
Tesla Metterling conjecturou uma vez sobre a existência de um Deus em meio a inexistência de um paraíso. Era um Deus prosaico e humilde, que provavelmente vivia em uma choupana e cuidava de um jardim que não se chamava Àden. Já eu considero o contrário (poderia ser chamado de contrário?), a inexistência de um Deus em meio a existência de um paraíso. Um pacote paradisíaco completo, cheio de pássaros verdes e crianças lourinhas e rechonchudas tocando harpa. Nenhum Deus. Pergunte a qualquer habitante do paraíso quem é Deus e eles inclinarão as cabecinhas para a esquerda e coçarão o cotoruto. Os habitantes do paraíso não prestam contas a ninguém, e não conhecem nenhum velho autoritário de barbas brancas. Todos os habitantes do paraíso são jovens, belos e saudavelmente ateus. Mas nada disso deve ser levado à sério. São apenas imagens. Imagens reles de um daqueles sonhos que não nos lembramos no dia seguinte. Até onde eu sei, Tesla Metterling não era atéia, mas também não possuía nenhum fervor religioso em particular, ao menos nunca demonstrou, ao menos não para mim. Estando agora em frente ao seu cadáver, sinto ganas em questioná-la acerca de sua fé, mas temo que ela possa responder.
Não tenho nada contra Deus, ele nunca cometeu ato particularmente ofensivo para mim, embora a existência de animais como percevejos e rinocerontes me pareça um tanto fora de propósito, mesmo uma piada de mau gosto. Tesla Metterling já disse uma vez (talvez mais de uma vez) que a cerejeira em flor era a prova cabal e definitiva da existência de Deus e de seu apurado senso estético, embora a existência do homem pudesse suscitar algumas dúvidas a este respeito. Ela considerava o homem um acidente de percurso, considerava que Deus pudesse estar dormindo durante a aurora da humanidade e, quando despertou, já era tarde. Pensando nisso agora, sou capaz de rever minha noção de paraíso sem Deus. Talvez ele esteja lá, dentro de uma caverna, em profundo sono. Será que Deus sonha? Será que toda a existência não seria um sonho de Deus e, quando ele despertar, estará tudo acabado? Se isto for verdade, não tenho motivo algum para lamentar o meu crime, o meu ou o de qualquer outro. Ora, que bobagem do homem falar em crime por motivo banal ou torpe, e isto ser um agravante do crime em si. Antes, deveria ser um atenuante. Antes, nenhum crime é cometido por motivo banal ou torpe, banal ou torpe (ou ambos) é o próprio homem que comete o crime. Crimes com motivo banal ou torpe são acidentes de percurso, da mesma forma que o próprio homem, criminoso ou não, nas palavras de Tesla Metterling. Se Tesla Metterling, no alto de sua sapiência, já considerou a torpeza e a banalidade como inerentes ao próprio crime e inerentes ao próprio homem, quem pode julgar? Pensando assim, todo assassinato não poderia ser mais do que uma eutanásia, sem agravantes ou atenuantes. Li sobre um julgamento na Alemanha, onde um canibal se defendia perante o júri com um único e inatacável argumento: “Eu estava com muita fome”. Pois sim, ela sim, a fome, ela é que é torpe e banal. Este argumento também serviria para estupradores: “eu estava com muito tesão”. Pois bem: comer e foder, as necessidades essenciais do homem. Infelizmente este argumento não serviria para mim, já que meu crime foi motivado pela ganância, também ela banal e torpe, mas não essencial. Mas, assim como tudo, foi só um acidente de percurso. Não desejava assassinar Tesla Metterling, figura muito admirada por minha pessoa, que possui quatro de seus livros na estante e um na cabeceira. Tesla Metterling foi uma mulher invulgar, de inteligência profunda e belos seios (agora posso ver que são próteses de silicone, e devo admitir-me decepcionado). Como se chamava o assassino de John Lennon? Graham Chapman? Não, Grahan Chapman era um dos membros do Monty Python, se não me engano, e pode ter assassinado muitas coisas, mas não John Lennon. Não, não foi nada disso. Eu gostava de Tesla Metterling, comprava seus livros e assistia suas palestras, mas não era fanático o suficiente para assassiná-la de maneira banal e torpe. A única coisa que eu desejava era a inefável escultura em bronze “A Ressurreição de Paracelso”, de Colombiano Cruz, que repousava na mesa de centro da sala de estar de Tesla Metterling.
Assistia eu a um banal e torpe programa de entrevistas na TV a cabo, e sabe-se que a vanguarda deplora entrevistas em estúdio, preferindo ocupar a casa do pobre entrevistado com cabos, rebatedores e booms. Pois assim foi com Tesla Metterling, e assim seria comigo, se fosse uma pessoa interessante. Pois então fiz o inimaginável. Não prestei atenção a uma palavra sequer da grande pensadora, hipnotizado pela imagem da sublime escultura que em momento algum saiu do quadro. Minto, prestei atenção em uma frase: quando ela disse que no dia 13 daquele mês partiria para o Afeganistão, em férias. Não tive dúvida alguma, marquei o assalto para o dia 14. Não precisaria de um saco grande, levaria apenas a escultura, só a escultura. Que culpa tenho eu se ela adiou a viagem? Que culpa tenho eu se ela despertou e foi até a cozinha buscar um copo dágua? Por que ela não mantinha um copo ao lado da cama, para aplacar surtos de sede noturnos? Eu sou um profissional, fiz minha parte, invadi a casa sem produzir ruído algum. Cuidei de todos os detalhes. A culpa foi dela, foi ela que deixou a escultura à vista dos telespectadores, foi ela que não viajou na data programada. O que eu poderia ter feito? Espere um minuto. Talvez a entrevista fosse uma reprise, é muito comum nos banais e torpes canais a cabo, repetir sua programação ad nauseum no decorrer de todo o trimestre. Talvez ela já tivesse feito a viagem e retornado. Um grande, monumental acidente de percurso. Tão grande quanto o homem, talvez maior.
Só me resta pedir perdão, Tesla, perdão por ser um ser humano e perdão por ter esmagado seu valoroso crânio. Por outro lado, esmaguei o seu crânio com uma das obras de arte mais sublimes que o torpe e banal Homem já produziu e isto sim, pode ser chamado de justiça poética. Agora que a escultura está manchada pelo sangue de Tesla Metterling, e adornado por pedaços de sua massa encefálica, deve valer mais do que uma fortuna, talvez duas fortunas, mas jamais me atreveria a vendê-la.
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3 respostas
Muito maneiro, ganhou meu voto.
ótimo o txt. votei nele. mas a sério não tem crase.
Maldita reforma ortográfica, que abole o simpático e elegante trema e continua deixando a inconveniente crase se meter onde não é chamada.
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