
Eu tinha acabado de completar 19 anos e o que de mais significativo havia feito fora torturar bichos de estimação, espantar as primas em noites de lua cheia, jogar pedra nos filhotes da cadela da nossa casa de veraneio e arrumar brigas a ponto de os meninos da Hilário de Gouveia reunirem-se para combinar de me linchar quando eu estivesse voltando da escola. As primas levaram meses fazendo a minha escolta de volta pra casa. A contragosto, tenho que admitir porque, por elas, eu merecia cada soco que aqueles meninos sonhavam em me dar. Elas mesmas, se pudessem, participariam de bom grado do linchamento. Mas família grande e ainda por cima italiana é assim mesmo. Não vê a máfia? Pois eles me protegiam a despeito do que eu tivesse feito ou imaginasse fazer. E justificavam aquele meu jeito com a morte prematura do meu pai, coitado. Mas eu tenho as minhas dúvidas. Não sei se ter um pai brutalmente morto em um acidente na auto estrada, escalpelado pelo para brisa do fusca a caminho do aniversário de 14 anos do filho, justifique as torturas que impingi í s primas e aos bichos, ou as surras que dei nos meninos. Duvido que justifique o prazer que senti quando parti ao meio um dos filhotinhos da gata da casa de verão, logo o mais bonitinho da ninhada. Estranhamente, a gata não reagiu. Continuou amamentando os outros dois enquanto eu arrancava a cabeça do terceiro. Sua única reação foi miar quando devolvi a metade do gatinho para suas tetas, e continuar miando, e de longe o miado começava a parecer choro de criança, e aí eu lancei longe, no meio do mato, a outra metade do gato. Será que ela iria buscá-lo?
No dia seguinte, como vinha há semanas fazendo ” criança me exaspera com essa mania de fazer todo dia a mesma coisa da mesma forma ” a prima caçula foi ver a gatinha. Eu chupava uma manga e quase engasguei com o grito que ela deu. “MÀE, MÀE, SÀ TEM DOIS GATINHOS E MEIO NA CAIXA DA GATA!!”. Não sei porque tanta histeria, tanta balbúrdia, um corre corre danado por causa de um gatinho pela metade dentro de uma caixa cheia de formiga. Foi uma auê na família, especulações mis. “Deve ter sido gato macho. Gato macho que faz isso”. “Não, isso é coisa de cachorro.” “Que cachorro nada, foi porco do mato. Tem muito por estas bandas.”
Era esse tipo de coisa que eu costumava fazer. Mas isso foi só até os 19 anos, quando minha mãe me incumbiu de trazer pro seio da família os ossos do meu pai. E lá fui eu com o dinheiro contado para pagar o coveiro, comprar três passagens de ínibus ” uma de ida e duas de volta “, fazer um lanchinho no caminho e voltar pra casa com os ossos intactos. No cemitério, ainda tentei negociar preço com o coveiro, mas ele estava irredutível.
Tudo isso, só pra limpar esse punhado de ossos e transferir pra essa outra caixinha? Não, obrigado. Pode deixar que eu mesmo faço.
Com uma luva, fui pegando ossinho por ossinho e colocando dentro da caixa que a mãe havia me dado. A viagem de volta foi estranha. Os ossos batendo dentro da caixa que pulava no meu colo faziam um barulho estranho e o cheiro que se espalhava no ar quando o vento batia já começava a chamar a atenção das pessoas. Mas eu era um homem de 19 anos e tinha que suportar tudo aquilo com dignidade. Afinal, não era o meu pai ali dentro? Aproveitei a parada no posto pra dar uma geral na ossada. Pedi emprestada a borracha de água, espalhei os ossos na calçada, alguns ainda tinham umas pelancas penduradas, e comecei a lavá-los. Tive que dar um chute em uns dois cachorros que apareceram não sei de onde. Um deles ainda conseguiu levar um osso. Nunca fui bom em anatomia, mas acho que foi um fêmur. Teria corrido atrás dele se não estivesse tão cansado da viagem. Não sei quantos ossos tem o corpo, mas sei que são muitos, e um não ia fazer a mínima diferença. A família é italiana, mas é ruim de conta. Ainda joguei o crânio na direção do animal pra ver se ele desistia do fêmur, mas só o que eu consegui foi estraçalhar a parte da cabeça do pai que o para brisa não tinha conseguido arrancar e espalhar os dentes dele no chão do posto. Me aproximei para catar os pedaços e vi uns pontinhos amarelos brilhando no asfalto. Não consegui acreditar: aquelas pequenas pedrinhas, reluzindo sob o sol, iluminando o meu caminho, eram dezenas de obturações de ouro. Arranquei-as dos dentes uma por uma e as guardei no bolso. Juntei o restante dos ossos dentro da caixa e me acomodei no ínibus. A última coisa que vi antes de cair no sono foi o cachorro estirado na beira da estrada roendo o fêmur do meu pai.
