dessas frases, mas tolera. A única expressão relativa à morte que Peggy não admite em sua casa é “preservação criogênica”, termo que indica a preservação de seres humanos em baixíssima temperatura, na esperança de futura ressurreição. E essa é a escolha funerária de seu marido, o que gera algumas complicações para a família.
“Trabalho o tempo todo com gente que está morrendo”, diz ela. “Vejo as pessoas morrendo toda hora. E o que existe de tão bom em mim, que me faça querer viver para sempre?”
A origem da altercação entre Peggy e seu marido, Robin Hanson, 50, é vaga, uma vez que nenhum dos dois consegue se lembrar quando ele manifestou, pela primeira vez, a intenção de que seu cérebro seja removido cirurgicamente de seu cadáver ainda fresco, para ser preservado em nitrogênio líquido. Teria sido há décadas, antes de se casarem e antes do nascimento de seus dois filhos, hoje adolescentes. Robin, professor de economia na Universidade George Mason, também na Virgínia, admite que devia ter previsto pelo menos algum desconforto por parte de sua então namorada.
Robin é o tipo do “nerd” empolgado com o futuro, o que é evidente em seu currículo, que lista artigos publicados como “Crescimento Econômico Considerando a Inteligência Mecânica” (sobre como robôs permitirão taxas de crescimento elevadas), “Queimar os Comuns Cósmicos – Estratégias Evolucionárias de Colonização Interestelar” (sobre o comportamento que podemos esperar de extraterrestres) ou “Tendência-Difusão na Mecânica Quântica de Palavras Deturpadas” (complicado demais). Seu entusiasmo fica evidente na maneira como fala dessas ideias, gesticulando, rindo cada vez que menciona a distância entre suas teorias e as do “mainstream”. Se está sentado numa cadeira, ela se remexe com ele.
“Na verdade, eu só sou tremendamente curioso”, Robin me disse em janeiro, em entrevista pelo Skype. “A criogenização não é só viver um pouquinho mais. É também viver um pouco no futuro.” A reação inicial de Peggy a essa ambição, enraizada menos no ceticismo científico do que nas convicções dela sobre a busca da imortalidade, quase não mudou nos últimos 20 e poucos anos. Robin diz acreditar que existe uma pequena chance de que seu cérebro venha a ressuscitar, que o tempo passado na criopreservação será uma breve pausa no curso de sua vida. Peggy vê nessa busca um ato de egoísmo cósmico. Dentro de uma subcultura americana específica, o casal não deixa de ser praticamente um clichê.
MULHER HOSTIL. Entre os adeptos da criogenização, a reação de Peggy pode ser considerada um exemplo do “fenômeno da mulher hostil”, discutido em artigo escrito em 2008 de Aschwin de Wolf, Chana de Wolf e Mike Federowicz. “Desde o seu início, em 1964″, escrevem eles, “é sabido que a criogenização produz, com frequência intensa, hostilidade em cônjuges que não são criogenistas.” A oposição de parceiros, disse-me Aschwin no ano passado, é algo que “todo mundo” envolvido em criogenização conhece bem, mas que ele e Chana, sua mulher, acham difícil de entender.
Para quem acredita que a preservação em baixa temperatura é uma oportunidade legítima de prolongar a vida, a obstrução pode parecer tão cruel quanto negar atendimento médico. Mesmo que você não queira se juntar ao seu cônjuge armazenado, perguntam os seguidores, o que tem a perder ao respeitar os desejos de um ser humano quanto ao tratamento que será dado a seus restos mortais? Forçados a desistir, eventuais criogenistas “encaram a morte certa”, diz o artigo.
Prenúncios do problema podem ser encontrados nos recessos mais profundos da história da criogenização. Robert Ettinger é o pai da criogenização, inaugurada com o livro “A Perspectiva da Imortalidade”, de 1964. “Não se trata de um hobby, nem de um assunto para animar conversas”, ele escreveu em 1968, “é a luta pela sobrevivência. Se o custo de um carro novo interferir no seu projeto, dirija um carro usado. Se sua mulher não cooperar, divorcie-se.” (…)
TRAIÇÃO E ABANDONO “A criogenização”, diz Robin, “tem o problema de sugerir que você está comprando um bilhete só de ida para uma terra estranha.” No contexto americano, gastar uma fortuna familiar na luta contra o câncer não é considerado um ato de egoísmo. Mas planejar ser lançado ao futuro -um futuro que sua família não está interessada em ver, ou acredita que jamais veremos- quer dizer planejar uma vida em que os seus relacionamentos em curso têm pouco significado. Quem busca a imortalidade está tramando um gesto de separação, um gesto, como diz Robin, “de traição e abandono”.
Pode-se ou não identificar subconscientemente como traição a tentativa de derrotar a morte, mas a verdade é que, na literatura ocidental, paira sobre a busca de imortalidade um ar de ameaça. Basta pensar em Gilgamesh [personagem de um texto épico da Antiguidade] ou em Voldemort [vilão das histórias do personagem Harry Potter]. “Existem muitos velhos estereótipos culturais sobre os motivos e o caráter das pessoas que buscam o prolongamento da vida”, diz James Hughes, diretor-executivo do Instituto de Ética e Tecnologias Emergentes, organização sem fins lucrativos que namora o prolongamento da vida. Hughes escolheu não participar da criogenização, que considera um experimento válido. “Embora seja uma aposta modesta para uma gratificação potencialmente imensa”, diz ele, “eu valorizo a relação com a minha mulher.”
(…) Não escapa aos membros da comunidade criogênica, sempre vigorosamente afirmativos da vida, que a sua prática, volta e meia considerada território de solitários desajustados ou ferrenhos individualistas, depende de grande fé na competente benevolência de outras pessoas.
Da mesma forma, Robin não é cego a ponto de não enxergar quanto depende de sua tribo. Apesar da ausência de limites nítidos e resultados previsíveis, o casamento é uma das poucas instituições que ele parece não ter nenhum interesse em reformar. Peggy descreve o conflito deles como algo semelhante a uma profunda diferença religiosa, transponível por meio de algumas convicções de base comuns a ambos. “O Robin e eu estamos juntos há 28 anos”, diz Peggy. “Sempre adoramos ficar juntos. Ele é um pai excelente. Dedica muito tempo e energia à vida familiar. E isso precisa ser levado em conta.”
Robin e Peggy calam sobre como, exatamente, a morte os separará, mas, no começo deste ano, um pedaço de conversa tocou o assunto. Estavam sentados à mesa da cozinha e Peggy contou a Robin sobre uma tradição funerária de que ouvira falar: depois da cremação, a cinza do morto é dividida entre os familiares. Os filhos e a viúva recebem um punhado cada um, para guardar ou dispor dele como bem entenderem.
“Vocês não vão ficar com nenhuma parte de mim”, disse Robin. “Eu vou ser congelado.”
“Não,” disse Peggy. “A sua cabeça vai ser congelada. Eu fico com o resto.”
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