
Heloisa: À João! Acorda, João!
João: Oi, meu amor, o que houve?
Heloisa: João, tenho que te falar uma coisa. Eu já vinha pensando nisso há algum tempo. No começo, pensei que podia estar errada. Quem sabe, poderia ser só uma paranóia repentina. Mas não é, e agora tenho certeza disso. Toda a convicção em meu ser está me dizendo a verdade.
João: Mas o que houve, meu amor?
Heloisa: Não se faça de desentendido, João. Eu já sei de tudo! De tudo!!!
João: Não estou entendendo nada. Fale logo o que houve!
Heloisa: Eu já sei a verdade sobre o bebê que estou esperando.
João: Como assim? Ele está bem? Você está sentindo algo de errado na sua barriga?
Heloisa: Não, não é isso. Tudo está bem aqui dentro.
João: Então, o que é, Heloisa?
Heloisa: Ah, pare! Pare! Como se você não soubesse!
João: Aí, por Júpiter, o que foi que eu fiz dessa vez, Heloisa?
Heloisa: João”¦ João”¦ eu já sei que ele não é meu!
João: O quê!?
Heloisa: Ele não é meu!!! Não adianta mais tentar me enganar!
João: O bebê!?
Heloisa: À claro, quem mais? Não sei como você fez isso, mas todo o meu corpo está me dizendo que esse bebê não é meu!
João: Pelas tetas de Juno, Heloisa, como isso pode ser?
Heloisa: Ahhh”¦ não se faça de bobo! Eu sei que é toda a sua culpa!
João: Ai”¦ ai”¦ ai”¦ o que você vai querer fazer então?
Heloisa: Não sei, eu ainda não sei. Eu me sinto traída, me sinto violada, aqui carregando esse bebê que não é meu. Não sei se vou poder confiar em você do mesmo jeito de antes. Não se pode fazer isso com uma pessoa! Mas eu ainda te amo, então, não, eu não vou te deixar. Mas ainda não sei se vou querer manter esta gravidez. Talvez eu mantenha, já que ele é seu, já que você é ainda importante para mim. Mas eu realmente não sei, não sei se depois disso você ainda vale esse sacrifício. Eu tenho que pensar, e pensar muito nisso!
João: Ai”¦ pelo falo decepado de Uranos, ok, Heloisa, eu faço o que você escolher melhor.
Algum tempo depois.
Heloisa: À João! Acorda, João!
João: O que houve, minha querida?
Heloisa: Eu pensei muito, João. Pensei muito e decidi que não posso. Simplesmente, não posso. Não quero esse bebê que não é meu! Eu quero abortar, João!
João: Ai”¦ mas, Heloisa! Mas, Heloisa! Como? Isso não faz sentido!
Heloisa: Não! Está decidido, eu vou abortar!
João: Mas, Heloisa, ela já nasceu! Ela já tem seis anos de vida! Você quer abortar nossa filha de seis anos de idade?
Heloisa: Sinto muito, João. Mas não dá, eu simplesmente não posso manter as coisas como estão. Eu pensei muito e simplesmente não posso aceitar o que você fez comigo, o que você me fez passar. Eu vou abortar, mesmo que isso seja o fim de tudo!
João: Aí, pelos neurínios esmagados das três cabeças do cão Cerberus, pelo menos, então, deixe ela opinar sobre a sua decisão!
Heloisa: Ahhh”¦ tudo bem, se você insiste.
João: À Júlia-Catarina”¦àJúlia Catariana!!! Vem aqui, minha filha!
Heloisa: Ai”¦ ai”¦ ai”¦
Júlia-Catarina: O que foi, papai e mamãe?
João: Minha querida, tenho uma notícia trágica para te dar. À melhor você se sentar. Então, é sobre a sua mãe, ela decidiu que quer te abortar!
Heloisa: Ai”¦ sinto muito, mas não é minha culpa, Júlia-Catarina. Foi ele que fez isso comigo! Eu até fui ludibriada no início a acreditar que você era minha, mas logo descobri a verdade. Ele me enganou, o bastardo!
