
Tudo começou quando eu perdi uma aposta.
Sentei na cadeira, Arlete, a dona do salão, colocou uma capa de corte sobre a minha camisa, eu de olho nas propagandas, mulheres bonitas pregadas na parede. Um tom discreto, ninguém notaria. Arlete não entendeu nada quando falei que pintaria meu cabelo de castanho-aloirado. Ela riu, achou que era gozação. Era a aposta, o São Paulo tinha perdido de dois a zero para o Palmeiras.
Arlete passou uma pasta grudenta no meu cabelo e disse que era preciso ficar vinte minutos com aquilo. A touca de plástico piorou tudo. Senti-me ridículo, acho ridículo homens que fazem isso. Eu tinha levado uma navalha, a aposta incluía o bigode. Mirei o espelho, sem coragem. Fazia cinco anos que eu usava bigode, desde que tinha visto um filme na televisão com o Charles Bronson. Lembrei que minha vida sem bigode tinha sido uma merda, os anjos, Deus, os guardiões do bem, todos ali, no meu bigode. Arlete, ao ver minha indecisão, tomou a navalha de minhas mãos e começou a me barbear. Ela era bronzeada de sol, corpo bonito, pernas firmes. Roçava os peitos no meu braço, na minha cara, respirava em cima da minha boca, uma coisa diabólica. Lembrei do tempo em que a gente fodia no sofá da casa dela, depois que o pai paralítico ia dormir. Fiquei com vontade. Arlete recuou, com cara de boba, mas eu agarrei seu corpo, colei nossas bocas, beijamos. Forcei a cadeira, caímos trançados. Ajoelhei, ajoelhamos, levantei seu vestido amarelo e senti aquela coisa poderosa em volta de nós dois, Arlete, a égua, a marca do biquíni, a boceta molhada, eu, o cavaleiro, minha tropa de cavalos, meu tronco expelindo uma grande árvore líquida, de copa frondosa, cheia de flores. Tive a impressão de que tudo aconteceu em pouco tempo, cinco segundos, uma coisa realmente rápida, mas de repente Arlete abriu os olhos, começou a gesticular e gritar feito gralha, me agarrou pelo braço, enfiou minha cabeça no lavatório, enxaguou meu cabelo, xingando, gemendo, berrando como uma louca de hospício. Fomos para a bancada da penteadeira, Arlete exigindo que eu ficasse de costas para o espelho. Quando finalmente recebi permissão para ver o resultado, fiquei surpreso: meu cabelo estava completamente loiro. Loiro mesmo, que nem esses cantores de rock da Inglaterra.
Sempre me achei um homem feio. Há muitas curvas em meu rosto, muita carne também, nunca gostei. Meus olhos de sapo, meu nariz arredondado, sempre evitei espelhos. Naquele dia foi diferente. Fiquei admirando a imagem daquele ser humano que não era eu, um loiro, um desconhecido, um estranho. Não era só o cabelo que tinha ficado mais claro. A pele, os olhos, tudo tinha uma luz, uma moldura de luz. De repente, todos os meus traços tornaram-se harmônicos, a boca, que sempre fora caída, continuava caída, o nariz continuava redondo, as pálpebras inchadas, porém tudo isso era bobagem porque havia algo maior, mais importante, a moldura. Havia luz na minha face, e não era uma luz artificial de refletores. Era aquela luz que a gente vê em imagens religiosas, luz de quem é iluminado por Deus. Foi assim que me senti, próximo de Deus.
Arlete estava angustiada com o meu silêncio, eu não tirava os olhos do espelho.
Ficou bom, eu disse. Eu gostei.
Gostou dessa merda?
Não estava uma merda.
Está uma merda, sim. Você está horroroso. Você não vai sair daqui desse jeito.
