
1.
Se houvesse eleição para o botequim mais sórdido da cidade, este pé-sujo miserável na Ronald Carvalho certamente ganharia, pensou. O atendente atrás do balcão trouxe a xicarazinha de café e um daqueles açucareiros de tampinha móvel que nunca derramam a medida exata. O garoto olhou o inspetor sacudir o açucareiro com um sorriso idiota. Oh shit, disse Roza, ao entornar demais o açúcar. E tragou com desgosto o café requentado e excessivamente doce, enquanto olhava o mostruário imundo, com a carne assada, os ovos amarelos e a linguiça gordurosa. Sentiu uma súbita azia. Vocês não sabem fazer um mísero café, seus estúpidos? O café foi feito à tarde, depois do almoço, doutor, e ninguém toma café à noite, disse o rapaz do balcão com mais um sorriso idiota.
Oh shit! Toda aquela conversa com o atendente estúpido o distraíra quanto à sua tarefa. Trabalhar por tarefas era a nova regra de eficiência para o projeto Delegacia Legal, e a sua da vez era observar atentamente um grupo de jovens carecas com roupas negras, tatuagens e pulseiras de metal que se divertia bebendo e dizendo besteiras no bar moderninho em frente, do outro lado da calçada. Eita jovens idiotas e pensou mais uma vez que se aposentar não seria uma má ideia. Não é que esteja ficando velho e não seja capaz de dar conta de suas “tarefas”. Ainda era capaz de manejar com destreza seu trezoito e se quisesse iria naquele barzinho e meteria porrada naqueles fedelhos carecas sem sequer se sujar. Mas havia coisas mais importantes do que vigiar um bando de adolescentes e lembrou-se então de Maria, que a esta hora da noite estaria em seu sítio serrano, bebendo um vinho, comendo um queijo e vendo novela. Maria com seus seios quentes e sua vagina cabeluda e úmida. Sim, paciência, falta pouco para se aposentar…
E de repente, Roza se deu conta de que perdera o alvo: onde está a menina magra dos cabelos compridos castanhos e do piercing no nariz? Oh shit, será que ela discretamente saiu enquanto discutia com o rapaz idiota do balcão? Aquela moça de dezesseis anos era mais esperta do que pretendia. Meninas nesta idade já estão em franco aprendizado para se tornar mulheres… Apurou a vista para ver se a esguia silhueta da garota não estava escondida entre os bíceps dos rapazes, mas não a detectou. Ela fugiu, porra, estou mesmo envelhecendo…
Roza lamentou o tempo perdido na caça ao guarda-costa. Ele havia avisado aos seus colegas que aquele era um típico coelho, mas hoje a polícia está totalmente à mercê da televisão, dos políticos e das novas regras administrativas de “eficiência”. Uma boa investigação precisa ser realizada com o cuidado e a paciência de uma arte, não com a pressa de um “serviço”. O guarda-costa, ex-policial, ex-segurança de boate e ex-dj de festas funks era bronco, mas Roza viu logo que se tratava de um bom rapaz e bastante ingênuo. O assassino da promotora era alguém sofisticado que fizera um crime sem deixar pistas evidentes. Além disso, o corte na garganta da mulher havia sido realizado com precisão cirúrgica, com a leveza de uma mão delicada, que não correspondia ao perfil do guarda-costa musculoso. Agora ele havia sido preso em Natal e com certeza estaria sendo torturado em alguma sinistra prisão nordestina inutilmente. Em breve, ele confessaria um crime que não cometera, a imprensa e a opinião pública ficariam satisfeitas, o rapaz seria jogado numa prisão imunda e o caso estaria encerrado para a felicidade geral. Menos para o inspetor que ainda se atinha a uma noção antiquada de “justiça” e a uma ética pessoal: não havia crime perfeito, ele jamais havia contribuído para um inocente ser condenado. Roza não suportaria se aposentar com esta mancha em seu currículo…
