
…Já que se tratou de Dono Irifila, vamos logo a ela para que seu vulto ominoso se me espanque da lembrança. Era casada, como já se viu, com o comendador Iclirérico Narbal Pamplona, dos irmãos mais velhos de minha avó paterna, pois nascera no Aracati a 14 de Outubro de 1830. Ninguém compreendia o seu casamento. Ele era alto desempenado, elegante, cheio de calma e distinção. Sua mulher era baixota, atarracada, horrenda, permanentemente irritada – de alma amarga e boca desagradável. Diante dos magros seu assunto era magreza. Dos gordos, as banhas. Gostava de tratar de corda em casa de enforcado e ninguém como ela remexia o ferro dentro da ferida latejando. A Dona Eugênia Ennes de Souza, que a abominava, só a chamava de Irifila-Cão de Fila. Essa Irifila – que tinha títulos para figurar entre as megeras da família de minha avó materna – era uma presença aberrante na de minha avó paterna, onde as mulheres eram doces, laboriosas, submissas, modestas, de lágrima fácil, prontas a calar e de bondade imensa. Diante dessas antonímias, a Irifila abusava. Trazia a sogra, as cunhadas, os cunhados, as filhas, os filhos e os sobrinhos no mesmo cortado em que tinha o marido. Era inimiga de tudo que se favorece a fantasia e torne a vida suportável. Era contra os namoros, contra o riso, contra as festas, contra as cantigas, contra as danças, contra o álcool, contra o fumo, contra o jogo. Não gostava de receber e, quando era constrangida a isto, fazia-o com ostentação e grosseria. Na sua casa do Rio de Janeiro (que ficava a Rua Farani, em Botafogo), no meio das sedas dos seus reposteiros, dos seus tapetes, dos seus espelhos, dos seus jacarandás, dos seus brocados, das suas porcelanas e dos seus lampiões Carcel – suas palavras batiam duras como calhaus, diretas como tiros, incisivas como machadadas. Mas com isso tudo não gritava e nem se arrebatava. Advertia uma, duas, três vezes e, se não obedecida, passava violentamente a ação. O marido, comendador e abastado, gostava das coisas que ela detestava: conversa de amigos, degustação de bom porto e bons charutos, sua rodinha de jogo. E reunia os parceiros uma vez por semana para o voltarete e para a manilha. Terminadas as partidas, vinham as negras – duas para cada bandeja de prata – com chá, o chocolate, as garrafas do vinho, a frasqueira dos licores, o pinhão de coco, as mães-bentas, os cartuchos, as fofas, as siricaias, os tarecos e tudo quanto é bolo da doçura luso-brasileira. Bolo ilhéu, bolo-da-imperatriz, bolos de raiva, esquecidos, brincadeiras, doce-do-padre, toucinho do céu. Os amigos saíam encantados e o obsequioso comendador ia para o toro deleitado. Até que a Irifila virou o fio e um dia fez-lhe a primeira advertência: “Lequinho, você precisa pôr um ponto final nesses trabalhos…” Na terceira: “Iclirérico, eu não quero mais jogatina em minha casa!” Mas o desavisado comendador insistiu e arrumou um grande encontro, justamente para obsequiar seu compadre (padrinho de seu filho Afonso Celso) – o terrível Visconde de ouro preto. Dona Irifila sorriu-se toda quando foi avisada e aninhou-se no enredo da tocaia. À hora da ceia, requintou-se. Nunca sua bandejas, seus bules e seus açucareiros da prata tinham tido tal polimento. Nunca tirara tanta toalha de renda das arcas e das cômodas perfumadas a capim-cheiroso. Nunca seus guardanapos de linho tinham recebido tanta goma. E que fartura. Chá, chocolate, moscatéis, madeiras, portos. Os licores de França, da Hungria e os nacionais de piqui, tamarindo e jenipapo. E a abundância dos doces e dos sequilhos: língua-de-moça, marquinhas, veranistas, patinhas, creme virgem e tudo quanto é biscoito. Biscoitos a Cosme, espremidos, de queijo, de nata, de fubá, de polvilho, de araruta. E no meio da maior bandeja, a mais alta compoteira com o doce do dia – aparecendo todo escuro e lustroso, através das facetas do cristal grosso, de um pardo saboroso como o da banana mole, da pasta de caju, do colchão de passas com ameixas pretas, do cascão de goiaba com rapadura. O comendador resplandecente destampou a compoteira: estava cheia, até as bordas, de merda viva! Nunca ninguém, jamais, ousara coisa igual. Nem a mulher do Doutor Torres Homem. O próprio visconde nunca vira nada de parecido. Ele que enfrentara de guarda-chuva as durindanas de Deodoro e Floriano, ficou de bico calado e só pôde estender os braços para receber o compadre chorando convulsivamente, tremendo da cabeça aos pés, lívido da dor esquisita que lhe atravessava o peito, o estômago e banhado dum suor de agonia… Nunca mais sua casa recebeu ninguém até o dia 29 de Outubro de 1896 – data em que suas portas se abriram para os amigos que lhe vinham velar o corpo, enquanto lá dentro, cercada das filhas e dos parentes, a Irifila uivava à morte…
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