Eu não estava mentindo e era óbvio que ia sair dali daquele jeito. Aquela tinta tingiu alguma coisa muito profunda dentro de mim. Tingiu a minha autoconfiança, o meu amor-próprio. Foi a primeira vez, em vinte e dois anos, que olhei no espelho e não tive vontade de quebrá-lo com um murro. Beijei Arlete e saí feliz, pensando que não passei a maior parte da minha vida querendo ser outro cara.
…Às dez horas da noite, Cledir, usando um vestido branco, com babado no quadril, saiu do Mappin e entrou no meu carro azul-metálico.
Eu queria levá-la para um motel e foder a noite inteira, mas tinha combinado de passar no bar Gonzaga, mostrar o pagamento da aposta para meu primo Robinson. Na verdade, eu poderia fazer isso outra hora, outro dia, a verdade é que eu queria mesmo passar lá, estava me sentindo bonito com aquele cabelo, minha camisa social, minha calça jeans, e aquele carro que não era meu mas que fazia parte do pacote. Além disso, eu estava acompanhado de Cledir, uma morena sensacional que, eu havia decidido, ia ser minha namorada. Talvez eu até me casasse com ela. Falei: Cledir, tenho que dar uma passadinha no Gonzaga e depois eu vou te levar para uma noite inesquecível. Robinson talvez me emprestasse algum para pagar o churrasco e o motel.
Estacionei, desci, abri a porta para a morena espetacular e entrei. Entrei com a minha namorada no Gonzaga. Marcão, Galego, Suel, todos bebendo cerveja, menos Robinson, que ainda não tinha chegado. Todo mundo parou de falar. Ficaram nos olhando, todos, eu, loiro, de camisa social, com aquela morena sensacional, ninguém parava de olhar.
E aí? Perguntei.
Ninguém respondeu. Todos de boca aberta, inclusive o Gonzaga, o dono do bar. Três garotos jogando bilhar. Pararam e ficaram nos olhando.
Essa é Cledir, minha namorada.
Nada, ninguém disse nada.
Puxei uma cadeira para Cledir, ela já estava ficando encabulada. Foi então que Suel começou a rir. Olhava para mim e ria. Nunca fui amigo de Suel, vez ou outra ele me pedia uma cerveja, eu pagava e ponto final. Todo mundo no bairro sabia da fama dele, eu nunca quis saber de nada, ele que se fodesse, essa sempre foi a minha filosofia de vida.
O que foi? Quem é o palhaço? , perguntei.
Poxa, você ficou loiro mesmo, ele disse. Ficou engraçado.
Você está achando graça, Suel?
É engraçado, porra. Parece um gringo.
Vai ver que você pensa que eu sou veado.
Porra, você chega aqui parecendo um gringo, achei engraçado, porra. Qual o problema, porra?
O problema é que você me chamou de veado.
Ele riu, chamei nada.
Tem um tipo de risada que me deixa louco. Dei o troco.
Amanhã, às seis horas, em frente ao bar do Tonho. Vamos fazer duelo.
Suel ficou branco.
Que papo besta é esse?
Puxei Cledir pelo braço, fui saindo.
Você entendeu muito bem, eu disse.
Levei Cledir para casa, passe na loja para devolver o carro, e fui dormir. Perdi a vontade de foder naquela noite.
No dia seguinte, acordei com dor de dente e não fui trabalhar. Estava arrependido de ter proposto o duelo, aquilo tinha sido uma bobagem, uma estupidez sem fim. Quis dar uma de bacana para impressionar Cledir e me ferrei todo. Suel era um negro de foder. Diziam no bairro que a profissão dele era roubar toca-fitas. Ele poderia ter amigos da pesada, certamente sabia manejar uma arma. Senti medo. Eu nunca tinha pego uma arma. Suel venceria, eu tinha que pedir desculpas para ele. Não me incomodo de pedir desculpas, vivo fazendo cagadas e pedindo desculpas. Outra possibilidade era não aparecer no Tonhão. Conseqüência: Suel poderia ficar puto e me pegaria na rua, desprevenido. Era melhor tentar uma negociação. Tomei meio frasco de Novalgina e saí para procurá-lo. A mãe, os amigos, o irmão, ninguém sabia dele, deixei recado em todos os lugares. Às cinco horas da tarde, meu dente piscava de dor e eu não tinha encontrado o negro. Passei na casa do meu tio, arranjei uma espingarda calibre 28, coloquei dentro de uma caixa vazia de lâmpadas fluorescentes que tinha lá, coube direitinho, e fui para o Tonhão. O plano era o seguinte: eu tentaria uma conversa, faria a cena do bebi demais e deixa disso, mas, caso precisasse, a arma estaria ali, perto de mim. A gente nunca sabe o que vai acontecer.
