
Um dia eu me abri um pouco com meu amigo Marcelo, e ele disse que sou obcecado por seios. Não acho que isso seja verdade. Não gosto de seios em geral, gosto apenas dos seios lindos. E não tenho a menor necessidade de sair por aí atrás de várias mulheres para ver e tocar milhares de peitos anínimos. Acho que me bastaria uma esposa com seios lindos, que entendesse e aceitasse minha necessidade de venerar os seios dela. Eu sonho com uma mulher compreensiva, compassiva, silenciosa ” e com seios lindos. Acho que isso não é nenhuma obsessão.
Numa manhã como esta, por exemplo, ela poderia ir até a porta comigo, e se despedir de uma maneira especial. Ela se encostaria na parede, abriria levemente a blusa, e me deixaria ver por alguns segundos a beleza recíndita do seu busto maduro. Os mamilos seriam proporcionais, o volume, macio e consistente. A pele homogênea seria inexplicavelmente vibrante. Eu certamente me aproximaria de vagar, e tocaria seus seios delicadamente, ora com as costas das mãos, esboçando uma carícia, ora contornando o volume com os dedos, intuindo por trás da carne morna a pulsação oscilante e aflita do coração feminino. Acho que uniríamos os rostos, e pelo tato ela atestaria a sinceridade do meu deleite. Provavelmente tentaríamos encontrar algumas palavras, mas eu resgataria o silêncio, aumentando a pressão do toque, causando-lhe uma tensão branda, que ela talvez chegasse a sentir como um sutilíssimo princípio de dor. Se ela exalasse um suspiro longo e doce, quase obsceno, aposto que logo se envergonharia, temendo que eu o tomasse por fingimento ou exagero sentimental. Mas eu lhe confortaria com um olhar cumpliciado, e ela se recomporia sem dificuldade, e logo se despediria carinhosamente, como uma mãe dedicada que sabe que está transformando um menino em homem. Duvido que depois de um momento desses eu ainda me recusasse a ser feliz.
Mas agora que pensei sobre isso, me ocorreu que a saudade daqueles seios talvez me paralisasse o trabalho. Sou um homem fraco, e admito a possibilidade de lançar o olhar sobre minhas colegas, buscando o sucedâneo do busto que teria deixado em casa. Então pode ser que eu descobrisse uma mulher mais jovem, que escondesse por trás da blusa a promessa de uma delícia semelhante à dos meus jogos domésticos. Meus olhos treinados não teriam dificuldade em expressar o convite indecoroso. E assim como nos sonhos í s vezes sabemos exatamente o que alguém está pensando, ela compreenderia meus planos secretos com precisão e rapidez absurdas. Um sorriso e um aceno silenciosos expressariam seu consentimento, e lhe bastariam alguns minutos para pensar numa desculpa que justificasse sua ida ao almoxarifado. Eu chegaria em seguida, logrando disfarçar a aflição, ao contrário dela, que soltaria os cabelos e os sacudiria ligeiramente, repetindo um gesto que teria aprendido nas telenovelas. Sua juventude justificaria esses arroubos, e eu não seria louco de reclamar com alguém que me compreendesse tão completamente. Um botão antes do outro, ela me revelaria o viço da sua pele, e eu me surpreenderia ao ver que aqueles gestos delicados não seriam exclusividade da minha mulher. Talvez por isso eu me desculpasse por sucumbir tão imediatamente a um prazer que eu também deveria sentir apenas com ela. Em seguida viriam o toque, a leve pressão, o acolhimento. Ela recostaria a cabeça no meu peito, e seus cabelos perfumados me provariam que nosso encontro não teria sido um sonho. Mas, quando eu me afastasse, olharia covardemente para baixo, para que algo ficasse incompleto, e precisássemos voltar no dia seguinte, e acabássemos por transformar nosso encontro em ritual. Eu nunca entenderia por que ela teria se virado de costas para abotoar a blusa, mas quando ela se voltasse para mim, eu compreenderia a mensagem silenciosa do seu olhar, que me intimaria a sair antes dela, para não levantar suspeitas. Mas, depois que voltássemos a nossas mesas, ela permaneceria tão discreta e natural que eu me sentiria torturado, e quase desejaria revelar nosso segredo. A partir desse dia, acho que uma pequena confusão se instalaria na minha vida: eu tocaria os seios da minha mulher pensando nos da outra, e os seios da outra pensando nos da minha mulher. Mas esse intercâmbio imaginário teria a vantagem de instalar uma familiaridade inapelável no ritual do escritório, e ao mesmo tempo temperar com certa ousadia o pacato ritual doméstico. Seria como se eu vivesse cada encontro duas vezes, e meu prazer dobraria de intensidade, sem que cada uma das mulheres precisasse redobrar um único dos seus gestos. Para que nada perturbasse minha felicidade, eu não teria filhos, pois sei que eles atentam gravemente contra o contorno e a consistência dos seios maternos.
E, se algum dia eu encontrasse o Marcelo, aposto que ele me cobriria de perguntas indiscretas. Mas eu não diria uma única palavra sobre meus rituais secretos, porque sei que certos homens que não sabem distinguir entre um sonho e uma obsessão. Mas eu sei muito bem, e sei que elas também saberão. Elas serão compreensivas, compassivas, silenciosas, e terão seios lindos. Definitivamente lindos.
Artigos Relacionados
Seja o primeiro a comentar
Deixe seu comentário