
Orson Wells corre pelos túneis de esgoto de Taiwan, crocodilos o perseguem. Relaxou demais com a sua vida, está muito gordo, não consegue correr direito. Suor vaza por sua testa. Vê uma escada, consegue subir a poucos segundos de ser devorado, sai por um bueiro. Está num parque, senta num banco ao lado de uma garota. Jovem, morena, sedoso cabelo encaracolado, brilhantes olhos castanhos, finos lábios rosas, parece pensativa.
- O que é o amor? ” pergunta Orson.
- Não sei ” responde a garota. ” O que você acha que é?
- À a ruína!
- Não, não sei, mas não é.
- Então, me diga o que é!
- Não sei, talvez seja uma construção, uma construção de momentos.
- Um construção que leva a ruína! Quarenta anos atrás, conheci uma jovem ruiva irlandesa, ótimos seios, chamava-se Isabela! Ela gostava de filmes, então virei um ator. Cheguei numa companhia que pagava bem, disse que tinha anos de experiência em Shakespeare, dei algumas falas que fiquei ensaiando dezoito horas por dia por duas semanas e me contrataram. Estava apaixonado, queria tudo com ela, queria dar tudo para ela, mas também queria o mesmo de sua parte. Ela não gostava do teatro, só de filmes mesmo, não se interessava pelo que eu fazia, começou a se distanciar. Ànica forma de conseguir fazer filmes era sair da cidade, ir para Hollywood, mas sem dinheiro não podia levá-la, logo isso estava fora de questão. Brigamos. Sim, sim, tivemos os nossos momentos, eram bons nos intervalos das brigas. Mas uma hora me cansei com sua indiferença pelos meus esforços e acabei tudo. Esperei semanas que ela fizesse algo, que viesse atrás de mim, acreditava no seu amor. Ela achou um novo cara. Fui para Hollywood.
- Talvez seja um construção que começa frágil e necessita de muito esforço para se fazer forte.
- Fiz filmes, consumi centenas de mulheres de todas as partes do mundo, fiz tudo que conseguia imaginar com elas, mas nunca tive aqueles mesmos picos de intensidade que tive com aquela ruiva irlandesa. Isso que é o amor, uma lembrança, uma ruína!
- Momentos são construídos de prazeres do espírito, não das sensações. Todo o amor está na sua cabeça.
- Sim, admito, mas se não consigo reproduzi-lo só me resta a ruína. Você diz sensação e espírito, eu por mim chamo de prazeres do poder e prazeres do amor. O que tive com minha Isabela mesmo com toda a confusão foi uma torrente de prazeres do amor. Se não passei com ela o resto da minha vida foi porque me entreguei a uma lógica barata, esperando certas ações dela, quando já tinha tudo que precisava. O que tive depois, ou melhor, o que tive com todas que não foram ela, foi o prazer do poder, o prazer de consumir corpos, de fazer o que eu quisesse com eles, de ver o máximo que aguentavam aceitar. Tive aquelas centenas, talvez milhares, de garotas, não sei realmente dizer, contei-as tanto quanto os camarões que comi no café da manhã. Tive-as de quatro, de joelhos, dependuradas, amordaçadas, cobertas em chantily, em duplas, em trios, em quíntuplos, a declarar-me apenas um objeto, a nunca falarem nada, a clamarem seu eterno amor em banheiras de lágrimas. Mas nada foi comparado aqueles poucos meses ao lado de Isabela, só com ela eu me senti no lugar certo, só com ela eu me encontrei, só com ela eu não necessitava ter nenhum poder.
- E por que não foi atrás dela?
- Fui, é claro que fui. Tudo em minha vida veio do meu esforço, nunca tive nada pela sorte, nunca tive nada dado. À claro que fui atrás dela, uma, duas, dezenas de vezes. Quando tive sucesso com meu primeiro filme voltei a nossa cidade. Ela estava casada, esperando o filho de um mecânico qualquer. Primeiro tive raiva, porque enquanto eu ganhava tudo e me sentia na ruína, ela vivia na ruína e era indiferente a isso. Não, não que fosse feliz, simplesmente não se importava onde estava. Acabada a raiva declarei-lhe a continuidade de meu amor, e dela só tive o ressentimento. No segundo retorno, estava uma mãe solteira com três filhos, engordara um pouco, mas disso não me importei. Mas ela nada queria comigo, dizia para voltar para as minhas peruas de Hollywood. Voltei mais vezes, mas sem os mesmos objetivos, simplesmente acompanhei a sua vida. Casou-se com um cozinheiro, com um professor de educação física, foi solteira muitas vezes, teve mais dois filhos, e acabou bêbada e obesa num trailer. À”¦ minto se falo que meu amor se manteve por aquela criatura acabada, mas ele se manteve pela pessoa que ela poderia ter sido ao meu lado, como também a pessoa que eu poderia ter sido ao seu.
- Poderia muito bem ter se apaixonado mais uma vez!
- Tentei, mas nenhuma era Isabela, nem em sua beleza, nem em suas qualidades, nem em seus defeitos. Se todo o amor está em minha cabeça, não tenho a mínima idéia como controlá-lo, só o poder.
- Quer um chocolate?
- Não, vou comer camarões!
Orson levanta, se despede da garota, sai do parque e vai para uma lanchonete. Enquanto estão lhe servindo um pote de camarões fritos, crocodilos entram no lugar. Ele morre um jovem apaixonado num corpo cansado, obeso, mal amado por quem queria que amasse, admirado por todos aqueles aos quais não se importava. Os crocodilos tomam a terra.
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