No ônibus, a caminho do bar do Tonhão, quase vomitei na nuca do passageiro no banco da frente. Maldita Novalgina. Fiquei pensando se não tinha um jeito de resolver o assunto sem ir até lá. Não tinha. Desci do ônibus, o dente me aporrinhando, andei duas quadras até chegar no bar do Tonhão. De cara, as coisas começaram a dar errado. Cledir estava sentada no balcão e, ao me ver, correu na minha direção, com voz de choro, veio implorar para que eu desistisse daquela bobagem. E eu que tinha pensado em nunca mais ver a Cledir. Uma boa oportunidade, pensei. Cledir soluçava, implorava, não faça isso, não estrague a sua vida. Tudo bem, Cledir, não precisa chorar, você tem razão. Apartamento com dois dormitórios, sem entrada, aproveite. Não vou duelar. Móveis para cozinha. Vou me casar com você. Tudo para o seu lar. Vou trabalhar direito naquela loja de carros usados, vou melhorar minha vida. Mude para o melhor. Coisas boas passaram pela minha cabeça, mas eu não disse nada disso para Cledir. Eu disse: nem fodendo. Realmente não dá para entender como é que um sujeito faz uma bobagem dessas. Só há uma explicação: Destino. Antes da gente nascer, alguém, sei lá quem, talvez Deus, Deus define direitinho como é que vai foder a sua vida. É isso. Era a minha teoria. Deus ó pensa no homem quando tem que decidir como é que vai destruí-lo. Quando ele não tem tempo, faz uma guerra, um furacão e mata um monte, sem ter que pensar em nada. Em mim, ele pensou.
Aquele cara vai aprender a não andar por aí chamando os outros de veado, eu disse.
Ele não te chamou de veado, chamou de gringo.
É a mesma coisa. Veado e gringo são a mesma coisa.
Também não sei de onde eu tirei isso. Fui para a praça, carregando minha espingarda dentro da caixa. Suel chegou logo depois. Estava desarmado, de mãos dadas com a namorada. Isso me encheu de coragem. Peguei a espingarda. Ajoelhei na posição de tiro. Pega tua arma, Suel. Ele falou que eu devia estar brincando, somos amigos, ele disse. Não éramos amigos porra nenhuma, mas eu poderia perfeitamente pegar essa deixa e encerrar o assunto.
Pega tua arma, insisti.
Ele ria, não sabia se acreditava ou não. Suel queria mesmo desistir e isso me encheu de coragem. Olhei as pessoas na porta do bar do Tonhão, todos me observando, isso me encheu de coragem, mirei.
Se você quiser me matar, Máiquel, vai ter que ser pelas costas, ele disse.
Suel ficou de costas para mim e saiu gingando, de mãos dadas com a namorada.
Pode atirar, ele gritava, me mate pelas costas.
Dei o primeiro tiro, Suel voou no chão, deve ter morrido na hora. A namorada berrava e tentava arrastar o negro para o carro. Dei outro tiro sem mirar e acertei na cabeça de Suel. Foi assim, as coisas aconteceram desse jeito. Ele foi a primeira pessoa que matei. Até isso acontecer, eu era apenas um garoto que vendia carros usados e torcia para o São Paulo Futebol Clube.
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