Júlia-Catarina: O que ela está falando, papai? Não estou entendendo nada!
João: Eu também não, minha filha. Eu nunca entendi.
Heloisa: Ahhh”¦ não se faça de zonzo, você sabe de tudo!
Júlia-Catarina: Não sei o que dizer, estou pasma com toda essa situação!
Heloisa: Ai”¦ Júlia-Catarina, volte para a sua cama, deite, relaxe, não pense no assunto, que de manhã eu te levo lá no médico para ser abortada.
Júlia-Catarina: Não! Que coisa! Pelas cicatrizes nos pés de Mercúrio, eu quero ter um dito nisso! Ok, se eu ainda tivesse tipo uns três anos de idade, até entenderia. Meu cérebro ainda não estaria muito desenvolvido, não teria nenhuma personalidade, teria pouca experiência de vida, quase nenhum desejo além dos básicos instintos. Mas agora!!!??? Pelo esperma de Marte no útero de Venus, eu acabei de acabar minha terceira dissertação sobre hieróglifos do alto Egito! Você não pode simplesmente abortar alguém que acabou de acabar sua terceira dissertação sobre hieróglifos do alto Egito! À insano!!!
João: Eu quero ler! Essa explica os holofotes?
Heloisa: Cale-se, João! / Júlia-Catarina: Ai”¦ cale-se, papai!
Heloisa: Eu sinto muito, mas eu não sei o que mais fazer. Não posso continuar vivendo assim!
Júlia-Catarina: Acho que precisamos de uma quarta opinião para esta situação. Dois minutos, vou ligar para um amigo!
Alguns minutos depois.
Júlia-Catarina: Aqui está ele, já lhe expliquei toda a situação!
Coelho fumando um charuto: Boa noite, senhor e senhora!
João e Heloisa: Boa noite!
Coelho fumando um charuto: Devo confessar que estou extremamente intrigado pela situação que aqui se apresenta. Diga-me, senhora Heloisa, como chegou a essa conclusão de que Júlia-Catarina não é sua?
Heloisa: Senhorita!
Coelho fumando um charuto: À”¦ sim, senhorita!
Heloisa: Desde que descobri que estava grávida, eu senti algo estranho em mim. Como se parte de mim tivesse sido tomada, e uma parte nova sido colocada no lugar. Demorou um tempo, mas finalmente entendi que era porque o que tinha em meu útero não poderia ser meu.
Coelho fumando um charuto: Hum”¦ e foi algo no senhor João, que fez você se sentir assim?
Heloisa: Sim”¦ sim! Sua cara enquanto estava me impregnando, como se um fardo estivesse sendo tirado dele naquele momento. Tive muitos pesadelos com aquela expressão, até que numa noite finalmente entendi o que havia acontecido.
Coelho fumando um charuto: Entendo”¦ porém, acredito que posso imaginar uma explicação plausível para todas essas sensações e eventos. Vejamos”¦ e se o que tivesse realmente acontecido fora que a senhorita tivesse em primeiro lugar impregnado o senhor João, com o que daria origem a sua filha, e, por fim, ele não podendo suportá-la, tenha a impregnado de volta em você. Isso explicaria, que sim, que ela é na verdade a sua filha.
Heloisa: À”¦ sim”¦ sim! Isso faz muito sentido!
Coelho fumando um charuto: Sim! Não podemos provar tal ocorrido com absoluta certeza, mas também não há forma de negá-lo. Logo, há uma justa dúvida que impede uma sentença conclusiva.
Heloisa: Nem é necessário, eu já sei o que fazer! Júlia-Catarina!?
Júlia-Catarina: Mamãe!?
Heloisa: Eu vou te adotar!
João: Espere”¦ isso quer dizer que ela não é minha?
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2 respostas
Muito bom o texto, muito criativo e engraçado.
Excelente, surrealista, Alice, sei lá!
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