O inspetor jogou uma moeda de cinquenta centavos no balcão e atravessou a rua em direção ao bar moderninho, mas o atendente idiota do balcão gritou é um real, é um real, doutor. Oh shit, já paguei o suficiente por aquela merda de café, grunhiu, mas o rapaz veio atrás dele, é um real, é um real… O patrão não deixa, murmurava o rapaz desesperado. Roza, então, entregou mais uma moeda ao pobre garoto, mas o pior já estava feito: o bando de jovens carecas já havia percebido sua presença e começaram a rir com a situação. Um deles gritou: Pega ladrão! E deu uma gargalhada, o que fez Roza acariciar seu trezoito por baixo da gabardine. Calma, calma, falta pouco para eu me aposentar e pensou nas pernas e nos cabelos longos de Maria, í quela hora tomando um vinho junto à lareira de seu sítio…
Era necessário pensar rapidamente, pois o rapaz da gargalhada, um careca vestindo uma camisa de um grupo de heavy metal, e com uma enorme tatuagem de caveira no braço, resolveu encarar o inspetor com um olhar imbecilmente desafiador: o que foi, aí, meu velho? Velho o caralho, seu moleque miserável, foi o que Roza pensou no exato momento que a silhueta magra da garota dos cabelos castanhos e piercing no nariz saiu do interior do bar e olhou profundamente em seus olhos, como se o conhecesse. Agora, raciocinou Roza, a perseguição tornara-se inviável, pois a garota fatalmente o reconheceria e era preciso tentar outra coisa. Então sacou seu revólver e o distintivo e gritou: Alto lá,àfedelho, aqui é a polícia e considere-se preso por desacato à autoridade. E, sem perder jamais a atenção à menina, gritou ao resto do grupo, E vocês aí quietinhos! Vai todo mundo para a delegacia prestar depoimento, seus metaleiros de uma porra, seus punks de araque!
2.
Roza olhou para a menina de cabelos castanhos compridos e piercing no nariz deitada no sofá de seu apartamento na Siqueira Campos. Ela dormia um sono tranquilo, quase angelical podia-se dizer. Neste aspecto, era ainda uma criança: acabara de perder violentamente a tia promotora que cuidara dela desde pequena e dormia o sono dos justos. Por outro lado, no seu corpo de dezesseis anos a forma mulher já se instalara irreversivelmente: apesar de magra tinha os seios grandes e o quadril alargado. Seria sua estreita vagina tão cabeluda quanto à de Maria? Provavelmente não, pois as garotas de hoje tem este péssimo hábito de se depilar completamente. E Roza sentiu-se subitamente mal por estes pensamentos libidinosos: esta moça já não poderia mais ser sua filha, ela poderia ser sua neta! Oh shit…
Roza tinha certeza que aquela menina era a peça-chave para desvendar o caso do assassinato da promotora e temia por seu destino. Mas sua presença em seu apartamento criava uma situação constrangedora e mesmo antiética. Se a notícia vazasse, Roza poderia mesmo ser “aposentado” prematuramente e sem seus ganhos previdenciários. Mas ter deixado a menina partir era assumir um risco muito grande. Depois do suposto acidente de carro, era evidente que a vida da menina estava por um triz. Era necessário fazer alguma coisa…
E foi quando estava imerso nesses pensamentos sombrios que Roza percebeu que estava sendo observado silenciosamente pela moça. E reparou pela primeira vez que seus olhos eram de uma cor castanha quase verde e viu neles uma profundidade estranha e insólita. Ela não parecia nem assustada nem surpresa. Ele pensou em dizer alguma palavra de conforto, mas algo o impeliu a ficar calado. Havia no olhar dela uma segurança que era por si só inquietante. Ficou claro que tinha diante de si, não uma menina indefesa e frágil, mas uma mulher na acepção mais completa da palavra. Isto estava escrito em seu olhar, o olhar que uma mulher dá a um homem. E quando ela descobriu vagarosamente uma de suas pernas e deixou à vista uma pequena tatuagem em seu tornozelo, Roza se sentiu ele próprio indefeso. E compreendeu afinal que aquela moça nunca estivera em perigo. E que não fora por esta razão que ele a perseguira. E agora o seu apartamento se tornara para ele próprio desconhecido. Oh shit, que se dane a aposentadoria! Que se dane a promotora morta, que se dane o guarda-costa condenado. E imediatamente antes de se atirar ao sofá, pensou uma vez mais em Maria, a esta hora dormindo tranquilamente em algum sítio distante numa fria região serrana…
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