Fui recebido com seriedade pelos familiares. Nem pareciam ser os mesmos que vez por outra desejavam me pendurar na amendoeira do quintal. Minha mãe estava vestida a caráter. Não fosse o preto do seu vestido, poderíamos imaginar que ela esperava o noivo. Até véu ela usava. Deixei a caixa com ela, dei uma desculpa qualquer e fui correndo pro quarto. Não via a hora de contar quanto ouro eu havia conseguido juntar. Será que a mãe sabia daquelas obturações? Ao mesmo tempo em que eu pensava não ser lá muito certo roubar a própria mãe, achava que, ora bolas, eu merecia aquilo. Afinal, eu era um rapaz traumatizado. Além do mais, aquilo podia ser considerado uma herança tardia. Eu estava perdido nesses pensamentos, sem saber se ficava feliz, se tentava me remoer em culpas ou se morria de medo de ser descoberto, quando ouvi um grito. De mãe. E grito de mãe a gente não confunde.
ï?
RIIIIBAAAMAAARRRR!!!!!!!! SEU IN-COM-PETENTEEEEEEE!!!!! SEM CARíTEEEEERRRRR!!!! NÀO SEI O QUE FIZ A DEUS PRA MERECER UM FILHO DESSESSSSSSSS!!!!!
Catei as obturações, guardei no bolso do short e desci correndo as escadas, tentando, naqueles poucos segundos que me separavam da forca, amadurecer a desculpa do trauma e da herança tardia. Cheguei na sala e vi minha mãe ajoelhada ao lado da caixa aberta, os ossos espalhados pelo chão. Assim que apareci na soleira da porta, ela grudou seus olhos nos meus, como fez quando descobriu o culpado pela morte do gatinho. Os tios, de braços cruzados em volta dela, me lembraram uma cena do poderoso chefão, quando a família reunida decide dar cabo da laranja podre do clã. Naquela altura da história eu já tinha desistido de inventar qualquer desculpa. Melhor mesmo pensarem que, na verdade, eu não passava era de um ladrãozinho de meia tigela, sem caráter ou amor à própria mãe. Que eu merecia ser castigado, pendurado por apenas uma das pernas de cabeça pra baixo no galho mais alto da amendoeira, arrastado amarrado no pára-choque de algum carro, condenado à morte por afogamento ou jogado dentro de um vulcão em erupção. Ela se aproximou. Primeiro me chamou de imprestável. Depois perguntou onde eu tinha aprendido a ser tão burro. Mas nada, nada nunca me fez sentir mais medo do que quando ela, puxando a minha orelha, sussurrou entre dentes no meu ouvido:
ï?
O que você fez com o fêmur do seu pai?
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9 respostas
calomeni, gostei muito da história – quanta imaginação!! penso que maldade e perversão sempre mexe com a gente. Sem adjetivação, direto, sem prolegômenos. parabéns.
Não entendo porque uma mãe escolhe justamente o filho mais sem noção para fazer uma exumação sabendo como seu filho era? Coisa de doido ou de conto? rs rs Adorei!
Bj bj bj
Quando é criatura que vamos fazer essa seleção e imprimir,cada dia tu fica melhó! bjos RI de chorarr hehehehehehehahahahahahaahahahahahahahah
boa história. curiosa.
muito massa!
Ana
maravilha. bom para caramba. surpreendente no final. que porsonagem genial. um tremendo fila da puta!! delicioso e o que é melhor curto, enxuto. parabéns.
Ana, realmente extraordinaria a trama em que nos envolves……Parabens….
Nacrau,
Se esse menino existisse eu diria que é um psicopata. Ainda bem que é só um conto.
Amei. Bjs. Fafá
Ana, o conto é ótimo! Curto, grosso, mau e muito bem escrito! Ainda bem que esse psicopata, como disse a Fafá, é personagem de um conto… seu! Vc tá cada vez melhor! Gde beijo! Paula
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