
…Havia em casa um mico, trazido do sertão por meu aví. Um dia mordeu o primo. Foi condenado a ser pendurado pelo pescoço até que a morte sobreviesse. Depois, jogado pelo rabo num canto da chácara. Eu senti a morte do macaquinho como a da gente e decidi dar-lhe sepultura cristã. Levei-o para o outro lado do riacho dos inhames, abri um buraco, forrei de tijolos, fiz a obra de misericórdia e cobri com ladrilhos velhos. Dias depois fui ver como estava e recuei de horror e nojo diante da massa peluda, pegajosa, estufada, sem nome e fervilhando da vida de mil vermes dentro da orquestração das moscas zumbindo. Desprendia um cheiro tão poderoso que me fez cambalear. Era aquilo! A putrefação! Nunca mais a esqueci e, quando estudei Medicina Legal, fixei suas fases sucessivas e hediondas. Transformei esse conhecimento, ai de mim! No suplício indiano que me faz sofrer não só a morte como a desagregação cotidiana e sabida dos meus mortos. Cada dia que passa eu sei como eles vão ficando. À como se os tivesse vendo, hora por hora, através da terra translúcida. Essa vidência me envenena e penso sem para no festival indecente das vidas que nascerão da morte de minha carne. Pobres, pobres, pobres mortos! Avant tout, votre ventre éclate… Vocês estouram como nas Danças Macabras e no afresco horrendo do Triunfo da Morte, do Campo-Santo de Pisa. Ficam verdes, amarelos, roxos, furta-cor, engordam e murcham, crescem e mínguam, emitem gases e o artifício dos fogos-fátuos! Entram em fermentação butírica, ficam rançosos, cheiram a camembert e roquefort. Deitam águas, caldos, sangue e sânie, banha mole, choram os próprios olhos, esvaziam as órbitas. Ao fim dum ano, tiram a máscara da cara provisória e a caveira permanente aparece rindo, rindo cada vez mais porque lhe cai a mandíbula e depois ela rola de lado quando já não a sustenta mais o pescoço que se desagrega. Vocês ficam em ossos, ossos que desmoronam. Sobra só aquela espécie de pó de café final, aquele humilde e último cambuí. Os vermes já se foram e as baratas, quando vem o último conviva, a Lucilia tenebrans, a mosca tenebrosa que põe os ovos dentro do crânio esvaziado e cujas larvas se desenvolvem na manteiguinha que ficou de seus pensamentos, suas paixões, suas lembranças, sua memória. Depois elas voam para outros defuntos e, desértico, o gótico esqueleto vai se esfarelar submetido í s leis da física e da química que regem os minerais. Os ossos vossos, os meus também… Suplício engenhoso que sofro cada dia, diante de cada morto, pensando neles, passando nos cemitérios ” Suplício que nasceu ali, abrindo a cova onde apodrecia um bicho…

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